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2008/06/16


O fim dos tempos

Os anos 90 acabaram mais ou menos em 2004, quando virou moda aqueles jovens que gostam de new-metal e não gostam de Iron Maiden fazerem flash-mobs pelados ou usando adereços de palhaço, dando abraços grátis na rua, jogando tortas em celebridades controvertidas e colando cartazes com piadinhas infames nos postes por aí.

Como chama isso tudo? Tem nome já? É um neo-68 pós-apocalíptico?

Tomara que o próximo disco do Probot me faça sentir que meu tempo ainda não acabou. E pra quem ainda prefere botar pra quebrar no old school way, aí vai a letra a música que o Lemmy canta no primeiro disco:

SHAKE YOUR BLOOD

Looking for relief in your miserable life
You need some rock and roll
And you better get it right
Got to roll them bones,
Do everything they say
If you're cool, you're the fool.
Make it work everyday.

Rock out, do it quick
My, my, my, let it rip
Rock out, feeling good.
Break your heart. Shake your blood.

Out upon the stage, crowd is going wild,
Love to see them women, babe
I ain't in denial.
Make you crazy too. Make you show it out.
Looking good, get some wood
You should, You knew you could

Rock out, do it now
My, my, my, show me how
Rock out, make it good.
Break your heart. Shake your blood

Want to be a winner, want to be the man.
Want to make yourself insane,
Join up with the band
Want to fall in love, want to make your mark
Want to get out in the storm, want to break
A thousand hearts

Rock out, strike it rich
My, my, my, it's a bitch
Rock out, I knew you could
Break your heart. Shake your blood

2008/05/16


um passo pra trás implica em dois pra frente

"Ô Nicolau, usa Java! Bota aí um Eclipse!... Usa W1mbous CE, me, NT, 2000, XP, Vista... Tira esse TWM, bota um Gnome, KDE, Windowmaker... Porque vc não usa Java????"
"Sai fora, não suporto..."
"Então usa .NET... Ou Delphi, pq vc nunca fez sequer um programa em Delphi? Ooopa, vc usa o que?? EMACS? Eeeeca!..."
"Cara, eu gosto mais é de programar em C++, às vezes Prolog..."
"Prolog? Isso é muito velho, vc vive no passado. Retrógrado."
"É bem mania de programador de Prolog, fazer backtracking. Antigamente as coisas eram feitas para durar, cara... E pra funcionarem direito. E elas ainda duram e funcionam..."

2008/02/11


Sobre hot-spots abertos, torrents no talo e os problemas no compartilhamento da Internet em casa

Andei discutindo com algumas (mais de duas) pessoas anônimas sobre liberação de acesso do seu roteador a seus vizinhos, e sobre a etiqueta que se deve observar ao gozar do privilégio. Tão me chamando de nazista por aí porque eu botei senha no roteador do meu avô, e porque eu acho que quando vc entra numa rede não deveria ter que se preocupar sobre a banda que está ocupando... Permitam-me discorrer um pouco melhor sobre estas duas questões:

1_ Eu jamais configuraria o roteador de uma outra pessoa pra deixar a rede aberta, sem senha. O meu, em casa, eu deixaria, porque sou eu quem vai administrar, vou ter plena consciência do que isto significa. Mas o dos outros eu deixo fechado por default.

É como decidir deixar a porta de casa sem fechadura. Você não instala uma porta na casa de alguém e deixa sem fechadura. Vc deixa a fechadura lá, e se a pessoa quiser deixar destrancado, ela que deixe. Mas antes ela precisa aprender a trancar e destrancar.

Quando alguém mais experiente configura um sistema pra outra pessoa utilizar, tem sempre que deixar configurado da forma mais fechada e segura possível. Isso obriga o usuário a aprender a abrir o sistema. Ao mesmo tempo em que aprende isso, ele aprende sobre o funcionamento e configuração e manutenção do sistema, e assume as responsabilidades.

Quem configura um sistema, tem responsabilidade sobre ele. Se o usuário optar por fazer algo perigoso, ele tem que ter consciência de que vai estar fazendo isso.

Configurar um roteador pra uma pessoa que não domina a tecnologia é um pouco como construir um apartamento para alguém. Você não constrói um chão que agüente só 200kg/m2 sem avisar o usuário (e confiar nele). Vc constrói pra agüentar lá uns 500kg/m2, a não ser que ele te peça, e que vc tenha certeza de que ele sabe o que isso significa, e que ele seja o responsável por um eventual acidente.

