2009/05/16


A fonte dos diferentes tipos de pessoas

Existe aí pela Internet uma tal história de como o Steve Jobs, que seria um bobão sem habilidades, se deu bem em certo período de sua vida porque em certo momento no desenvolvimento das máquinas da Apple ele pôde aplicar conhecimentos de tipografia que teria adquirido de forma absolutamente casual em seu curto período no ensino superior. A história anda sendo citada por outros porque ilustraria o conceito de que toda a educação tem que ser recebida sem reclamar, porque você nunca sabe o dia que vai poder virar um milionário por ter aprendido a coisa certa no momento errado, mas aí um dia se ver de repente no momento certo.

Não tenho nada contra o Steve Jobs, acho um sujeito bacana. Mas fico triste de ouvir essa história por dois motivos. Primeiro porque faz ele parecer apenas um tolo em cuja cabeça caíram várias felicidades. Uma marionete da boa fortuna. Será que ele é apenas isso mesmo?

Segundo porque a história ao mesmo tempo pinta a tipografia como um assunto árido, como é talvez a trigonometria para alguns, e omite a existência das várias pessoas que contribuíram não só para o desenvolvimento da tipografia antes do Steve Jobs, mas figuras ilustríssimas do desenvolvimento da própria "tipografia digital", que a história dá uma impressão de ter sido inventada ao todo pelo Jobs.

Existem no mínimo dois nomes que devem ser sempre citados quando pensamos na história da tipografia computacional, e são duas pessoas que possuem uma grande paixão pelos dois temas, mesmo que tenham se especializado em apenas um.

Hermann Zapf, alemão nascido em 1918 e vivo até hoje, foi estudar tipografia após desistir (apenas por questões "logísticas") de seguir uma carreira de engenheiro eletricista. Foi nos anos subsequentes à WWII que ele criou alguns de seus tipos mais famosos, como a Palatino, que é uma de minha favoritas, e uma grande fonte de inspiração para outros criadores de fontes. Isso foi antes, portanto, dos computadores invadirem nosso cotidiano. Lá pro começo dos anos 1970 Zapf "cismou" em tentar desenvolver programas de computador para tipografia. Encontrou certa resistência no início, mas eventualmente as engrenagens da sociedade moveram-se nesta direção. Em 1977 ele se estabeleceu em uma empresa pesquisando tipografia digital, e nos anos 80 fundou outra empresa que foi eventualmente comprada pela Adobe nos anos 1990.

A outra figura é alguém que eu admiro muito, Donald Knuth. Um grande autor da área de ciência da computação, e um pioneiro que ajudou a criar a própria idéia da tal ciência, ao receber certa vez as provas tipográficas de um livro seu, achou tudo feio demais. Mas na mesma época ele viu em algum lugar o funcionamento de algum programa moderno de tipografia digital, e ficou encantado com a idéia. Naquele ano começou a planejar o seu próprio programa de tipografia, o TeX. A primeira versão rodava em um PDP-10.

Vale a pena mencionar en passant, pra termos noção do estado que a computação gráfica já se encontrava nos anos 1960 e 1970, que a formas mais comuns de desenhar letrinhas bonitas, as famosas curvas de Bézier, foram popularizadas em 1962. Bézier era designer de automóveis, e este tipo de curva veio bem a calhar para seu trabalho. Mas ele não realmente inventou nada mesmo não: as curvas não passam de cúbicas, e sua introdução na informática já se dera bem antes... Ele apenas "usou pra valer".

Knuth e Zapf tiveram a felicidade de trabalhar juntos em 1983 num tipo chamado AMS Euler, encomendado pela American Mathematical Society.

Aí então eu pergunto. Como pode ser que a tipografia digital tenha tanta história, e tantos personagens interessantes, pessoas apaixonadas tanto pela tipografia em si quanto pela computação, e aí a gente de repente precisa engolir essa ladainha do Steve Jobs? O Lisa (que ele nem menciona) e o Macintosh só começaram a ser desenvolvidos lá pra 1978. O Macintosh foi anunciado ao público em Outubro de 1983, quando, como pudemos ver, o trabalho ali do Knuth já tava bem avançado. Mais do que isso, já até existiam outros programas, como o tal programa que inspirou o Knuth antes.

O crédito que o Jobs merece é ter trazido isso para o desktop, assim como ter investido em interfaces gráficas. Foi mesmo algo muito legal. Mas ele não pode posar de grande visionário, fingir que inventou essas coisas. Ele é só um bom empresário, que pegou tecnologias existentes e levou até o varejo.

Me acompanhem aqui num passeio pelo tal discurso dele de 2006. Vejam o que ele fala sobre quando estudou caligrafia:

It was beautiful, historical, artistically subtle in a way that science can't capture, and I found it fascinating.

Grande "tecnólogo". Um sujeito que tem dificuldades em ver o belo naquilo que é "científico". Sinto pena pela má formação dele, que lhe causou esses traumas de ter pesadelos à noite com trigonometria, e essas coisas que não são "belas, históricas, sutis e fascinantes". Sorte que nem todo mundo pensa assim, tem gente no mundo como o Knuth, o Zapf, eu, e imagino que muitos de meus leitores... E como ele foi fazer o tal curso, afinal? Atirou um dardo e se matriculou no curso em que caiu?

Mais pra frente ele diz

If I had never dropped in on that single course in college, the Mac would have never had multiple typefaces or proportionally spaced fonts. And since Windows just copied the Mac, its likely that no personal computer would have them. If I had never dropped out, I would have never dropped in on this calligraphy class, and personal computers might not have the wonderful typography that they do.

Essa deve ser uma das coisas mais pretensiosas que eu já li na minha vida, de tal intensidade que prefiro não comentar aqui. Sei que quando estou bravo escrevo grandes discursos raivosos, porém maçantes... Se eu fosse parar pra falar longamente de tudo que me incomoda e me dá raiva na vida, não sobraria tempo pra viver.

Talvez ele e a Apple realmente tenham tido um certo papel de Prometeu contemporâneo, sendo grandes responsáveis pela popularização de algumas tecnologias no público mais lammer. Afinal de contas, rodar TeX em desktop não era realmente comum talvez até lá pros anos 1990... Mas essas coisas já estavam todas por aí, a informática não começou só com os microcomputadores dos anos 80. Outras pessoas inventaram essas coisas pelas quais o Steve se vangloria e que o Bill teria "copiado dele" depois. Outros já tinham "pioneirizado" o caminho, inventando as interfaces gráficas, por exemplo. Ele não foi explorador, foi só o vice-rei que veio coletar os espólios.

Metido nojento.

Mas é como dizem, quem come maçã com casca, semente e talo está bem informado a respeito de suas peculiaridades fisiológicas.

1 comment:

Daniel Poeira said...

Legal ou não, Steve Jobs é um empresário americano que faz o que americanos fazem melhor: contar vantagem de serem quem são e convencerem os ouvintes de que são os maiorais.

Engraçado que os mac-maníacos que cagam tanto na cabeça da IBM e da Microsoft não deram nenhum pio quando Papai Jobs assumiu uma cadeira na direção da Disney, um dos conglomerados multinacionais mais odiados e desprezíveis do mundo. "Contradições do sistema."