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2009/05/13


Marooned on Mars

Estou escrevendo um texto, e dei uma parada pra relembrar sobre uma das coisas mais LEGAIS que ocorreu no mundo, (senão na galáxia, ou em todo universo) nas últimas décadas: as famosas sondas marcianas enviadas pela NASA.

Eu nem existia ainda, ou mal tinha nascido, quando ocorreram boa parte dos mais excitantes sucessos humanos na exploração espacial. A última vez que alguém pisou na Lua foi na missão Apollo 17, em 1972, e a última sonda soviética a Vênus, Venera 14, pousou lá no ano que eu nasci, 1981. além de dados cientificíssimos que vc tem que ser um fodão pra analisar, ela tb mandou umas foto muito louca, de cair o queixo... Ou melhor "de outro mundo"!

Um evento marcante na minha infância, ligado ao espaço sideral, foi a passagem do cometa Halley. Mas desculpem, nem se compara né gente? É até meio deprimente pensar que uma passagem de um cometinha deixou todo mundo em polvorosa, e suscitou tantos produtos, programas de TV, e atraiu pessoas pra ciência, enquanto que em décadas anteriores vimos acontecimentos muito mais marcantes como a passagem da Voyager 1 por Jupiter e Saturno, ou antes disso o desenvolvimento da tecnologia nuclear...

Talvez eu esteja reclamando de barriga cheia, vai. O que aconteceu de legal nos anos 80 e início dos 90 foram coisas dentro de nossas casas, e não missões faraônicas que na prática são tão oníricas e inalcançáveis que histórias e filmes de ficção científica e fantasia.

Filmes de ficção e fantasia, aliás, tornados muito mais acessíveis com o desenvolvimento de vídeos-cassete, tv a cabo e vídeo-games nos anos 80. Eu não posso dizer que trocaria ser um garoto jogador/programador de microcomputadores por ser um antigo rapaz interessado em viagens espaciais, que não podia nem chegar perto de botar as mãos nisso...

Os antigos nerdinhos podiam no máximo jogar xadrez e mexer um pouco com química e eletrônica (vide Feynman e Oliver Sacks). Minha geração pôde jogar Commander Keen, Super Mario World e Monkey Island ouvindo Guns e Alice in Chains em tocadores de CD (o primeiro CD player da minha casa, um JVC, adquirimos em um natal, na época em que estourou o Rage Against the Machine, 1992). Os sortudos ainda conseguiram ver uns filme pornô (ruinnns) escondido no Multishow de noite, etc.

Isso aí é muito mais diversão do que os jovens de antigamente podiam sonhar. As pessoas falam que criança tem que brincar de "imaginar", e "fantasiar"... Tipo, será que essas atividades não tem mais a ver com a privação de atividades palpáveis, mais interessantes? (provoquei agora)

Aí mais ou menos junto veio a Internet, lá pra 1994, e mais um tempo depois fenômenos como o Photoshop, CoolEdit, Autocad, Quake 3D (1996)... Nisso já estava eu mais velho. Estava lendo coisas como o Pálido Ponto Azul (1994?), e aprendendo mais sobre a guerra fria, e esses grandes acontecimentos científicos de outrora (exploração espacial e tecnologia nuclear) que eram coisas meio distantes de minha realidade (i.e., só usando um pouco da famosa "imaginação"). Eu provavelmente ouvia falar mais de energia nuclear por causa de músicas punk velhas de protesto, do que assistindo jornal. Historicamente eu (e talvez muitos se identifiquem) me sinto bem mais próximo do incidente em Goiânia (1987), que não envolvia nem uma usina nem um míssil nuclear, do que de Chernobyl (logo antes, 1986), Hiroshima, ou da crise dos mísseis de Cuba. Eu só vim a pensar em guerra nuclear na minha vida, pra valer, por causa do Exterminador do Futuro II (1991), com a famosa cena do parquinho.

***



Eu gosto de dizer que os anos 90 começaram foi depois do Pulp Fiction, de 1994. Foi nessa nova era que, em Dezembro de 1996 faleceu Carl Sagan, de quem eu já tinha me tornado groupie. No mesmo mês foi lançada a missão Mars Pathfinder.

Nessa missão fizeram uma coisa muito legal. Lançaram lá na superfície de Marte um robozinho, a Sojourner, que saiu andando por lá, e tirando foto!! Para pra pensar, que coisa foda, meu!!! Uma sonda robótica alienígena interplanetária!

Eu, por sorte, estava fresco com os livros do Sagan na mente nessa época, e tinha noção de que existiam já fotos da superfície de Marte, e que não era especificamente isso a grande novidade. Mas é claro que essas novas fotos eram muito mais doidas. E agora eu conto uma coisa bacana, que dá uma boa idéia de em que pé se encontrava nessa época o desenvolvimento da informática caseira, o outro tema de que estou falando. Eu e meu irmão, não lembro se na onda de um joguinho de SNES do Ultraman que jogamos umas vezes, pegamos uma das fotos da Sojourner (de algum site, se não ainda alguma BBS), e fizemos uma montagem com o Ultraman aparecendo ao longe! Eu imprimi em nossa moderna impressora de jato-de-tinta colorida, e levei pra escola no dia seguinte, pra zoar com os amigos. Acho que fizemos com o Aldous Photostyler, o mesmo programa que usei uma vez (talvez antes) pra fazer uma nota de "sem reais" que eu carrego na carteira até hoje. (O plano real foi adotado na metade de 1994.)

Talvez tenhamos pegado a foto no famoso site da NASA, que por muitos anos foi a única coisa que havia na Internet. Nem tinha muito conteúdo não, mas pelo menos vc podia digitar o URL e efetivamente cair em alguma página, o que era uma coisa meio difícil ainda na época. (Hoje qqr coisa que vc escreve cai pelo menos num domínio reservado, e cheio de anúncios!)