Vc não pode deixar a rede aberta se for você o responsável pelo bom funcionamento dela, mas não vai ficar lá administrando todo dia. Vc tem que ter certeza de que o usuário vai vigiar se não tem algum mané atrapalhando a conexão dele. Senão o CREA te detona... É a vida dos engenheiros desde os tempos de Hamurabi.


***
2_ Eu acho que se você é legal, e deixa sua rede aberta, e alguém entra nela e começa a baixar 10.000 torrents e de repente você não consegue mais usar sua própria conexão com a Internet, esse cara é um mané, e se vc quiser eu te ajudo a ir lá e dar uns sopapos na cara dele. Mas acontece que a filosofia em que se baseou a construção dos protocolos TCP/IP é totalmente contrária à idéia do usuário na "folha" da rede terem que ficar vigiando o seu consumo da banda.

O TCP envia pacote o quanto dá pra enviar. Se tem coisa pra mandar, e se tá indo, ele manda. Mas conforme os pacotes vão demorando pra chegar do outro lado --- ou melhor, conforme os ACKs vão demorando a chegar de volta --- ele vai esperando, e assim a velocidade da transmissão vai naturalmente se ajustando aos recursos. E essa flexibilidade se reflete em todas camadas acima do TCP também. Por isso ninguém devia ter que ficar limitando o funcionamento do seu BitTorrent.

Se você tem uma conexão de 20kB/s, e tem uma conexão TCP ocupando tudo, e de repente você liga outra conexão paralelamente, em um sistema convencional as duas vão aos poucos se ajustando pra dividir irmãmente a conexão. O protocolo funciona assim, ele é meio "passivo". E esse é o maior motivo do sucesso do TCP/IP. Não tem muita discussão, ele simplesmente vai tomando conta do que pode, e se não pode, abaixa a bola.

Como o TCP/IP funciona dessa forma, pra um roteador limitar a velocidade das conexões de um usuário basta ele levantar a estatística de quantos pacotes vc tá enviando. Se vc começa a enviar demais, ele simplesmente joga seus pacotes extras no lixo. Isso acontece até vc aprender quanto vc pode ocupar. E na prática vc acaba sempre transmitindo um pouquinho acima do que pode, porque é assim que vc efetivamente mede o quanto é que pode.

É assim que funciona... Quer dizer, é assim que nossos roteadores DEVIAM funcionar. Essa era idéia lá nos anos 90. Só que esses roteadores paias que essas d-link, 3com, cisco e outras fabricantes enfiam pela nossa goela não fazem isso não meu chapa. O que os engravatados decidiram é que o povão ia ter que se contentar com roteadorezinhos vagabundos que não te permitem ter um controle adequado de alocação de banda entre os clientes do roteador.

E a coisa mais podre do mundo não é nem a falta de controle de banda. É o problema do número de acessos do roteador. Acontece que esses dispositivos são quimeras bizarras que nada tem a ver com o verdadeiro TCP/IP. Essas porcarias todas dividem a conexão entre os clientes usando NAT, que é uma meleca duma gambiarra feia que não devia existir. Por causa dessa maldição contemporânea, nosso "roteador enxerido" é obrigado a ter uma lista de todas as conexões TCP ocorrendo em nossa rede, ao invés de ser de fato apenasmente um roteador de IP. E se o limite de conexões for ultrapassado, vc tá perdido irmão...

Esses roteadorezinhos que a gente usa não foram projetados pra dividir direito a conexão entre clientes desconhecidos. São brinquedinhos pra colocar em casa, e dividir uma conexãozinha entre duas máquinas, e mais uma impressora estribada da vida. Na hora que algum zé mané inventa de deixar o torrent ligado "no talo", ao invés da máquina dele ser naturalmente limitada pelo roteador, como deveria ser, ele acaba engasgando o roteador.

Então aqui que vem minha briga. Não pode ser considerado falta de ética uma pessoa entrar numa rede e sair tentando consumir todos recursos dela, e efetivamente conseguir. É falta de ética a D-link, 3com, Cisco e amiguinhas venderem pra gente estas bostas. É falta de ética as empresas chamadas "provedoras de Internet" não moverem um dedinho mínimo pra acabar com essa porcaria chamada NAT. É falta de ética a gente ser vítima de um bando de executivos babacas que só querem saber de ganhar dinheiro oferecendo pra nós um servicinho que não é sombra do que a tecnologia que existe é capaz de realizar.

Falta de ética é vivermos em 2008 sem conseguirmos imaginar quando se dará o fim do NAT e a ascensão do IPv6 e a popularização de roteadores que prestam. IPv6 tá fazendo 10 anos de vida.

