2008/05/09


Sobre ciência e capitalismo

Reprodução de um comentário / carta que fiz em resposta a um post-em-um-blog / entrevista-numa-revista. (apriveitando pra conçertar uns erinhos de portuguéz!)
***
Prezado Professor Schwartzman

Gostaria de somar minha humilde voz discente à do professor Shellar. O comentário sobre a física de partículas foi infeliz. Um ponto geral deveria permanecer assim: geral. Especificar uma área de estudos qualquer, tachando seus praticantes de fracassados inúteis, seria de mau gosto mesmo se fosse verdade -- o que está longe de ser.

Existem diversos problemas nesta afirmação. Primeiro, é um absurdo resumir a pesquisa em física de partículas à realização de seus experimentos, alguns deles notoriamente custosos. Existe muito trabalho teórico que precisa ser feito para complementá-los, o que inclui tanto análise de resultados quanto a própria concepção de novos experimentos. Algo similar ocorre, por exemplo, na astronomia, que por vez ou outra também recebe semelhantes críticas injustas. Me espanta o senhor não ter inclusive criticado também esta área, ou mesmo criticado diretamente o estudo de matemática pura.

Como engenheiro eletricista especializado em computação, garanto ao senhor que os trabalhos realizados na área de física de partículas, e outras, estimulam sim o desenvolvimento da própria computação, como foi com a citada criação da WWW. Também podemos mencionar atualmente o projeto de computação distribuída sendo desenvolvido para atender ao LHC. Este e outros projetos por vezes bem menores podem e são freqüentemente aproveitados em outras áreas. E como disse o professor Shellar, esta sinergia não ocorre apenas com a computação.

Este desconhecimento da profundidade e extensão dos estudos tanto em física de partículas quanto em outras áreas deve ser fortemente combatido. Vimos recentemente uma lamentável campanha de difamação do programa espacial brasileiro, por exemplo. Me pergunto até que ponto todas estas críticas pseudo-científicas são apenas levemente influenciadas, se correlacionando com interesses políticos antagônicos, ou se são decorrências diretas, causadas não só com altíssimo índice de correlação linear mas dependência funcional completa e determinística.

Questiono veementemente todo esse desejo em transformar as universidades em produtores de patentes e em consultores de indústrias. Isto não quer dizer que prego algo diametralmente oposto, apoio sim que hajam interações, acoplamentos, correlações e causações mútuas. Mas é errado ter na produção industrial, ou mesmo nesta chamada "produção intelectual" -- lamentável invenção do mundo moderno, transformando o conhecimento em commodity -- um fim prioritário da atividade científica. Descobertas científicas não são sacos de farinha.

O mundo das patentes é recheado de pesquisas fúteis. Numerosas são as patentes que não trazem nada de novo. Isto inclui famosamente a indústria farmacêutica. Esta, aliás, merece nossa atenção aqui primeiro porque é muito comum ver um cientista, quando questionado sobre sua atividade, acabar precisando recorrer à criação de remédios para se justificar a contento. Saúde e longevidade são uma espécie de remédio infalível para justificar qualquer coisa. Se contribui para medicina, então algo é visto como bom, se não contribui, dispensável. Isto é lamentável...

A multi-bilionária indústria farmacêutica raramente produz novos conhecimentos científicos relevantes. A interação da indústria com o meio acadêmico também freqüentemente provoca desastres, como pesquisas fraudulentas e desperdício de recursos, sempre devido ao sentimento do "tudo pela patente". Mais do que isto, patentes são um instrumento extremamente mal-utilizado. Elas devem servir é para proteger o inventor, e permitir que este negocie com as indústrias, mas são utilizadas como instrumento para a apropriação de conhecimentos que poderiam perfeitamente, e deveriam ser tornados públicos. São vários os casos de tecnologias inovadoras que caem vítimas de patentes que as engessam, numa ominosa forma de especulação intelectual.

O verdadeiro espírito científico inclui o desejo em divulgar descobertas da forma mais ampla e rápida o possível. Era o espírito de Santos Dumont, que compartilhava suas descobertas, oposto ao dos controversos estadunidenses Wright que faziam pesquisas secretamente com intuito de "vender" (como se fosse algum tipo de mercadoria produzida como ouro, aço ou soja) conhecimentos aos militares para que estes os convertessem em instrumentos do imperialismo e opressão. Esta é a epítome da contraposição entre o que geralmente ocorre na ciência nossa, e na dos EUA, que ainda hoje se preocupa excessivamente em ajudar às forças armadas daquele país, e a "se dar bem" em geral. Isto se vê até mesmo na usualmente "liberal" Berkeley, que recentemente tem me surpreendido muito ao começar a colecionar decepções minhas -- não que isto tenha relevância ao universo. A correlação deste com minhas opiniões não é "estatisticamente significativa".