No final de 1999 eu entrei na faculdade. Finalmente comecei a parar de usar Windows nessa época, e passava muito mais tempo aprendendo a programar do que usando programas. O próprio hardware virou meu vídeo-game. (Eu ouvia muito MoAM nessa época, e RATM, ATR, Sabbath...)

Na faculdade, lá pro segundo ano, possui uma cópia do livro Sinais e Sistemas do Simon Hayking (obs: eu prefiro o do Oppenheim) que trazia, na capa, a nossa amiguinha a Sojourner. Foi bem legal ver ela lá, me fazia lembrar a promessa do meu guia do vestibular: "Engenharia elétrica é a arte de lidar com tecnologia de ponta."

Nessa época a exploração espacial finalmente voltou a "esquentar". A ISS começou a ser montada a partir de 1996 (a Mir morreu em 2001). E eu me lembro muito bem, ente 2003 e 2004, da infelicidade com a missão Beagle 2, da ESA (mais UK), que era uma sonda (não-andarilha) criada com o intuito maior de estudar a questão da vida em Marte, mas que não pousou com sucesso. Eu lembro de acompanhar isso pela Internet, ler entrevistas em sites, etc.

No comecinho de 2004, meio que "renovando" após o destino cruel da sonda monarquista, chegaram em Marte as duas novas sondas andarilhas, Spirit e Opportunity. Essas tiveram bastante cobertura pela Internet... Agora, sabe qual é um dos motivos porque eu cobrava tanto uma boa cobertura dessas missões pela Internet? Primeiro que a NASA sempre prometeu ser uma das coisas legais na Internet, e sempre me deixou um tiquinho decepcionado (hoje em dia até que me satisfaço). Mas o maior motivo é que eu fiquei mal-acostumado com a boa cobertura da copa de 2002 pela Internet! Tinha uns sites muito legais...

Pra falar a verdade, apesar de me interessar a princípio, eu acho que não acompanhei pra valer essas missões espaciais todas como eu poderia ter feito. É só hoje, lendo a Wikipédia e outros sites (e escrevendo no meu blog), que eu começo a entender bem melhor tudo o que aconteceu.

A Phoenix, em 2008, eu até que acompanhei bem. Escrevi um longo post no meu blog sobre a questão do gelo encontrado, inclusive. Com a chegada da "web 2.0", eu senti necessidade de poder ter algum tipo de "feed" sobre o que ocorria. Queria assinar o Tweeter da sonda, saber a cada minuto qual era a temperatura registrada por ela, ver os dias marcianos passando... Isso não rolou a meu contento, mas acho até que houve alguma preocupação "dos cientistas" em tentar fazer isso.

***

Mas é só agora que parei para escrever tudo isso, tirar uma foto com minha visão panorâmica, que estou entendendo que boa parte do barato nas novas missões é justamente elas estarem acontecendo nesse novo mundo de Informática avançada, com micros pra todo o lado, Internet e o escambau.

Minha geração não foi a do átomo nem a do foguete, mas o pessoal do CERN e da NASA ajudaram muito em botar em pé essas coisas todas: Internet, vídeo-game, etc. De repente o que rolou foi uma parada pra respirar, pra entender melhor o que tava acontecendo, uma espera estratégica sabendo que mais alguns anos e a computação ia conseguir entregar pra gente grandes prodígios, que seriam dignos de se esperar um pouco pra fazer uso.

Dá pra ver o desenvolvimento da computação na exploração espacial comparando as 3 missões com "rovers" da NASA.

Aliás, pausa pra falar dessa palavra... Parece que "to rove" significa algo como "um andar despretensioso", "passear, flanar"... Das sinonímias do Houaiss:

andarilhar, bangolar, bangular, bestar, borboletear, burlequear, deambular, divagar, errar, flainar, flainear, flanar, girar, passear, perambular, vadiar, vagabundar, vagabunde


E aí, já tinha pensando alguma vez que essas sondas eram "vagabundas"? :D Eu tenho tentado traduzir como andarilhas, talvez perambulantes...

Mas enfim, a primeira, a Sojourner, tinha um processadorzinho chinfrim, baseado no 8085. Esse é um processador de depois do 8080, que é revolucionário na história, mas antes do 8086 e 8088, que ficaram famosos por serem os processadores dos primeiros "PCs" da IBM. O 8085 foi eclipsado em sua época pelo maravilhoso Z80, que era usado no TK85 e no MSX, e muitos outros produtos, até hoje.

Aí você pode me perguntar de cara: mas como diabos um processador tão ruim? Não podia ser um Pentium? 386 pelo menos?? Não pode porque tem que ser um processador que consuma muito pouca energia, tem que ser adequado pra um sisteminha pequeno que vai consumir pouca energia como um todo, tem que ser bem-estabelecido, e ainda tem que atender os requisitos bizarros de poder viajar no espaço. Quando a gente procura algo assim, acaba caindo nisso: uma versão "envenenada" de um certo processador antigo. É uma pena que ninguém tivesse feito um Z80 que desse conta do recado, ia ser muito legal!... Mas vai de 8085 mesmo.

Os processadores da Spirit e Opportunity (Mars Exploration Rovers, MER) já são uma parada da IBM baseada num tal RSC, e a futura sonda andarilha Mars Science Laboratory (MSL) já usa um processador parecido com o PowerPC G3. De onde eu tirei isso tudo? Claro que foi da Wikipédia, que tem uma página só com essas comparações entre as missões.

Interessante notar a diferença de tempo entre o ano que o processador foi lançado (no mercado) e lançado (ao espaço). O 8085 é de 1977, a Pathfinder saiu 20 anos depois. O RSC é tipo de 1992, e a missão saiu quase 10 anos depois. Já o PowerPC G3 é dos idos de 1997, e a MSL deve ser lançada em 2011, dando aí uns 14 anos de diferença. Se fôssemos manter um decaimento desse tempo, seríamos obrigados a usar uma versão "robusta" de um processador de desktop de, sei lá, 2005, 2004. Mas o que a gente tem a partir daí são os processadores de 64 bits, e os de multi-core... Talvez comece a deixar de fazer sentido pra aplicação.