Falta de ética maior é nosso povo viver absolutamente desinformado acerca da exploração que está sofrendo, a ponto de algumas pessoas serem capazes de imaginar que o sofrimento causado em nosso dia-a-dia quando temos estas disputas mal-resolvidas nos compartilhamentos de conexão em nossos roteadores são devido a um mal-comportamento incivilizado de seus pares, ao invés da ganância, preguiça e outros vícios desses engravatados dessas mega-corporações tipo as "provedoras" de Internet e os fabricantes de equipamentos... E também o Bill Gates (pronto, falei!)

Os roteadores que usamos hoje são como dispositivos de uma tecnologia avançada colocada sem proteção na mão de crianças. Resultado: uma machuca a outra e elas dizem que a culpa é da criança que não soube brincar. Não uai. A culpa é de quem colocou na mão delas uma coisa mal-feita. A culpa do engenheiro, como é desde os tempos de Hamurabi.

E eu fico puto porque esse assunto é tão importante pra mim, e ninguém tá pouco se importando. Eu acho sim que se alguém detona sua conexão ele é um babaca. Mas a gente não pode falar com naturalidade, como se fosse normal ter esses roteadores defeituosos. É isso que tem que mudar, e não as pessoas que querem ocupar toda a banda disponível.

Quando a gente se dispõe a tratar do assunto sem questionar a tecnologia maculada que tá dentro destas caixinhas mágicas prateadas em nossas mesas, a gente tá ficando de quatro pras empresas jogarem a canga no nosso pescoço. Quer dizer que estamos aceitando de fato que é assim que vai ser e pronto. Não é assim não gente. O que tem que mudar são estas bostas dessas máquinas. A gente não pode aceitar viver num mundo em que a gente tem que ficar vigiando o funcionamento de nossas máquinas pra não machucar inadvertidamente (ou não) nossos vizinhos de LAN.

Não era pra alguém ser capaz de detonar sua conexão ao entrar em sua rede que você tão gentilmente cedeu. Não era pra isso ser possível. E não é nem igual carro, por exemplo, que vc pode matar alguém se usar errado. Num roteador padrão, funcionando do jeito certo, não deviam acontecer essas merdas. A gente não pode aceitar essa condição. A gente tem que lutar é contra isso.

Quando vc simplesmente aceita o roteador como ele é, e o seu sistema operacional como ele é, e começa a criar regras de conduta em sua sociedade em decorrência da forma como a tecnologia está se apresentando pra você, vc está se deixando manipular. Você está cedendo na disputa cyberpunk entre dominar a tecnologia, ou ser dominado por ela. Você está tratando a tecnologia como um fato incontrolável da natureza, e os fabricantes desta tecnologia acabam sendo deuses no seu mundo, decidindo seu destino.

Aquelas frases do Heinlein e do Clarke falando sobre tecnologia avançada parecer mágica são exatamente isso aí. A gente tá achando mais fácil mudar nossa vida, nossa conduta, e criar regras sociais do que mudar a própria tecnologia. Estamos nos curvando à tecnologia que devia ser a nossa escrava. Está tudo de ponta-a-cabeça.


***
Eu já causei problemas em redes dos outros inadvertidamente mais de uma vez, por causa desses nossos roteadores toscos e redes mal-feitas. Na minha experiência, sofri mais ao machucar os outros sem querer, do sofri recebendo ataques dos outros. Vai ver que é por isso que insisto em nunca jogar culpa nos usuários...

2008/01/07


GOTO o_chuveiro;

Um famoso debate no mundo da computação é entre aqueles que são "contra" e "a favor" da instrução GOTO. Este debate nunca fez muito sentido pra mim. A instrução GOTO é o cerne de toda a computação, mas é óbvio que é freqüentemente mais útil programar pensando em estruturas como um "for"... Só entendi a briga agora que li aquela carta do Dijkstra que dizem ter inaugurado a polêmica. Esta carta é sempre citada, mas foi raramente lida de fato, fazendo-a sofrer da mesma "síndrome do Necronomicon" que afeta por exemplo o livro Perceptrons de Minsky.

A carta de Dijkstra menciona uma preocupação que nada tem a ver com eficiência de programas, ou de capacidade de representação de linguagens. Dijkstra se preocupava com as limitações cognitivas do homem, e sua capacidade em entender naturalmente um programa de computador. Sua preocupação era com questões envolvidas na gênese da atividade de "programador de computadores", algo que acredito ter sido central em sua vida. Tem a ver ainda com a criação das linguagens de computador.

