Muito boa a qualidade da webcam do LHC. Entrem lá antes de ler o resto, e apreciem por uns instantes, dá pra ver a cada 5 segundos mais ou menos um dos momentos em que uma rajada de neutrons de carga negativa atinge o bloco de Bórax no centro do aparelho, o que causa umas faíscas roxas.
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Viram que legal?? Muito bom, né? Contribuição de nossa leitora misteriosa, Mme. Z!
Poisé, essa webcam todo mundo pode acessar, tá funcionando bem. Mas lembra quando rolou lá a inauguração do LHC? Eu fiz a maior propaganda, fiquei acordado até tarde... E pra nada! Foi triste. O servidor deles parece que só conseguiu transmitir o tal webcast para um número bastante reduzido de máquinas, e quem não sentou na cadeirinha na hora certa, dançou. Pelo menos eu pude acompanhar pela BBC...
A ironia de tudo é que algo que se fala muito sobre o CERN é ele ter sido o berço da "WWW", esse conjunto específico de protocolos, paradigmas e programas utilizados que formam os serviços que muitos eludem-se ao acreditar que constituem o todo e o fim último da Internet.
Eu fico triste ao constatar que o CERN deu uma aceleração Lorentziana na WWW e ajudou a espalhar a Internet por todo o lado, mas anos depois disto, num momento em que os olhos do mundo se concentraram sobre a instituição, eles promovem um evento na Internet que serviu mais foi pra mostrar como a ferramenta está aquém de nossas necessidades. (ferrmenta - Internet, e não o LHC! :) )
Não conseguiram montar um servidor de vídeo violento, nem rolou mirror, nada... A solução era o que? Multicast né, gente. É usar de fato tecnologias já pesquisadas pra resolver essas coisas, montar uma rede mais flexível, e finalmente implementar por aí o IPv6 e outras milongas mais.
Ou talvez nem isso, não tem uns sites por aí que retransmitem seu vídeo?? Porque ninguém botou o trem lá? Mesmo que tivesse tb, creio que eu teria tido dificuldades pra achar...
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Tudo bem que a pesquisa deles é outra história correndo em paralelo, e o tal nascimento da WWW que teria ocorrido lá não é algo tão deslumbrante assim. Mas dá pra ter uma impressão de que a WWW saiu do CERN nos anos 90, deu meia volta, e mordeu o calcanhar dos próprios naquele dia. Eles criaram lá esse monstrinho cheio de interfaces que me dão raiva, e que até onde eu sei não concretiza as visões de caras como Douglas Engelbart ou Ted Nelson, e demonstraram naquele dia uma fraqueza da ferramenta. Não rolou!! Sei lá as razões, não rolou, fiquei tristinho. O ciclo histórico se completou, mas não pude acompanhar pela internet enquanto o ciclo de partículas ia se fechando dentro do aparelho.
(Mas façamos justiça ao fato de que pelo menos não precisava de Fresh pra abrir o stream).
Estamos vendo a tal web 2.0 surgir, mas por baixo ela continua mais ou menos a mesma. Muita mudança plástica, nem tanta mudança estrutural. Muitas ferramentas sendo desperdiçadas, seja por interesses de monopolização, seja por pura ignorância ou preguiça.
Quem sabe o incremento de força no CERN não seja o prenúncio agora de uma nova etapa na história da Internet?... Tem muita coisa pra acontecer. Eles estão até envolvidos já com o problema de distribuir o processamento dos dados que vão coletar. Tomara que nasça desses desafios tecnológicos o que vai ser de verdade uma "nova" web.
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Não posso terminar sem antes notar outra forma como a web teria agora retornado de forma meio negativa ao CERN, fechando um ciclo numa rebelião anti-progenitora. Quem falou melhor sobre isto foi o John Ellis, que nesta palestra muito boa (e extensa) mostra aproximadamente aos 40 minutos como que a web foi/está sendo utilizada pra espalhar FUD e desinformação sobre o LHC, e até mesmo desvairadas mensagens ameaçadoras carregadas de ódio.
É outra renovação que tem que ocorrer na Internet. Um terceiro tipo de "web 2.0". Além das ferramentas fundamentais e do jeitão dos sites, o conteúdo tem muito pra ser melhorado. Os usuários precisam amadurecer. O mundo precisa amadurecer, virar 2.0. Ouçam meu apelo, pessoas 1.0. Apelo ao qual acredito que se juntariam a mim esses dignatários todos que citei anteriormente, e outras pessoas de bom-senso como os estimados leitores deste humilde blargh. O apelo é: "Vê se cresce!!"