Mas o clock e o tamanho das memórias mudou bastante, e nisso a tendência deve se manter. A MSL vai ter uma memória flash de 2GB, enquanto a da Sojourner era umas 10 vezes menor. A memória flash, aliás, foi uma das coisas que deu um empurrão nesse projeto. Ela "invadiu" o mercado consumidor foi justamente nos idos de 1995 pra frente, quando as câmeras digitais com memória flash também se popularizaram bastante. Na outra via, de criar memórias flash pra ambientes hostis, a coisa levou mais ou menos o mesmo tempo, até permitir a criação da Sojourner.

Aliás, interessante perceber que ao mesmo tempo em que tivemos a grande popularização das câmeras fotográficas digitais, com sensores CCD no lugar do filme, e memórias flash pra guardar dados, tivemos justamente a criação da Sojourner, que não é na verdade muito mais do que uma câmera digital, com CCDs e memória flash, e mais umas rodinhas e um radinho... É talvez o Zeitgeist.

E qual é o Zeitgeist hoje? Eu te conto algumas coisas... Em meu trabalho estou me concentrando justamente em navegação de robôs por visão. Fiquei sabendo que existem testes pra implementar numa das sondas do MER um chamado "hodômetro visual", visto que o hodômetro real está ficando cada vez pior. Elas também estão fazendo testes com programas mais sofisticados pra localização e navegação autônomos. Vejam que interessante, aquela mesma máquina vai rodar bem melhor, com mais autonomia, porque as pessoas estão fazendo legítimo avanços no estudo do controle de robôs móveis por visão!...

E por falar nisso, vem agora o mais bacana. Eu abri o texto falando das Venera soviéticas. Pois faz pouco tempo apenas (2006) que um sujeito (Don Mitchell) pegou imagens da Venera 13, 14 e outras, e deu uma boa analisada, e reconstruiu umas imagens muito bacanas com base nos dados originais. (Vejam aqui neste artigo.)

Quer dizer, apesar das missões, ainda existia trabalho a ser feito. E trabalho envolvendo computação, envolvendo informática, e resolver problemas de visão computacional, algo que é tema de pesquisa _hoje_.

Ergo, esse foi mesmo o grande lugar da minha geração na história, esse foi o lugar do fim do século XX ao lado dos grandes desenvolvimentos científicos da humanidade... Computação, informática, processamento de imagens, fazer robôs mais autônomos. O resto, mandar foguete pra Marte, já tava mais ou menos dominado. Foi só "plugar o módulo" agora, pra fazer esse tanto de coisa legal que tamos fazendo.

Sim, porque... é muito legal!! Olhem a MSL. Ela tem algumas diferenças básicas com relação às outras andarilhas... É o dobro do tamanho da última (que já era mais que o dobro da outra), e pode consumir muito mais energia. Energia, aliás, que não virá mais de painéis solares, o que infelizmente tira créditos de marketing do projeto, já que os painéis solares, "verdes", certamente deixavam muitos satisfeitos, e usando essa unidade movida a plutônio vai torcer muitos narizes. Mas é claro que tecnicamente nuclear é a melhor solução.

A MSL contará ainda com uma arminha de raio laser. É sério! Um raio laser de alta potência vai ser disparado em pedras para gerar um plasminha, desintegrando ali uns poucos milímetros cúbicos do alvo. Analisando o espectro da luz emitida, dá pra descobrir os elementos constituintes. Claro que dá pra atirar em seres vivos e pessoas também, só não vai acontecer porque não tem essas coisas em Marte (ou tem?)


Este vídeo (muito bonito) no utub mostra aos 2:30 a arminha disparando... Ptiunnn!!... Poderei ver mais um sonho de infância meu se realizar: ver um verdadeiro robô de outro planeta, andando por aí atirando em coisas com seu raio laser, desintegrando-as, criando plasma radioativo!!... Melhor estarem preparados, malditos vorticons!!

2009/03/19


A velha escola

Estou estudando um assunto que envolce uma mutitude de algoritmos, todos meio parecidos entre si. Faz algum tempo que já estava sabendo que eles eram relacionados com o famoso algoritmo de Metropolis-Hastings, mas hoje descobri que existe outro algoritmo ainda que envolve tudo isso... É o famoso recozimento simulado.

Sou um grande fã de recozimento simulado, que só vim a conhecer em meu mestrado, e sempre que lhe descubro uma aplicação fico muito feliz. Imaginem meu espanto hoje ao finalmente entender então que toda essa multitude de algoritmos são na verdades variações em torno deste grande obelisco algorítmico. Fiquei meio pasmo.

Conversei com um great old one sobre isso, sobre se não poderíamos pegar alguns desses problemas e simplemente enfrentar de cara, de baixo pra cima, como uma otimização através de recozimento simulado. A resposta, que tenho certeza que seria compartilhada por muitos professores e ainda mais por alunos, foi mais ou menos assim: "poisé, é mesmo, só que se vc escrever isso não vão comprar sua idéia, vc não vai publicar artigo nem ganhar dinheiro da fapesp. Tem que inventar outro nome aí, dar uma disfarçada."

É tipo isso. Muita coisa que tamos vendo por aí são um recozimento simulado forjado! É, não pude resistir à piada... Não é linda a iron-ia disso tudo? AHAAHHAHA!!!!

***

Acontece que recozimento simulado é old school.E a ciência anda cada dia mais na direção de ser dominada por sofistas, que se especializam mais nas políticas e retóricas vazias de "fazer seu nome" do que na coisa de fato. E ser old school pega mal.

Mas querem saber? Old school is the only school. Não quero papo furado, dêem-me a coisa original, a coisa verdadeira.

Malditos simulacros de descoberta!...

