2009/04/17


Trem de doidos

"São Paulo é a locomotiva do Brasil." Uma enorme potência industrial e financeira que é quem bota esse país pra frente. Eles adoram sê-lo por isso, mas recentemente percebi muitas outras formas como São Paulo se encaixa tão bem na visão de uma locomotiva.

Primeiro porque se tem uma coisa que paulista gosta é de pegar um dispositivo bem potente e veloz, como uma locomotiva, e prender a ele cargas altamente inerciais, vagões e mais vagões de carvão. Eles tem aquela mania de correr pra pegar sinal fechado, é um esporte local, tem tudo a ver. Tudo a ver também são os carros esportivos que são vendidos por aqui em lojas exclusivíssimas, e que efetivamente andam pela cidade. É impressionante poder ver uma Masserati ou Porsche desfilando pelas ruas entre os graffitis desbotados e vendedores ambulantes, mas é sempre triste constatar que estes veículos passam a maior parte de seu tempo retidos em engarrafamentos, como todo mundo. A azáfama da carroceria vermelha frustrada pelo simples excesso de pessoas nas vias.

É claro que estou falando de muito mais do que os problemas de transporte. Ô gente boa de criar burocracias sem sentido pra atrapalhar sua vida, e conter o fluxo do seu rio, tornando-o um lago inerte como o Pinheiros ou Tietê.

Na verdade é inacurado falar de congestionamentos e de assoreamento enquanto eu falava de trens. A inércia causada por carga excessiva não é a mesma coisa da inércia causada por um livre caminho médio curto. De fato, se tem uma vantagem em trens é que eles não ficam presos em engarrafamentos, e passam por poucos cruzamentos e curvas. Quer dizer, isso em teoria e potencial, porque na prática os metros de Sampa ficam sim parados porque o da frente não saiu da estação ainda... É triste. Só não é menos triste do que as ocasiões em que produtos ficam retidos para entrar no porto de Santos.

Mas é verdade, trens se caracterizariam por essa possibilidade de poder correr em liberdade. E quer saber? Isso faz parte da cultura aqui em São Paulo. Eles adoram a idéia de existir um único caminho sobre o qual todas pessoas devem andar, uma única reta traçada no solo a ferro e fogo, da qual não se pode desviar um único milímetro, apenas o quanto os amortecedores permitirem. Uma única falha no caminho de ferro, qualquer desvio não-planejado que seja, implica num descarrilamento grave, é morte.

E tem os horários. É pra sair tudo na hora certinha. Eu não critico isso, quem gosta de esperar trem que não saiu ou chegou no horário?

[DIGRESSÃO DESIMPORTANTE]
Mas acho que falta um pouco de cultura de tratamento de falhas por aqui. O trem que atrasou não foi uma "vítima de algum imprevisto com que precisamos lidar", não, ele é "o trem errado que está atrapalhando". É o ponto fora da reta, outlier a ser descartado.

Eles bem gostaria de poder descartar um trem que chegou cedo ou tarde demais, é uma pena que as leis atuais proíbam isso, não permitam tratar veículos do transporte público como tratamos, por exemplo, pacotes IP.

Pra quem não sabe, uma das forças do protocolo TCP/IP, e das redes Ethernet, é essa flexibilidade que existe em podermos descartar datagramas. Qualquer pacote que começa a atrapalhar é simplesmente suicidado, e o barramento de uma rede em estrela é um bafafá onde volta e meia duas pessoas começam a falar ao mesmo tempo, e nessas horas elas precisam educadamente decidir parar de falar, para tentar de novo um tempo mais tarde (escolhido aleatoriamente). Esse problema existe devido ao fato da velocidade da luz ser baixa demais, as soluções são ou fazer isso, ou criar algum tipo de protocolo altamente "burocrático", tipo existe me redes em anel, ou em ATM...

Eu tou falando em redes, na verdade, porque ouvi na cantina outro dia um grupo de alunos conversando sobre redes. Um dos alunos expressou um enorme espanto em saber que essas redes que usamos, que parecem funcionar tão bem, pudessem ser na verdade "puro acochambramento" por baixo, essa coisa avacalhada, sem tabelas de horário, sem rotas pré-estabelecidas e sem "farol" retendo datagramas esportivos ou públicos em cruzamentos aqui e ali.

É uma pena que aqueles alunos, apesar de conhecerem redes em anel, aparentemente desconheciam detalhes de seu funcionamento, gostaria de saber se conhecendo melhor eles não se tornariam adeptos dessas outras redes mais "burocráticas"...

***

É gozado, aliás, essa relação dos paulistas com a aleatoriedade. É algo meio distante da cultura local, como mostra essa estranheza com a política estocástica da rede Ethernet. Outro dia num laboratório tentei ensinar um aluno a apresentar todas entradas possíveis a um circuito eletrônico simulado. A forma de fazer isso é agrupar os bits de entrada num barramento, e mandar o programa atribuir valores a esse barramento de forma incremental. Em outras palavras, "0, 1, 2, 3, 4...". Assim você varre todas as possibilidades.

