2007/04/01


A prosopoéia do universo

(explicação do título: Como qualquer estudioso profundo de minha obra (a.k.a. ninguém, a inanição da personalidade) sabe, considero que o mecanismo que cria o conceito mais comum de "deus" aqui na nossa classe média pequeno-burguesa intelectual é uma espécie de prosopopéia aplicada ao universo. )


De novo sobre essa entrevista com o Mocarzel, ele acabou de falar sobre como que uma das deficiências (ou "características") cognitivas dos portatores da síndrome de Down, ou de sei lá mais o que, é não conseguir muito entender símbolos, ou conceitos abstratos.. aí ele começou a enumerar uns "conteitos abstratos"... entre eles, lascou lá (acho que primeirão:) "deus..."

Que doença / condição / fenômeno legal, que incapacita as pessoas de acreditar em deus!!! Mas enfim.

Eu não gosto nada dessa mania da nossa classe-média elite-intelectual pequeno-burguesa reacionária progressista de dizer que deus é um "conceito abstrato". É pior do que isso, na verdade, deus ('D'?...) é freqüentemente tido como a épitome do conceito abstrato!

Eu nunca vou me esquecer duma das primeiras aulas de português que tive na 5a ou 6a série, quando no finalzinho da aula minha estimada professora Rosilene tentou expor pra gente pela primeira vez o que seriam substantivos abstratos e concretos. Botou lá a listinha, e tascou um "deus" (não lembro se foi com 'd' ou 'D'). Uma colega minha lá começou a discutir com a professora se era ou não era...

Ela é que tem toda a razão!!!... Porque há de ser "abtrato"? Deus é uma pessoa (qualquer deus ou Deus). É um cara que fica lá com sua barba enorme, sua toga branca, voando sobre as nuvens, dando porrada no capeta, sentado num trono feito de nuvens compostas por um punhado de arcos circulares (estilo Maurício de Souza). Porque ele é "abstrato"? Jesus é abstrato? Era uma pessoa, porra! O Dom Casmurro é abstrato? E a Capitu, traiu?

Enfim, e o Espírito Santo? Esse fica ali entre o abstrato e o concreto? Ou seria a trindade a areia, a brita e a água?


( "Britaaa britaaa britAAAA... Eeeeeu sooou ..." )


Eu acho que merece um estudo muito profundo e "concreto" essa mania de falar que dDeus é um substantivo/entidade/conceito abstrato. Acho que isso na verdade vem dum certo comprometimento...

As pessoas sentem que esse negócio de religião é coisa do século 13. Sabem que é superstição, que saci e ajo Gabriel é a mesma coisa. Lá no fundo elas sentem isso, quanto mais classe-média elite-intelectual pequeno-burguês, mais sente. Mas não aceita. Sente mas não aje. Nao dá o último passo libertador, talvez por falta de auto-confiança, por falta de gente em quem se apoiar, insegurança... (afinal, tem pesquisas que indicam haver menos ateus do que homossexuais. Assim é que não dá pra sair do armário).

E mais, além de classe-média elite-intelectual pequeno-burguês, quanto mais PETISTA, mais sente-e-deixa-de-agir.

Aí então o comprometimento é assim: "tá bom, Ddeus existe, mas não é esse dDeus intervencionista barbudo sentado num trono feito de nuvens. Isso é só uma figura, do mesmo jeito que o crucifixo nos tribunais é só uma referência histórica, cultural, e não religiosa. Deus é assim, um conceito abstrato, inexplicável, inexprimível, tem a ver com a existencia em si, com as leis da natureza..." aí começa umas viagens santas... santo daime. Ayahuasca neles!

Aí então a Zelite fica tranqüila. Nem é supersticiosa, o que é visto como um retrocesso, nem é atéia, o que é visto como imoralidade.

É quase como que talvez o que alguns dizem que foi uma contribuição do protestantismo pro desenvolvimento da Europa e América do norte. Uma evolução na religião que deixa as pessoas menos bitoladas.

Mas eu acho hipócrita.

Deus não é abstrato e intanível. Deus é CONCRETO, e NÃO EXISTE.

Acho até que uma seção especial desse estudo que estou propondo que alguém faça vai ser dedicada a um sujeito chamado Kant. Maldita raposa astuta e arredia!...

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