2008/05/28


O mais terrível e sutil dos pecados

O mais terrível e sutil dos pecados é a híbris. Sutil porque tem que ser velho pra sentir bem sua pecadice. Tem que ser um professor de melancolia. Terrível, porque... bem, quando você entender você vai saber.

Híbris é uma certa desmesura, descortesia, destempero, indelicadeza, mas cometida numa hora catalítica, que torna esta indelicadeza especialmente inadequada. Eu entendo como algo que por muitos anos vinha já investigando, e agora identifiquei como sendo este antigo e importantíssimo conceito grego clássico. Trata-se do que (usualmente) entendemos por "tirar onda"!... É aquela coisa que te deixa assim: "Pô, aí, sacanagem!..."

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Muitas coisas que se falam ser híbris, não são. Em especial várias listadas ali na Wikipédia:
1_ O John Nash desconsolado por achar que não podia perder. Ora, não existe algo como "a híbris do perdedor", porque a híbris é um crime que só pode ser cometido pelo ganhador. O sujeito que ganhou, ao zoar da cara do Nash, pode até quem sabe ter cometido ele mesmo um ato de híbris.
2_ Xerxes, ao enviar seus melhores soldados para tentar matar os 300 de Esparta nas Termópilas, não cometeu híbris. E muito menos "caiu numa armadilha". Ele fez uma manobra militar compreensível. Híbris foi depois, quando ele mandou decapitar e crucificar o corpo do rei Leônidas. Aliás, vilipêndio a cadáver é a epítome da híbris. [Essa deve ser a frase mais linda que eu já escrevi na vida...] Híbris no sentido mais amplo teria sido por exemplo não apenas dar uma grana para Efialtes, mas ainda dar algum bom cargo administrativo para ele nas terras conquistadas, ou outro disparate do tipo.
3_ O Doutor destino não cobre seu rosto devido a híbris... Ele é é vaidoso e arrogante. Mas desconheço que jamais tenha tratado nenhum dos quatro fantásticos ou nenhum arauto de Galactus da mesma forma como Odisseu tratou o cíclope.

Resumindo, lá nos Estados Unidos eles tentam enxergar isso como um tipo de mau perdedor, que não aceita seu lugar, mas é o contrário: é um mau ganhador, que se coloca num lugar alto demais, de onde pode sofrer uma queda ainda pior. Como "winners" natos, tentam redefinir o significado da híbris para fingir que não há forma de cometer este pecado, que eles estimam tanto. São o "number one" em sua prática.

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Quando cheguei aqui em São Paulo, ouvia muito falar que corintiano é chato. Não sei se cheguei em mau momento, mas não tenho achado não. Tenho achando os corintianos muito simpáticos, torcedores "do coração". O torcedor usual torce para seu time, e este em troca lhe "recompensa" com vitórias e títulos. No caso do Corinthians (e outros poucos), o torcedor torce e tem esse amor correspondido, como se o Corinthians torcesse pro corintianos em retorno.

Vi no dia do último jogo que o Timão jogou com alguma esperança de não ser rebaixado um ônibus cheio de torcedores, e foi uma das raríssimas vezes na vida que senti vontade de estar ali torcendo junto daquele pessoal.

Mas aí eles perderam. No dia seguinte uma horda de torcedores do Palmeiras (que não tinha jogado, mas tava em boa posição na vida) invadiu as ruas, gritando, xingando, buzinando. Passou por mim um carro Uno com palmeirenses da classe média, pararam no ponto de ônibus, e ficaram gritando, falando alto mesmo, enumerando as glórias palmerenses e os vexames do Curingão. Não senti vontade nenhuma de estar ali junto desse pessoal. No banco do carona, uma menina jovem, branquinha, bonita, de cabelo comprido castanho, com o inegável uniforme verdinho olhou pra mim e pessoas do meu lado com olhos arregalados, falando alto uma série de impropriedades. É "cachorra na balada"?... Não sei, mas uma coisa eu digo: é híbris!...

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Híbris é o cara que canta pneu depois da barbeiragem, cospe no chão depois de te derrubar, te dá aquela olhada com as sombrancelhas arqueadas usando óculos "matrix".

[Essa agora é viagem total] Frases comuns à prática da híbris são: "Mas também..." e "você sabe o que que eu tou falando". (Comuns mas nem necessárias ou muito menos suficientes.)

1 comment:

Daniel Poeira said...

O artigo da Wikipedia tem duas coisas interessantes. A primeira é a descrição "superciliousness", ou seja, o ato de quem arqueia a sobrancelha para denotar desprezo pelo perdedor e regojizo pela vitória. A segunda é o final da explicação: "...often resulting in fatal retribution". A híbris, para ser completa, precisa terminar com um soco na cara ou um tiro no estômago de quem a cometeu. Ou o contrário.