Acho muito anacrônico as pessoas continuarem esta discussão. Linguagens de computador já existem pra valer, e continuam sendo criadas. A atividade de programador já é algo definitivamente estabelecido. Precisamos considerar que estamos em um contexto diferente do de Dijkstra. É um absurdo transformar aquela questão em uma disputa entre programadores de Java, e projetistas de FPGAs.

Eu sempre simpatizei mais com a turma "a favor" do GOTO por considerar absurda a censura que se impõe sobre esta instrução que, junto da execução condicional, constitui a essência da computação. O que eu nunca havia compreendido é que aqueles que se colocam "contra" a instrução estão preocupados é com a legibilidade de códigos, e a facilidade em se gerar códigos corretos, e não com os fundamentos da teoria da computação e arquitetura de computadores.

Na verdade existem duas atividades distintas, ligadas à computação, onde ocorre um uso parcimonioso ou indiscriminado desta instrução potencialmente críptica. Aqueles preocupados com a manutenção de códigos, ou com a confecção de programas para fins específicos, devem de fato buscar padronizações como as oferecidas pela programação estruturada. Este grupo de pessoas, ao me ver, deveria se identificar com o sentimento de Knuth ao criar a linguagem WEB, e ainda propor que "programas deveriam nascer corretos, e não depurados até a exatidão". Entretanto, Knuth é tido como um opositor de Dijkstra na questão do GOTO...

Existe outro grupo de pessoas que se preocupa com o fenômeno da computação em si, e não com a confecção de programas para serem facilmente lidos por outras pessoas, ou para atender a encomendas. É nesta atividade que pode acontecer de nos depararmos com programas corretos, mas difíceis de compreender. Nestas ocasiões o programa sendo estudado é um enigma sendo resolvido, um código que se decifra. São de fato programas que desafiam as nossas capacidades cognitivas ao tentarmos entendê-los, e é de se compreender que pessoas acostumadas a trabalhar em uma das atividades estranhe os programas que ocorrem na outra.

A criação e análise de programas do primeiro tipo, os claros, naturais e fáceis, são valorizadas por profissionais de diversos tipos, que lidam com questões como manutenção de códigos e portabilidade. No caso de programas crípticos, esta programação é valorizada por um número de pessoas que suponho serem aquelas identificadas como "escovadores de bits". Acredito que o motivo da intensidade nos debates sobre a instrução GOTO se deve ao fato de que estas pessoas se sentem ofendidas pela sugestão de que esta instrução, que é a epítome da atividade desenvolvida por elas, seja considerada como inerentemente maléfica.

Acredito que este grupo de "escovadores de bits" possa ser comparado com os pesquisadores de ciências básicas, como físicos que fazem experimentos com forças básicas de interação na busca de novas formas de obter um certo efeito. Do outro lado teríamos engenheiros e técnicos na busca por dispositivos fáceis de se produzir e utilizar.

Já passou da hora de amadurecer o debate, e ver que não há o que se debater. A remoção do GOTO em linguagens de alto-nível é um fato cada vez mais fortemente estabelecido. Diria ainda que definitivamente, com a criação das instruções "try/catch"... Ou talvez falte ainda uma boa forma de se programar sinteticamente saídas alternativas de procedimentos...

***

Temos que entender que esse debate naquela época tinha a ver com programadores que queriam programar em alto-nível, e eram obrigados a fazer GOTO porque não havia alternativa. Eles queriam se libertar das amarras cognitivas do GOTO. Hoje em dia parece que existe uma tendência de programadores de alto-nível quererem amarrar os de baixo nível, exigindo que estes abandonem o GOTO. Que sentido faz isso?!? Porque as pessoas não podem ser simplesmente felizes no mundo moderno, em que pessoas como Guido van Rossum e Larry Wall podem criar suas linguagens sem o trabalho que isto exigia nos tempos de Grace Hopper?

Os tempos mudaram. Precisamos é avaliar melhor os tais limites cognitivos que interessavam a Dijkstra. Ele percebeu alguns, e lutou contra eles, e foi bem sucedido. Precisamos avançar esse trabalho, mas isto não significa de forma alguma fazer com que os escovadores de bits se ajoelhem e sejam proibidos de criar coisas como programas auto-modificáveis.