2008/09/18
Fechando o círculo de fogo na Suíça
2008/05/24
O monte cumbuca da ilha do enxofre
Em filmes contemporâneos de propaganda estadunidense é muito comum se ouvir descrições emocionantes da batalha na ilha de Iwo Jima, (ou mais antiga e recentemente Iwo To). Fala-se que foi o momento em que os estadunidenses invadiram um “solo sagrado” japonês. Outro dia ouvi alguém falar ainda que o famoso monte Suribachi, com seu formato peculiar, seria considerado pelos japoneses um velho “bastião” das terras japonesas, mitológico atalaia insular, tendo sido vencido pela primeira vez pelo bravo e indômito Tio Sam. Algo como se houvesse ali uma tradição em resistência a invasões, como existe na Rússia com relação a forças vindas do ocidente (batalha do Neva, Napoleão e Hitler).
A importância que se dá para o que representava a ilha Iwo (jima ou to = ilha) só não é superada pela importância que se dá ao ataque a Pearl Harbor. Este retratado como um ataque sorrateiro que atingiu um alvo localizado dentro das fronteiras Estados Unidos da América, uma afronta à soberania do governo do Distrito de Columbia.
Vamos portanto meter o malho: Quanto ao Havaí, é sempre bom lembrar: Ele fica localizado no meião do Pacífico. Sua distância aos EUA, milhares de kilômetros, deve ser tipo metade da distância ao Japão. E existe um grande número de havaianos descendentes de japoneses, quem viu Karatê Kid sabe. Existem também havaianos nativos, filipinos e pessoas de várias outras ascendências... É um caldeirão de culturas!...
O Havaí só se tornou um dos estados unidos depois de um complicado processo: Em 1893 o reinado soberano foi deposto numa ação que envolveu estadunidenses vivendo lá dentro daquelas fronteiras, e rolou uma invasão dos marines por causa de um alegado risco à vida destes cidadãos durante uma crise política. Em 1986 o Havaí virou um "território" dos EUA, e foi apenas lá em 1959 que eles viraram de fato um estado, após um plebiscito meio questionável. Foi na verdade um ato imperialista. Em 1993 Bill Clinton até assinou um controverso "pedido de desculpas" pelo papel dos EUA na derrubada do legítimo governo que havia naquele país. Foi uma anexação de uma nação estrangeira, portanto, não diferente dos casos do Texas e dos estados confederados na dita na "guerra da secessão", que devia se chamar mais era "guerra de junção". (É uma sutil retórica. Um nome implica que tentou-se separar algo "naturalmente junto". O outro, "alternativo", que se tentou e conseguiu juntar duas coisas já separadas.)
Enfim. Foi apenas parte da expansão estadunidense complementada pela pouco conhecida guerra hispano-americana. Só queria dizer que Pearl Harbour não era tão território-americano assim... Não tanto quanto qualquer cidade da região da Nova Inglaterra, por exemplo. O ataque a Pearl Harbour não foi algo como seria o caso de um hipotético ataque a algum dos famosos arranha-céus de uma cidade como, por exemplo, New York City.
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A história então vai assim: "depois do traiçoeira ataque a Pearl Harbour, uma afronta direta aos EUA por se tratar de seu território, eles foram reagindo, até que um dia chegaram à invasão de Iwo Jima, território sagrado japonês, em que se fincou a bandeira em uma montanha tão lendária quando o monte Fuji."
Porque invadiu-se Iwo Jima?... Se vc olhar no mapa, vai ver que é um ponto bastante estratégico. Quase a meio caminho entre as ilhas Marianas, e o Japão "de verdade". As Marianas foram dominadas pelos EUA antes de Iwo Jima (algumas delas eram posse dos EUA, foram invadidas pelo Japão, e depois retomadas pelos EUA). Isto já havia sido uma excelente vitória estratégica, porque permitia o ataque ao Japão com bombardeiros. Mas Iwo Jima é uma ilha relativamente grande, e tinha/tem um pequeno aeroporto, o que auxiliaria muito no suporte a tropas subindo pelo oceano, e foi basicamente por isso que foi invadida...
Mas além de ser um natural passo estratégico, a ilha Iwo também foi por acaso a primeira das ilhas invadidas pelos EUA durante a WWII que estava em posse do Japão já a muitos anos, bem antes da WWII. OK, era finalmente “território japonês”, mas o quão "japonesa" era mesmo essa ilha?? Será que era tipo Okinawa, onde nasceu o karatê do Sr. Miyagi?...