Mas eu pensei nisso, que só a old school é a verdadera school, foi ouvindo o disco novo do Metallica (pirateado) no meu player, que consertei essa semana com meu ferrinho de solda. Estava muito emocionado no ônibus ouvindo aquilo, em parte porque enquanto apreciava a música, os sons, os timbres, me chamou a atenção como que apesar de todos efeitos e produção, dá pra ouvir alguns barulhos na música que são considerados meio que "ruídos indesejáveis", meio que coisas que "não deveriam fazer parte" do som. É o barulho da palhetada, barulho da corda deslizando no traste, essas coisas. Como guitarrista e como estudioso da guitarra em meu mestrado, ouvir isso me faz pensar muito.

Uma coisa que eu pensei foi "eu troco toda uma discografia do DJ Tiesto por quaisquer 10 segundos de solinho de guitarra desse disco, essa coisa feita por músicos de verdade." (Não me levem a mal, não é discriminação contra música eletronica. Tou falando daquele processo de ensaiar, tocar, compor... O próprio Metallica andou afastado disso até esse último disco.)

E bateu aquele saudosismo... Lembrei de uma vez que conversei com um menino que disse que ouvia "new metal", e não tinha idéia do que fosse o "metal" desqualificado, não conhecia nada de Black Sabbath, Led Zeppelin ou um Iron Maiden que fosse. Outro dia ainda me espantei também com uns jovens com quem ando falando, que não assistiram ao último filme do Tarantino... Tipo, como assim!?! Não sabia que existia gente hoje em dia, especialmente jovens, que estivessem se importando pouco com o Tarantino!... Eu sempre falo que uma das coisas que marcou o início do que considero "os anos 90", foi o Pulp Fiction. Vai ver que isso agora marca o fim dos anos 90, o mesmo diretor não ter mais apelo aos jovens, a quem tem a idade que eu tinha na época...

É meio triste pensar que o que te importa não é mais mainstream. Mas sempre há conforto em saber que doido mesmo era o old school. Sempre é bom ouvir aquela celebridade dizendo "bom mesmo é Jimmy Reed", "Arthur Big Boy Cudrup"... O old school permanece vivo em quem realmente importa, a ciência de verdade ainda existe pra quem realmente tem noção das coisas, naquelas raras conversas reservadas, francas, onde o alívio de um "ah bom" salva meses de trabalho incerto.

E foi nesse momento no ônibus, indo pra universidade, ouvindo ao som daquele dispositivo computacional fajuto demais comparado à importancia que o sinal por ele gerado tem pra mim, que reparei na camiseta de um garotinho de uns 8 anos de idade que estava no banco à minha frente. Era preta, do Megadeath.

História verídica!... Causo acontecido, de fato, com este que vos fala.

2008/07/03


Raiva sistemática

Você sabe que tá virando um velho chato porque ainda acha doido demais ouvir uma música que contém o verso:

move into 92
Still in a room without a view

Know your enemy RATM

1992, cara! Isso faz quase 18 anos! Uma vida!... (Talvez meia vida, vai... Uma maioridade! As músicas do Rage atingiram a maioridade.)

As músicas do Rage Against the Machine continuam atuais, como as do Sepultura dos anos 80 tb continuam, falando sobre terrorismo e polítca e sei lá. Mas o número, 92 ficou "passado", claro. O único número nas músicas do Rage que continua atual é o 9.

Said they pack the nine, they fire it at prime time

Bullet in the head RATM

2008/06/30


Objetivando Einstein

Nada marcou mais a cultura estadunidense do século XX, e de tabela a nossa, do que aquele alemão chamado Albert, e aquele austríaco chamado Adolf. Ambos são hoje símbolos marcantes que significam para as pessoas mais do que qualquer simples pessoa pode significar para alguém.

Estes dois ícones foram e estão sendo continuamente sobrecarregados de significado, estão sempre portanto contribuindo para que ocorram conversas altamente subjetivas, extremamente livres a interpretações. Quanto mais diferentes pessoas atribuem significado a estes dois aí, mais o que se fala sobre eles fica ausente de significado, devido ao desacordo e subjetividade.

Por exemplo, imagine quando numa conversa qualquer alguém sugere que uma certa ação apoiada por alguém também teria sido apoiada por Hitler. Isto basta para acalorar a discussão e para que pessoas se sintam ofendidas, apesar de que ninguém tem muita certeza do que é que realmente se está falando.

O mesmo acontece com Einstein, mas com ele é um pouco diferente porque ele é geralmente visto como um cara legal, então ninguém se ofende, mas apenas se sente elogiado. As discussões evocando a figura de Einstein ficam acaloradas menos porque os comparados a ele fiquem ofendidos --- ficam é lisonjeados e se sentindo não-merecedores, enquanto os não-comparados ficam com inveja.

Einstein é então esse ícone que ninguém sabe bem o que significa, é uma lenda, um símbolo que ultrapassou a muito a pessoa. Eu já não gosto dessas coisas com qualquer personalidade, com mas com ele é pior porque se trata de um cientista, e eu desejaria que cientistas fossem menos suscetíveis a esse tipo de irracionalidade.

Senti que há um pouco dessa visão subjetiva e pouco científica de Einstein no artigo "Avaliação objetiva (?) da pesquisa", de Marcelo Viana, que li no jornalzinho da SBPC. Lá o autor pergunta se Einstein receberia financiamento do CNPq, e como leitor senti que seria uma forma de crítica ao sistema, em cujos critérios o genial cientista não se enquadraria em certo momento de sua vida.

Aí eu pergunto, qual exatamente é esse critério, e qual seria algum critério ou apenas "justificativa subjetiva" que daria a Eisntein a parte que lhe caberia deste latifúndio?

Sinto que o artigo se baseia um pouco numa idéia de que Einstein mereceria rios de dinheiro em toda sua vida. Não creio que isto seja certo.