Precisamos estudar melhor ainda a forma como pessoas interpretam e escrevem programas. Precisamos entender melhor o processo, agora no novo contexto onde existem coisas como Perl e Python e Java e LISP e etc. Precisamos nos deslocar para esse novo mundo onde a existência de um número infindável de linguagens de computador diferentes existe, e esquecer, ou melhor, permitir que entre para a história o mundo de Dijkstra com seus cartões perfurados e etc.

Dijkstra não usava editor de texto, não gostava nem de máquinas de escrever. Não usava calculadora, não tinha televisão. É um sujeito que viveu um período muito específico da história em que isso era meio que normal, e manteve essa cultura até o fim da vida. Ao pensar nele me lembro um pouco de Maxwell escrevendo seu magnum opus sobre eletromagnetismo à luz de velas. Não quero dizer que ele era retrógrado, o que quero dizer é que ele subiu um degrau no desenvolvimento da humanidade, e temos agora que nos reconhecer neste nível mais alto, e pensar daqui pra cima, e não ficar pulando lá pra baixo achando que esse foi o final da história.

Em outras palavras, as pessoas agem como se o desenvolvimento posterior da evolução epitomizada por aquela carta de Dijkstra fosse o BANIMENTO do conceito de GOTO. Fosse a proibição desta palavra, fosse tornar imoral que alguém escrevesse um código desta forma. Assim surge a animosidade entre os escovadores de bits e programadores de alto-nível, algo que não faz o menor sentido.

Coisas como programas auto-modificáveis foram encontradas nos idos de 1950 e 1960, e passaram a ser cultuadas por alguns %os escovadores), e odiadas por outros, os programadores que não tinham muito tempo pra perder com isso, e a quem estas entidades crípticas atrapalhava. Hoje estes conseguiram se realizar, adquirindo linguagens que atendem a suas necessidades. Mas parece que uma forma de trauma surgiu. As tais entidades crípticas, as esfinges ou quimeras computacionais, que antes imperavam devido à inexistência de linguagens sofisticadas e à juventude da atividade de programação, estão sendo agora requeridas a se retirarem do universo, estão sendo banidas e recriminadas.

Estas estruturas são tidas como obscenas, num sentimento que lembra talvez o horror da comunidade de matemáticos frente a conceitos como os fractais e atratores caóticos %Mandelbrot denuncia este preconceito ingênuo em sua formidável obra). Este sentimento deve ser rejeitado.

***

Dijkstra fez um apelo para que as pessoas mergulhassem de cabeça no mundo da criação de linguagens de computador. A briga era com pessoas que passaram a vida programando em baixo-nível, e diziam que "passei a vida fazendo isso, porque haveria de parar"? A briga era contra pessoas que não viam que era possível se criar uma linguagem de um nível tão alto e distante dos circuitos. Era contra pessoas que possuíam uma restrição cognitiva que as impedia de ver o quão longe a idéia de linguagem de programação podia ir.

Antigamente existia apenas a programação de baixo nível, que irritava as pessoas com desejo de programar em alto-nível. Agora que ocorreu a revolução, e foi criado o mundo da computação de alto-nível, estas pessoas que o habitam parecem querer sugerir que aquele mundo arcaico deve como que ser extinto. Elas não vêem que o que houve foi uma expansão do universo da programação. Elas acreditam que antes havia algo "errado" , e que agora o erro, o "bug", deve ser exterminado.

O que havia não era errado. Era apenas pequeno demais. Agora já cresceu... A instrução GOTO e os programas auto-modificáveis ainda tem o seu lugar. A existência de alternativas que agradam mais a platéias específicas não significa que aquele outro show, que antes era o único que havia, deva acabar. Tem lugar pra todos!...

O sentimento de guerra dos anos 1960 deve ser encerrado. Temos que acabar também com essa coisa sádica na programação de falar para as pessoas o que elas não podem fazer ou o que devem fazer, ficar ditando os comportamentos dos outros. Cada um faz o que quiser. O importante é sempre divulgar todas possibilidades, em detalhes, e tentar compreender o que é mais adequado para que situação. Se um grupo de pessoas adota alguma restrição em um projeto coletivo, e a impõe através de uma hierarquia visando a melhor inter-operação das partes, bom pra eles. Não podemos ficar dentro das universidades falando em "acabar com o GOTO". Universidade é pra conhecer bem e avaliar todas possibilidades, e aconselhar sobre quando evitar ou não o tal GOTO, ou o Java, que seja...

O importante é que as tais restrições cognitivas mencionadas por Dijkstra permanecem muito pouco estudadas. O mundo da computação e programação continua sendo um bocado experimental, selvagem e confuso, em grande parte devido a um sentimento generalizado de vaidade de cada um por suas preferências. Ou talvez pelas preferencinhas do homem mais rico do mundo, e um punhado de mega-corporações.