Vamos dar uma olhada no nome dela pra entender que tipo de lugar se tratava... "Iwo" é "enxofre"! Olha que legal, a velha "Iuodjáima" que os gringos gostam de repetir e repetir chama-se "ilha do enxofre"!... Acho que seria um pouco menos heróico ficar falando "Sulphur island" né?
E o famoso monte Suribachi? Dito uma "sagrada montanha que por anos protegeu o povo japonês de todo tipo de invasores até chegar o mighty american army"? Suribachi é um tipo de cumbuca, utilizada para moer coisas. Uma cumbuca! Engraçado que eu sempre olhei aquele formato peculiar, e pensei nisso também, agora descobri que os nativos concordavam. Era o monte cumbuca da ilha do enxofre.
Compare com o nome do monte Fuji, esse sim um monte "sagrado". Compare com o nome de Tokyo, que até mudou de nome conforme ficou mais importante. E a propósito: diz a Wikipédia que os habitantes da ilha utilizavam a palavra "to" para se referir à ilha, e não "jima" (não sei o quanto isso muda o significado). Os milicos japoneses chegaram lá falando jima, e colou. Isso demonstra como não era um lugar especialmente importante, mas sim "apenas mais uma" cidadezinha do interior, que teve a má-sorte de se tornar estratégica durante a guerra. Hoje parece que os habitantes estão fazendo valer sua preferência.
Não posso falar isso com certeza absoluta, mas eu sinto é que o único povo pra quem aquela montanha possui um status de local sagrado é o povo estadunidense, que inventou pra si mesmo um mito de grande glória militar naquela região.
Importante mesmo do ponto de vista cultural foi o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. Nagasaki talvez ainda mais do que Hiroshima, por se localizar numa região de cidades históricas, bem mais antigas do que Tokyo e outras hoje maiores, e onde se diz que o Japão "nasceu"... Um pouco menos relevante, mas ainda bem mais do que Iwo Jima, é o caso de Okinawa, uma região com fama de ser meio "separada" do resto do Japão (tipo o Rio Grande do Sul pro Brasil e o Texas pros EEUU). Okinawa, além de geográfica e historicamente relevante, foi palco de uma batalha ainda mais sangrenta do que Iwo Jima, e que merece ser muito melhor conhecida. A Batalha do Enxofre só é tão famosa por causa da função que teve na política dos EUA durante a guerra, algo muito bem-retratado no filme Flags of Our Fathers.
Isso não é pra dizer que as mortes das dezenas de milhas de soldados e civis na ilha foi irrelevante comparada com outras. Foram todas lamentáveis e odiosas conseqüências da guerar, sem qualificações. O que quero alertar é que não podemos deixar esses exageros de se falar em "solo sagrado" e "montanha lendária" se espalharem. Isso é invencionice, é o vencedor imperialista tirando onda, é híbris!
2008/01/07
GOTO o_chuveiro;
Um famoso debate no mundo da computação é entre aqueles que são "contra" e "a favor" da instrução GOTO. Este debate nunca fez muito sentido pra mim. A instrução GOTO é o cerne de toda a computação, mas é óbvio que é freqüentemente mais útil programar pensando em estruturas como um "for"... Só entendi a briga agora que li aquela carta do Dijkstra que dizem ter inaugurado a polêmica. Esta carta é sempre citada, mas foi raramente lida de fato, fazendo-a sofrer da mesma "síndrome do Necronomicon" que afeta por exemplo o livro Perceptrons de Minsky.
A carta de Dijkstra menciona uma preocupação que nada tem a ver com eficiência de programas, ou de capacidade de representação de linguagens. Dijkstra se preocupava com as limitações cognitivas do homem, e sua capacidade em entender naturalmente um programa de computador. Sua preocupação era com questões envolvidas na gênese da atividade de "programador de computadores", algo que acredito ter sido central em sua vida. Tem a ver ainda com a criação das linguagens de computador.
Acho muito anacrônico as pessoas continuarem esta discussão. Linguagens de computador já existem pra valer, e continuam sendo criadas. A atividade de programador já é algo definitivamente estabelecido. Precisamos considerar que estamos em um contexto diferente do de Dijkstra. É um absurdo transformar aquela questão em uma disputa entre programadores de Java, e projetistas de FPGAs.