A obra-prima de Einstein, um trabalho que um governo gostaria de ter financiado, foi um conjunto de artigos que ele publicou em meados de 1905 enquanto ele trabalhava em um escritório de patentes. Depois dessa época (quero dizer, BEM depois, mais de 10 anos depois), ele pode ter continuado um cientista bacana, uma pessoa inteligente brilhante e dado bons palpites em um problema ou outro, mas não fez mais nada tão "mirabilis" quanto aqueles artigos ali.

Depois de vencer seu Nobel em 1921, Einstein eventualmente se mudou para os EUA, onde trabalhou em Princeton vivendo mais como um meio-aposentado bacana do que como um cientista em busca de realizar (ainda mais) grandes coisas. Teve pouquíssimos orientados (se algum), publicou pouquíssimos artigos e livros. Porque haveria o CNPq de sua época e local se preocupar em beneficiá-lo com grandes verbas para pesquisa?

(nota: talvez um critério mais sofisticado mostre que os poucos artigos de Eisntein tenham sido muito citados, ao longo de toda sua vida. Gostaria de ver os números.)

E quanto aos físicos experimentais que comprovaram suas teorias todas? Cada um daqueles artigos ali deu origem a coisas como um ou dois experimentos cruciais, históricos no desenvolvimento da física. Uma vez que Einstein fez seu trabalho, o CNPq correlato deveria se preocupar é com financiar esses experimentos, e não mais o Einstein (a não ser que eles indicasse que haveriam mais mirabilis pra tirar da cartola). Tem que financiar os testes de efeito foto-elétrico, movimento browniano, lentes gravitacionais, interferômetros e raios LASER da vida. E até onde eu sei Einstein não importou muito em liderar ou participar ativamente destes experimentos. Porque deveria então o CNPq conferir a Einstein a verba que deveria ser destinada a estes experimento, se não seria ele o cientista a finalmente pegar no facão pra cortar o mato e desbravar definitivamente estas novas searas?

Não. Einstein não teria porque receber grandes volumes de financiamento no período mais tardio de sua carreira (leia-se: depois de 1905, seus últimos 50 anos de vida). Se os critérios do CNPq hoje são tais que isso ocorreria, então eu apóio eles. (A não ser que estejamos falando simplesmente de manter um professor emérito numa universidade, batendo papos cabeça com Gödel, isto ambos sem dúvida mereciam.)

Devemos sempre buscar evitar dar financiamento a cientistas apenas porque eles fizeram trabalhos notáveis no passado, que eventualmente os tenham dotado de prêmios suecos, finlandeses ou o que seja. Não digo que se um cientista ganhou, ele não deve mais ser financiado, não é isso... Temos que evitar a politicagem, dar pouca chance às panelinhas e tomadas de poder.

Querer dar dinheiro pra Einstein em 1930 por causa de seu trabalho de 1905, e porque ele é super legal, é politicagem. É beneficiar seus amigos e ídolos porque o são, ao invés de fazer uma avaliação fria de onde o dinheiro seria melhor aplicado. É escancarar os portões à fisiologia.

Aposto que Einstein ficaria feliz em repassar qualquer verba (ou boa parte) que ele recebesse do CNPq para outros cientistas que ele sentisse que fariam melhor uso dela. Mais do que isso, aposto que ele ficaria feliz se um ou dois amigos dele o ajudassem a tomar a decisão de pra onde ele mandaria esse dinheiro.

É meio infeliz pegar Einstein como exemplo de cientista que não teria recebido um dinheiro que mereceria. Não sei se Einstein recebeu alguma verba especial da NSF durante sua estadia em Princeton, por exemplo, e o CNPq não estaria replicando este acontecimento. Um melhor exemplo de cientista teórico que não recebeu dinheiro e reconhecimento quando merecia, foi Boltzmann. E este foi sim uma grande vítima de critérios de financiamento subjetivos. Esse foi um que deve ter deixado de ganhar alguns mangos porque o governo deve ter preferido financiar Poincaré ou qualquer amigo dele, do que simplesmente avaliar seu trabalho e dizer "puxa, tão metendo o malho, mas ele tá trabalhando, tá produzindo, vamos deixar mais um tempo pra ver se não é só uma cisma boba desses cientistas, ou se ele é mesmo um picareta." Não era.

Não entendam aqui alguma espécie de crítica minha a Poincaré. Adoro ele. Minha crítica é às pessoas que deixam brigas no mundo acadêmico afetarem tão drasticamente o destino de um homem. A gente tem que se preocupar menos em saber se o CNPq financiaria um Einstein ou um Poincaré tupiniquins contemporâneos, e mais se o CNPq deixaria de financiar um novo Boltzmann.

Agora falemos um pouco de cientistas experimentais que precisaram e mereceram financiamentos especialmente vultosos: Lord Rayleigh, Lord Kelvin, Rutheford, Thomson, Fermi, Faraday, Oswaldo Cruz, César Lattes. Temos que discutir também esse tipo de trabalho, e não falar apenas de Einstein. Isto é simplificar demais a questão. Esse tipo de pesquisa representa um gasto maior, e é mais difícil de alocar. Porque estamos então falando apenas do velho Albert??

E por aí vai.

2008/06/02


A insustentável familiaridade das coisas, e a eterna estranheza dos seres

Tudo que é muito novo parece estranho. Do contrário não era novo. Quanto mais novo, mais estranho, e se algo novo é facilmente compreendido, é fácil de deixar de ser estranho, quer dizer que não era tão novo assim. Isso tem a ver com teoria da informação.

Por outro lado, conforme as coisas vão ficando velhas elas também vão ficando estranhas. Vá lá, algumas coisas são antigas, mas permanecem "atuais". Outras ficam démodé, se tornam ultrapassadas, são paulatinamente esquecidas pra valer... Às vezes até numa velocidade espantosa, especialmente quando substituídas por alternativas.