O que os alunos costumam fazer antes de aprender isso é sair clicando meio aleatoriamente nos níveis, numa certa política estocástica para explorar um espaço que seria, na visão ainda-não-iluminada deles, amplo demais para ser exaustivamente explorado. Engraçado ver que enquanto estou dizendo que paulistas seriam certinhos demais e ignoram o mundo das aleatoriedades, justamente nessa ocasião em que eu prego a mais absoluta ordem e determinismo, eles se sintam bem fazendo o oposto.

Enfim, tentei ensinar como fazer, mas depois de explicar, o aluno continuou falando que eu tinha dado um jeito de gerar as entradas possíveis do circuito "tudo aleatório", como se meu método fosse agrupar aqueles bits e gerar a mais perfeita algazarra informacional, numa eficiência de imprevisibilidade e entropia que seria maior do que os sorteios que ele estava antes fazendo no olho e no dedo (no mouse). ele achou que dei um "boost" na aleatoriedade dele, enquanto que na verdade eu fui na direção oposta, ordenei tudo!

***

[CONCLUSÃO INTERESSANTE]
Aí eu fico pensando: Se São Paulo é a locomotiva do Brasil, o que somos nós, o resto?

Minas é bem conhecida pelas velhas "Marias-fumaça", e por ter mais estradas do que outros estados, com carros, ônibus, jipes radicais, bikes, motos, e também as velhas "jardineiras". Mas serão esses os veículos adequados para a alegoria?

Não, a figura que se contrapõe mais com a locomotiva paulistana ainda a dos retirantes nordestinos, naquele quadro do Portinari...

Eu sugiro um meio-termo entre os nômades da seca nortista, caminhando sem veículos, e as "serpentes metálicas" futuristas do sul-maravilha: é o carro-de-boi!

O carro de boi, é claro, é muito mais lento que uma locomotiva, e jamais se revelaria um método eficiente de transporte para carregar kilos e mais kilos de soja, minério e açúcar até Santos, para entregar aos estrangeiros ricos que precisam deles mais do que nós.

Mas o carro de boi tem as suas vantagens, possui até algumas características que pesquisadores tentam com muita dificuldade dar aos veículos mais modernos.

Eu trabalho com inteligência artificial e robótica móvel. Sei que tem gente por aí se descabelando tentando construir um carro inteligente, capaz de estacionar sozinho por exemplo, ou de se reabastecer de forma autônoma. Fala-se muito em seguimento de alvos também, simples como uma bolinha vermelha, ou complexos como uma pessoa. A passagem da informação de sensores métricos ativos como laser e sonar para a visão é uma ladeira que só hoje estamos terminando de galgar depois de décadas.

Gente! O carro de boi já faz isso tudo!

Tou falando sério, o boi te segue, usando informação visual, ou na pior das hipóteses seguindo a cordinha que vc amarra no nariz dele, algo que ainda nem foi pesquisado com robôs. E ele come sozinho, melhor ainda, ele come a grama que vê no caminho, ou na porta da mercearia enquanto você entrega o leite que a esposa do boi produziu de manhã e toma uma cachacinha.

A gente fica aqui "prevendo" um futuro em que vamos conviver com robôs que fazem isso aí como se já não existissem coisas similares hoje e ontem. Bom, no dia que isso acontecer não vai ser nada de novo, vai ser apenas a "reinvenção do carro de boi", não muito diferente da "reinvenção da roda" de aço ao invés de madeira.

O trem foi a reinvenção da roda, mas melhorada, claro. A roda virou de aço, enquanto que o carro de boi tem rodas de madeira. O carro de boi é barulhento pra burro, e o trem... Bem, o trem é mais barulhento ainda!

Mas agora os trens vão ficar inteligentes, vão poder andar em duas dimensões ao invés de apenas trilhos e estradas. E vão fazer um pouco menos de barulho, e vão interagir conosco realizando tarefas simples, seguindo informações visuais e comendo sozinho. É a reinvenção do carro de boi, mas melhorado, claro. É o "carro-de-boi de ferro", de silício e silicone, mas sem chifres.

2 comments:

Rogério Brittes said...

curti o texto [c=


Depois dá uma olhada num curta do mineiríssimo Humberto Mauro, chamado "Carro de Bois" (a versão dos anos 70). É de chorar. E tem no KG.

NIC1138 said...

Valeu, Rogério!

Faz um tempo que quero ver algo do Humberto Mauro, não conheço nada... Mas quando penso em carro de boi sempre lembro do Vidas Secas. A propósito, pra não falarem que só falo mal, esse filme é do Nelson Pereira dos Santos, que era paulistano.