Eu sempre simpatizei mais com a turma "a favor" do GOTO por considerar absurda a censura que se impõe sobre esta instrução que, junto da execução condicional, constitui a essência da computação. O que eu nunca havia compreendido é que aqueles que se colocam "contra" a instrução estão preocupados é com a legibilidade de códigos, e a facilidade em se gerar códigos corretos, e não com os fundamentos da teoria da computação e arquitetura de computadores.
Na verdade existem duas atividades distintas, ligadas à computação, onde ocorre um uso parcimonioso ou indiscriminado desta instrução potencialmente críptica. Aqueles preocupados com a manutenção de códigos, ou com a confecção de programas para fins específicos, devem de fato buscar padronizações como as oferecidas pela programação estruturada. Este grupo de pessoas, ao me ver, deveria se identificar com o sentimento de Knuth ao criar a linguagem WEB, e ainda propor que "programas deveriam nascer corretos, e não depurados até a exatidão". Entretanto, Knuth é tido como um opositor de Dijkstra na questão do GOTO...
Existe outro grupo de pessoas que se preocupa com o fenômeno da computação em si, e não com a confecção de programas para serem facilmente lidos por outras pessoas, ou para atender a encomendas. É nesta atividade que pode acontecer de nos depararmos com programas corretos, mas difíceis de compreender. Nestas ocasiões o programa sendo estudado é um enigma sendo resolvido, um código que se decifra. São de fato programas que desafiam as nossas capacidades cognitivas ao tentarmos entendê-los, e é de se compreender que pessoas acostumadas a trabalhar em uma das atividades estranhe os programas que ocorrem na outra.
A criação e análise de programas do primeiro tipo, os claros, naturais e fáceis, são valorizadas por profissionais de diversos tipos, que lidam com questões como manutenção de códigos e portabilidade. No caso de programas crípticos, esta programação é valorizada por um número de pessoas que suponho serem aquelas identificadas como "escovadores de bits". Acredito que o motivo da intensidade nos debates sobre a instrução GOTO se deve ao fato de que estas pessoas se sentem ofendidas pela sugestão de que esta instrução, que é a epítome da atividade desenvolvida por elas, seja considerada como inerentemente maléfica.
Acredito que este grupo de "escovadores de bits" possa ser comparado com os pesquisadores de ciências básicas, como físicos que fazem experimentos com forças básicas de interação na busca de novas formas de obter um certo efeito. Do outro lado teríamos engenheiros e técnicos na busca por dispositivos fáceis de se produzir e utilizar.
Já passou da hora de amadurecer o debate, e ver que não há o que se debater. A remoção do GOTO em linguagens de alto-nível é um fato cada vez mais fortemente estabelecido. Diria ainda que definitivamente, com a criação das instruções "try/catch"... Ou talvez falte ainda uma boa forma de se programar sinteticamente saídas alternativas de procedimentos...
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Temos que entender que esse debate naquela época tinha a ver com programadores que queriam programar em alto-nível, e eram obrigados a fazer GOTO porque não havia alternativa. Eles queriam se libertar das amarras cognitivas do GOTO. Hoje em dia parece que existe uma tendência de programadores de alto-nível quererem amarrar os de baixo nível, exigindo que estes abandonem o GOTO. Que sentido faz isso?!? Porque as pessoas não podem ser simplesmente felizes no mundo moderno, em que pessoas como Guido van Rossum e Larry Wall podem criar suas linguagens sem o trabalho que isto exigia nos tempos de Grace Hopper?
Os tempos mudaram. Precisamos é avaliar melhor os tais limites cognitivos que interessavam a Dijkstra. Ele percebeu alguns, e lutou contra eles, e foi bem sucedido. Precisamos avançar esse trabalho, mas isto não significa de forma alguma fazer com que os escovadores de bits se ajoelhem e sejam proibidos de criar coisas como programas auto-modificáveis.
Precisamos estudar melhor ainda a forma como pessoas interpretam e escrevem programas. Precisamos entender melhor o processo, agora no novo contexto onde existem coisas como Perl e Python e Java e LISP e etc. Precisamos nos deslocar para esse novo mundo onde a existência de um número infindável de linguagens de computador diferentes existe, e esquecer, ou melhor, permitir que entre para a história o mundo de Dijkstra com seus cartões perfurados e etc.
Dijkstra não usava editor de texto, não gostava nem de máquinas de escrever. Não usava calculadora, não tinha televisão. É um sujeito que viveu um período muito específico da história em que isso era meio que normal, e manteve essa cultura até o fim da vida. Ao pensar nele me lembro um pouco de Maxwell escrevendo seu magnum opus sobre eletromagnetismo à luz de velas. Não quero dizer que ele era retrógrado, o que quero dizer é que ele subiu um degrau no desenvolvimento da humanidade, e temos agora que nos reconhecer neste nível mais alto, e pensar daqui pra cima, e não ficar pulando lá pra baixo achando que esse foi o final da história.