Assim, tudo o que familiar é velho o suficiente pra ter sido "assimilado", mas novo o bastante para permancer atual. Nossa cultura geral é basicamente constituída por essas coisas nem tão velhas e nem tão novas. E cada coisa descoberta segue esse ciclo de vida... (Às vezes podendo ser redescobertas, às vezes inclusive com nomes diferentes.) Mas tanto coisas muito novas quanto muito velhas são estranhas.

Isso explica, por exemplo, meu gosto por estudar história. O que eu curto não são simplesmente novas tecnologias, ou como dizia no meu inesquecível guia de inscrição no vestibular da UFMG: "A arte de lidar com a tecnologia de ponta". Eu gosto é de estudar coisas que me parecem estranhas, até elas deixarem de sê-lo, sejam novas ou velhas. (Claro que às vezes é mais fácil estudar a velhas, porque sempre sobra uma certa influência.) Na verdade eu gosto de estudar qualquer coisa, mas as menos estranhas são inerentemente mais fáceis e menos interessantes, requerendo menos tempo e trabalho, e recompensando menos.

Tava pensando nisso por causa desse livro do 2600 que mencionei antes. No livro existem diversos artigos escritos quando as tecnologias ali estavam chegando. Eram portanto coisas estranhas, sendo estudadas pelos hackers buscando desvendá-las. Hoje, não muito mais de 20 anos depois, muitas destas tecnologias novas, que eram estranhas na época, são hoje estranhas porque se tornaram obsoletas. O sentimento de um hacker jovem que ler o livro vai ser sem dúvida diferente do velho, que desbravou a tal tecnologia, mas existe algo em comum, existe um sentimento de "descoberta", seja como engenharia, ou seja como arqueologia.

O mais engraçado é o curto espaço de tempo: em 20 anos essas certas tecnologias logo passaram de novas para velhas. Só não foram estranhas por um período muito curto da vida delas, e mesmo assim para muito poucas pessoas. Tem coisas ali que foram e sempre serão consideradas estranhas para a grande maioria das pessoas, em qualquer época, porque nunca foram devidamente assimiladas antes de se tornarem obsoletas.

***

Outro dia tava assistindo NatGeo, e passou um programa de dois caras que saem viajando pelo mundo aprontando altas prezepadas, fazendo projetos para demonstrar a viabilidade de fontes ditas “alternativas” de energia. Aliás, nos Estazunidos tem acontecido muito isso ultimamente, a produção de programas de TV buscando fixar bem na mente das pessoas que qualquer coisa diferente de petróleo e carvão são fontes alternativas de energia, e não fontes de energia iguais a quaisquer outras.


Pois bem, umas das coisas que os caras fizeram foi ir lá na Espanha (um dos países que mais investe em energia eólica hoje, e a terra do Dom Quixote que lutava contra moínhos-de-vento), e ensinar prum fazendeiro lá como fazer um cata-vento pra puxar água de um fosso pra dar de beber às suas rezes. Os caras montaram um, estilo estadunidense (daqueles redondinhos) todo de metal (!), fizeram o processo todo parecer muito difícil e desafiador, e ainda falaram uma porção de conceitos errados (em especial falaram que a bomba precisa fazer uma pressão pra baixo pra fechar a válvula, enquanto que a válvula fecha-se naturalmente pela pressão do desnível entre a água sendo puxada e a fonte.)

Mas no final, conseguiram fazer a bomba movida pelo vento.. Demonstraram o uso dessa tecnologia mais velha do que a Sé de Braga, e mais confiável. Os caras ficaram absolutamente surpresos, estupefatos, exclamando “uau! Olha só conseguimos reoslver o problema sem utilizar nem combustíve nem energia elétrica!!”

Quer dizer, é nesse mundo que estamos hoje. Qualquer equipamento que não funcione movido por combustível (especialmente no Estazunidos que não tem o potencial hidro nosso, e nem depende muito de nuclear) e ainda que não utiliza energia elétrica, é visto como estranho. Porque na cabeça deles isso “ficou pra trás”.

***

Tem gente que vejo na escola de engenharia que chega a encarar com certa suspeita sistemas de controle que não são baseados em microcontroladores, com programinhas que tratam apenas de digitalizações de sinais. Coisas analógicas já são lá vistas por algum com desconfiança e estranheza, ainda mais se não forem baseados em amp-ops, mas sim transistores antigões, BJTs. Válvula então nem pensar. É certo que elas possuem desvantagens terríveis, mas nunca podemos nos esquecer de que elas funcionam, pôxa vida!...

***

Por uma caso esse assunto todo tem a ver com esse texto muito engraçado que Lia recomendou agora a pouco no Twitter!... :) (e um outro post relevante da mesma.)


Faça um hacker feliz

Faça um hacker feliz... Melhor ainda, me faça feliz (não que eu seja um hacker, quanto a isto não existem evidências).

Entre no link
http://www.wiley.com/WileyCDA/WileyTitle/productCd-0470294191.html
e me dê de presente uma cópia desse livro, uma coletânea de artigos da revista 2600 (que está completando 24 anos).

2008/05/24


O monte cumbuca da ilha do enxofre

Em filmes contemporâneos de propaganda estadunidense é muito comum se ouvir descrições emocionantes da batalha na ilha de Iwo Jima, (ou mais antiga e recentemente Iwo To). Fala-se que foi o momento em que os estadunidenses invadiram um “solo sagrado” japonês. Outro dia ouvi alguém falar ainda que o famoso monte Suribachi, com seu formato peculiar, seria considerado pelos japoneses um velho “bastião” das terras japonesas, mitológico atalaia insular, tendo sido vencido pela primeira vez pelo bravo e indômito Tio Sam. Algo como se houvesse ali uma tradição em resistência a invasões, como existe na Rússia com relação a forças vindas do ocidente (batalha do Neva, Napoleão e Hitler).

A importância que se dá para o que representava a ilha Iwo (jima ou to = ilha) só não é superada pela importância que se dá ao ataque a Pearl Harbor. Este retratado como um ataque sorrateiro que atingiu um alvo localizado dentro das fronteiras Estados Unidos da América, uma afronta à soberania do governo do Distrito de Columbia.