Tem que acabar esse "contra-golpe" de programador de Java fazer careta pra GOTO e pra programa auto-modificável e o escambau, em retaliação por todos anos em que as pessoas foram obrigadas a escovar bit pra utilizar os computadores em seus serviços. Chega de trauminha, acabou a adolescência. Os programadores de "demos", vírus e outras paradas até gostam do sentimento de marginalidade, mas essa infantilidade tem que acabar, pelo menos dentro das universidades.

2007/12/08


A hora e a vez de citar a Wikipédia em artigos científicos

EDIT: Se você está procurando informações sobre como citar a wikipédia em seu trabalho, por favor veja este outro post meu ensinando o macete.

A questão da propriedade ou não da citação de fontes como a Wikipédia em publicações científicas, e de seu uso em atividades acadêmicas em geral, acaba estimulando um debate muito mais amplo e importante: o do próprio papel das referências bibliográficas em artigos e no fazer científico.

Já na página 60 do último livro de Galileo Galilei, Discorsi e dimostrazioni matematiche, intorno a due nuove scienze (1638), o personagem Sagredo faz notar que é possível às vezes realizar um experimento científico, e concluir que a opinião de alguns filósofos antigos, ``incluindo às vezes talvez até o próprio Aristóteles,'' está errada. O lema da Royal Society de Londres diz ainda, desde 1660: Nullius in Verba, ou ``segundo [as palavras de] ninguém.'' Cito estes antigos bastiões da ciência para lembrar que a verdadeira ciência ocorre apenas naqueles raros momentos em que se realizam experimentos, e estes são percebidos como em conformidade com determinadas teorias científicas propostas. Tomando o conceito do mais contemporâneo Karl Popper, a parte mais crucial da ciência se dá apenas naquele momento quando se tenta falsear uma teoria. (Se é que eu entendo desse assunto.)

A citação, referência e reverência a fontes de conhecimento antigas e cultuadas não são necessariamente atividades científicas, podendo ser meramente recursos retóricos para tentar dar credibilidade a um trabalho científico novo. Este tipo de ação já é compreendido como tal desde quando o próprio Aristóteles identificou as diferentes formas de ``provas retóricas'': o ethos, o pathos e o logos. A lógica e a dialética podem sim ser suplementadas pela retórica. É preciso ser vigilante entretanto para não cair na retórica vazia, ou o ``sofismo,'' já denunciado por Platão. Freqüentemente citações em artigos científicos não buscam direcionar o leitor a alguma fonte de dados ou técnicas utilizadas no trabalho. Estas citações visam apenas sugerir afinidade com trabalhos aclamados pelo meio acadêmico, tentando tomar para si um pouco desta aceitação.

Se ao realizar um trabalho científico um cientista coleta uma série de dados, ou consulta a forma exata de alguma técnica em uma referência, e em seu trabalho é capaz de comprovar a certeza dos dados ou a exatidão da técnica, que mal há em referenciar esta fonte no trabalho, mesmo que seja ela a Wikipédia, ou talvez uma pichação, um rabisco em uma porta de banheiro, ou ainda um conselho de um faxineiro? Ao referenciar um trabalho o autor de um artigo torna-se na verdade cúmplice daquela referência. São os autores de novos artigos que são responsáveis pela exatidão de suas fontes, e não os autores dos trabalhos clássicos que são pela dos novos.

O questionamento da adequação ou não do uso da Wikipédia em artigos científicos e na atividade acadêmica em geral deve ser feito é neste contexto mais amplo, em que se questiona não a forma como esta fonte específica é confeccionada, mas sim todo o processo da referenciação. O pensamento que exige estritamente o uso de referencias ``consagradas'' em uma publicação é o mesmo que prega uma forma passiva de leitura, em que o leitor não busca questionar o que vê escrito. Renegar um artigo devido a sua autoria, sem travar contato com o material, é como negar-se a olhar através de uma luneta para observar um fenômeno que alguém diz ter visto, afirmando ter certeza de que trata-se de um equívoco.

Aceitar a Wikipédia como uma fonte bibliográfica regular é o último e maior passo necessário para se adentrar nesta nova era que estamos propondo, em que o aluno e o leitor deixam de ser meros espectadores da ciência para se tornar agentes participantes, enriquecendo as fontes de conhecimento com realimentações de banda larga e atraso reduzido.