Em outras palavras, as pessoas agem como se o desenvolvimento posterior da evolução epitomizada por aquela carta de Dijkstra fosse o BANIMENTO do conceito de GOTO. Fosse a proibição desta palavra, fosse tornar imoral que alguém escrevesse um código desta forma. Assim surge a animosidade entre os escovadores de bits e programadores de alto-nível, algo que não faz o menor sentido.
Coisas como programas auto-modificáveis foram encontradas nos idos de 1950 e 1960, e passaram a ser cultuadas por alguns %os escovadores), e odiadas por outros, os programadores que não tinham muito tempo pra perder com isso, e a quem estas entidades crípticas atrapalhava. Hoje estes conseguiram se realizar, adquirindo linguagens que atendem a suas necessidades. Mas parece que uma forma de trauma surgiu. As tais entidades crípticas, as esfinges ou quimeras computacionais, que antes imperavam devido à inexistência de linguagens sofisticadas e à juventude da atividade de programação, estão sendo agora requeridas a se retirarem do universo, estão sendo banidas e recriminadas.
Estas estruturas são tidas como obscenas, num sentimento que lembra talvez o horror da comunidade de matemáticos frente a conceitos como os fractais e atratores caóticos %Mandelbrot denuncia este preconceito ingênuo em sua formidável obra). Este sentimento deve ser rejeitado.
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Dijkstra fez um apelo para que as pessoas mergulhassem de cabeça no mundo da criação de linguagens de computador. A briga era com pessoas que passaram a vida programando em baixo-nível, e diziam que "passei a vida fazendo isso, porque haveria de parar"? A briga era contra pessoas que não viam que era possível se criar uma linguagem de um nível tão alto e distante dos circuitos. Era contra pessoas que possuíam uma restrição cognitiva que as impedia de ver o quão longe a idéia de linguagem de programação podia ir.
Antigamente existia apenas a programação de baixo nível, que irritava as pessoas com desejo de programar em alto-nível. Agora que ocorreu a revolução, e foi criado o mundo da computação de alto-nível, estas pessoas que o habitam parecem querer sugerir que aquele mundo arcaico deve como que ser extinto. Elas não vêem que o que houve foi uma expansão do universo da programação. Elas acreditam que antes havia algo "errado" , e que agora o erro, o "bug", deve ser exterminado.
O que havia não era errado. Era apenas pequeno demais. Agora já cresceu... A instrução GOTO e os programas auto-modificáveis ainda tem o seu lugar. A existência de alternativas que agradam mais a platéias específicas não significa que aquele outro show, que antes era o único que havia, deva acabar. Tem lugar pra todos!...
O sentimento de guerra dos anos 1960 deve ser encerrado. Temos que acabar também com essa coisa sádica na programação de falar para as pessoas o que elas não podem fazer ou o que devem fazer, ficar ditando os comportamentos dos outros. Cada um faz o que quiser. O importante é sempre divulgar todas possibilidades, em detalhes, e tentar compreender o que é mais adequado para que situação. Se um grupo de pessoas adota alguma restrição em um projeto coletivo, e a impõe através de uma hierarquia visando a melhor inter-operação das partes, bom pra eles. Não podemos ficar dentro das universidades falando em "acabar com o GOTO". Universidade é pra conhecer bem e avaliar todas possibilidades, e aconselhar sobre quando evitar ou não o tal GOTO, ou o Java, que seja...
O importante é que as tais restrições cognitivas mencionadas por Dijkstra permanecem muito pouco estudadas. O mundo da computação e programação continua sendo um bocado experimental, selvagem e confuso, em grande parte devido a um sentimento generalizado de vaidade de cada um por suas preferências. Ou talvez pelas preferencinhas do homem mais rico do mundo, e um punhado de mega-corporações.
Tem que acabar esse "contra-golpe" de programador de Java fazer careta pra GOTO e pra programa auto-modificável e o escambau, em retaliação por todos anos em que as pessoas foram obrigadas a escovar bit pra utilizar os computadores em seus serviços. Chega de trauminha, acabou a adolescência. Os programadores de "demos", vírus e outras paradas até gostam do sentimento de marginalidade, mas essa infantilidade tem que acabar, pelo menos dentro das universidades.