Vamos portanto meter o malho: Quanto ao Havaí, é sempre bom lembrar: Ele fica localizado no meião do Pacífico. Sua distância aos EUA, milhares de kilômetros, deve ser tipo metade da distância ao Japão. E existe um grande número de havaianos descendentes de japoneses, quem viu Karatê Kid sabe. Existem também havaianos nativos, filipinos e pessoas de várias outras ascendências... É um caldeirão de culturas!...

O Havaí só se tornou um dos estados unidos depois de um complicado processo: Em 1893 o reinado soberano foi deposto numa ação que envolveu estadunidenses vivendo lá dentro daquelas fronteiras, e rolou uma invasão dos marines por causa de um alegado risco à vida destes cidadãos durante uma crise política. Em 1986 o Havaí virou um "território" dos EUA, e foi apenas lá em 1959 que eles viraram de fato um estado, após um plebiscito meio questionável. Foi na verdade um ato imperialista. Em 1993 Bill Clinton até assinou um controverso "pedido de desculpas" pelo papel dos EUA na derrubada do legítimo governo que havia naquele país. Foi uma anexação de uma nação estrangeira, portanto, não diferente dos casos do Texas e dos estados confederados na dita na "guerra da secessão", que devia se chamar mais era "guerra de junção". (É uma sutil retórica. Um nome implica que tentou-se separar algo "naturalmente junto". O outro, "alternativo", que se tentou e conseguiu juntar duas coisas já separadas.)

Enfim. Foi apenas parte da expansão estadunidense complementada pela pouco conhecida guerra hispano-americana. Só queria dizer que Pearl Harbour não era tão território-americano assim... Não tanto quanto qualquer cidade da região da Nova Inglaterra, por exemplo. O ataque a Pearl Harbour não foi algo como seria o caso de um hipotético ataque a algum dos famosos arranha-céus de uma cidade como, por exemplo, New York City.

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A história então vai assim: "depois do traiçoeira ataque a Pearl Harbour, uma afronta direta aos EUA por se tratar de seu território, eles foram reagindo, até que um dia chegaram à invasão de Iwo Jima, território sagrado japonês, em que se fincou a bandeira em uma montanha tão lendária quando o monte Fuji."

Porque invadiu-se Iwo Jima?... Se vc olhar no mapa, vai ver que é um ponto bastante estratégico. Quase a meio caminho entre as ilhas Marianas, e o Japão "de verdade". As Marianas foram dominadas pelos EUA antes de Iwo Jima (algumas delas eram posse dos EUA, foram invadidas pelo Japão, e depois retomadas pelos EUA). Isto já havia sido uma excelente vitória estratégica, porque permitia o ataque ao Japão com bombardeiros. Mas Iwo Jima é uma ilha relativamente grande, e tinha/tem um pequeno aeroporto, o que auxiliaria muito no suporte a tropas subindo pelo oceano, e foi basicamente por isso que foi invadida...

Mas além de ser um natural passo estratégico, a ilha Iwo também foi por acaso a primeira das ilhas invadidas pelos EUA durante a WWII que estava em posse do Japão já a muitos anos, bem antes da WWII. OK, era finalmente “território japonês”, mas o quão "japonesa" era mesmo essa ilha?? Será que era tipo Okinawa, onde nasceu o karatê do Sr. Miyagi?...

Vamos dar uma olhada no nome dela pra entender que tipo de lugar se tratava... "Iwo" é "enxofre"! Olha que legal, a velha "Iuodjáima" que os gringos gostam de repetir e repetir chama-se "ilha do enxofre"!... Acho que seria um pouco menos heróico ficar falando "Sulphur island" né?

E o famoso monte Suribachi? Dito uma "sagrada montanha que por anos protegeu o povo japonês de todo tipo de invasores até chegar o mighty american army"? Suribachi é um tipo de cumbuca, utilizada para moer coisas. Uma cumbuca! Engraçado que eu sempre olhei aquele formato peculiar, e pensei nisso também, agora descobri que os nativos concordavam. Era o monte cumbuca da ilha do enxofre.

Compare com o nome do monte Fuji, esse sim um monte "sagrado". Compare com o nome de Tokyo, que até mudou de nome conforme ficou mais importante. E a propósito: diz a Wikipédia que os habitantes da ilha utilizavam a palavra "to" para se referir à ilha, e não "jima" (não sei o quanto isso muda o significado). Os milicos japoneses chegaram lá falando jima, e colou. Isso demonstra como não era um lugar especialmente importante, mas sim "apenas mais uma" cidadezinha do interior, que teve a má-sorte de se tornar estratégica durante a guerra. Hoje parece que os habitantes estão fazendo valer sua preferência.

Não posso falar isso com certeza absoluta, mas eu sinto é que o único povo pra quem aquela montanha possui um status de local sagrado é o povo estadunidense, que inventou pra si mesmo um mito de grande glória militar naquela região.

Importante mesmo do ponto de vista cultural foi o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. Nagasaki talvez ainda mais do que Hiroshima, por se localizar numa região de cidades históricas, bem mais antigas do que Tokyo e outras hoje maiores, e onde se diz que o Japão "nasceu"... Um pouco menos relevante, mas ainda bem mais do que Iwo Jima, é o caso de Okinawa, uma região com fama de ser meio "separada" do resto do Japão (tipo o Rio Grande do Sul pro Brasil e o Texas pros EEUU). Okinawa, além de geográfica e historicamente relevante, foi palco de uma batalha ainda mais sangrenta do que Iwo Jima, e que merece ser muito melhor conhecida. A Batalha do Enxofre só é tão famosa por causa da função que teve na política dos EUA durante a guerra, algo muito bem-retratado no filme Flags of Our Fathers.

Isso não é pra dizer que as mortes das dezenas de milhas de soldados e civis na ilha foi irrelevante comparada com outras. Foram todas lamentáveis e odiosas conseqüências da guerar, sem qualificações. O que quero alertar é que não podemos deixar esses exageros de se falar em "solo sagrado" e "montanha lendária" se espalharem. Isso é invencionice, é o vencedor imperialista tirando onda, é híbris!

2008/05/16


um passo pra trás implica em dois pra frente

"Ô Nicolau, usa Java! Bota aí um Eclipse!... Usa W1mbous CE, me, NT, 2000, XP, Vista... Tira esse TWM, bota um Gnome, KDE, Windowmaker... Porque vc não usa Java????"
"Sai fora, não suporto..."
"Então usa .NET... Ou Delphi, pq vc nunca fez sequer um programa em Delphi? Ooopa, vc usa o que?? EMACS? Eeeeca!..."
"Cara, eu gosto mais é de programar em C++, às vezes Prolog..."
"Prolog? Isso é muito velho, vc vive no passado. Retrógrado."
"É bem mania de programador de Prolog, fazer backtracking. Antigamente as coisas eram feitas para durar, cara... E pra funcionarem direito. E elas ainda duram e funcionam..."

2008/05/14


Aprendi tudo necessário no jardim-de-infância austríaco

Agora essa é boa. Tão tentando provar (e eu tou acreditando muito) que Ludwig Wittgenstein, um dos mais importantes filósofos do século XX, nascido em Viena em 1889, teria sido coleguinha de escola da personalidades política mais crucial, controvertida e louca-furiosa do século XX: Adolf Hitler, nascido esta também em 1889 no norte da Áustria, numa cidade a 60Km de Salzburg. O encontro teria sido influente na vida de ambos, e eles representariam de certa forma a grande dicotomia maniqueísta do século XX. Alguns ainda debatem esta foto, mas conhecendo a cara de peixe-morto do Lud, e a cara de mamãe-eu-vou-chorar do Adô, eu não tenho dúvidas. E por mais que o Lud não seja esse piazinho aí na foto, eles estudaram na mesma escola sim, apesar do Lud estar dois anos na frente. Diga-se de passagem, razão o bastante pra ele ser famosinho na escola, e atrair ressentimento de todos. Quem gosta de um geniozinho?
(Wittgenstein nasceu em 26 de Abril, e Hitler no dia 20.)



Eles teriam 14 e 15 anos nesta época. Alguns debatem, dizendo que eles talvez nunca tenham se encontrando, e que provavelmente nem se lembrariam um do outro quando mais velhos. Duvido muito. 14 anos já é velho o suficiente pra ter um bom conhecimento de todos seus colegas de escola, e para formar uma bela listinha de quais você gosta e não gosta. Duas peças raras como eles sem dúvida tiveram uma porção de encontros desagradáveis. E tendo se encontrado ou não, saber que estiveram tão próximos um do outro é muito interessante.

O que se debate mesmo são umas teorias paranóicas que saíram nesse tal livro The Jew of Linz, explorando a contraposição destas personalidades. São teorias até interessantes, vale a pena dar uma lida, menos porque seja verdade ou não, mas mais porque faz pensar sobre questões fundamentais da mente humana (um pouco como eu considero a astrologia). Duvido muito que o Wit tenha sido espião da Rússia, mas não duvido que tenha "se relacionado" com um certo famoso cientista da computação inglês homossexual que foi a engrenagem central da quebra da Enigma.

2008/04/24


The Race Question - Wikipedia, the free encyclopedia

The Race Question - Wikipedia, the free encyclopedia

É um equívoco querer fundamentar cientificamente o princípio moral de "dignidade, igualdade e respeito mútuo entre pessoas". A moral "vem de dentro", estes princípios não dependem da inexistência "cientificamente comprovada" de raças para serem seguidos. O uso de noções científicas para argumentar a favor disso é tão questionável quanto é para argumentar a favor do pensamento contrário: da "desigualdade, e desrespeito"...

Um tempo atrás o Lula falou num debate que existem métodos científicos pra determinar a raça de uma pessoa, e eu achei ruim, mas é verdade sim. É possível inventar utilizar um método "científico" pra isso. O método se tornaria imediatamente uma definição do que é essa tal raça, que é uma coisa que realmente pode ser definido de diferentes formas.

Não querer criar definições de raças (vejam bem como é flexível, não estou dizendo que existe uma única e verdadeira definição) para que não haja discriminação racial é algo muito ingênuo. Quer dizer que havendo, aí então tudo bem discriminar? De forma alguma, temos que ser mais robustos do que isto. Temos que rejeitar a discriminação apesar de diferenças que possam ser percebidas. E se um dia descobrirmos haverem não duas raças, mas duas espécies de animais inteligentes habitando a terra? Aí então vai surgir o conceito cientificamente definido, e aí discriminações legais de espécie, "especismo", vei ter fundamento? (notem que o termo especismo já é utilizado por defensores de direitos dos animais, não é piada minha.)

A um tempo atrás saiu uma entrevista muito boa sobre o assunto na revista da FAPESP, mas infelizmente esqueci o nome do entrevistado. Foi o que finalmente me fez mudar de idéia, depois da estranheza que senti naquele debate com o Lula. A propísito, apesar de algora concordar com ele, não sou muito a favor que se utilizem quaisquer "métodos científicos de comprovação de raça" para alocar recursos educacionais... Outros critérios, talvez.

O que precisa ser discutido é o quanto queremos que diferenças raciais, definidas como for, importem nas nossas vidas. O princípio de estado igual para cidadãos desiguais é "robusto" porque não se importa com o que a ciência possa dizer.

A ciência só tem as repostas, as perguntas vem antes...

Este link pra Wikipédia fala de um documento/manifesto da UNESCO, escrito à luz sombria da WWII, que entre outras coisas questiona "cientificamente" a existência de raças humanas, e foi contestado por alguns, principalmente por Fisher.