Termino citando um famoso parágrafo de Henri Poincaré de que gosto muito, do livro O Valor da Ciência:



La recherche de la vérité doit être le but de notre activité; c'est la seule fin qui soit digne d'elle. Sans doute nous devons d'abord nous efforcer de soulager les souffrances humaines, mais pourquoi? Ne pas souffrir, c'est un idéal négatif et qui serait plus sûrement atteint par l'anéantissement du monde. Si nous voulons de plus en plus affranchir l'homme des soucis matériels, c'est pour qu'il puisse employer sa liberté reconquise à l'étude et à la contemplation de la vérité.

A busca da verdade deve ser o objetivo de nossa atividade; é o único fim digno dela. Não há dúvida de que devemos nos esforçar por aliviar os sofrimentos humanos, mas por quê? Não sofrer é um ideal negativo que seria atingido mais seguramente com o aniquilamento do mundo. Se cada vez mais queremos libertar o homem das preocupações materiais, é para que ele possa empregar no estudo e na contemplação da verdade sua liberdade reconquistada.



Me perdoe se soei agressivo em algum ponto. Careci de tempo para apurar a qualidade desta carta. Pretendo apenas estimular um debate construtivo a respeito destas questões que muito me concernem... O que mais me preocupa é que nesta crise que se está detectando no ensino de disciplinas técnicas no Brasil, tenhamos que passar por esta dificuldade em justificá-las, quando ainda por cima já é tão difícil justificar por exemplo um bom número de disciplinas das ciências humanas, como a história, filosofia e literatura que tanto estimo.


Dedetizado pelo sistema

Outro dia aprendi duas coisas, e vi uma similaridade, talvez devido apenas à simultaneidade.

Lendo sobre o julgamento de Sócrates, aprendi sobre seu papel de espora/mutuca da sociedade. Parece que a palavra grega tinha ambos sentidos... Mutuca é certamente mais engraçado, e interessante por permitir uma alegoria zoológica: Sócrates é o insetinho inconveniente, pinicando o cavalo ou boi da sociedade. O texto abaixo, da Apologia de Platão (seção 30e?) é que traz esta imagem, e explica a função, senão missão que Sócrates clamava ter.

Pois se vocês me matarem, você não vão facilmente encontrar outro cidadão como eu, ligado a esta cidade -- a comparação pode parecer ridícula -- como a um cavalo poderoso e gentil, um pouco desajeitado devido a seu próprio tamanho, e precisando ser incitado pelo ferrão de uma mutuca; assim me parece ter a divindade me unido, sendo eu assim como sou, a esta cidade, para que eu possa instigar vocês, e persuadir e reprovar cada um de vocês, sem lhes dar sossego em momento ou lugar algum.

(tradução colada de pedaços de outras línguas)

Ao mesmo tempo, ando ouvindo com certa freqüência a Nirvana, principalmente o primeiro disco, Bleach. Pra quem não conhece (botei até link pra wikipédia, este é um post dedicado às novas gerações!), o Kurt Cobain fazia umas letras muito malucas. Na música Negative Creep, ele diz:

This is out of our range (x3)
and grown
This is getting to be (x3)
drone!
I'm a negative creep (x3)
and I'm stoned!
I'm a negative creep (x3)
and Iiiaaaarrrgh! (2x)

Não sei se jamais vou descobrir o que podem significar cada palavra e verso das músicas do Kurt, muito menos se ele queria dizer algo específico nelas. Mas uma coisa podemos saber com certeza: a palavra drone significa, entre outras coisas, um "zangão"!...

O zangão, todos devem saber, é o macho da abelha. Ele não tem ferrão, não faz mel, não constrói nada, não fabrica nada, só passa o dia comendo e dormindo, e eventualmente acasalando com a abelha-rainha.

Não consegui descobrir nenhum uso da palavra como alguma gíria bizarra, parece apenas que é frequentemente utilizado pra especificar um "parasita", uma pessoa numa sociedade que só fica rondando por ali, sem fazer nada de útil, sugando recursos, e eventualmente modificando irreversivelmente o status de meninice de outros indivíduos fêmeas.

Será que podemos atribuir ao Kurt esse papel? Talvez essa música fale sobre isso, ele está talvez falando sobre estar ligado à sua cidade desta forma atribuída por uma divindade.

Estas duas visões destes dois grandes heróis como insetos inconvenientes me lembrou imediatamente da idéia de autopoiese, de Maturana e Varela. É um assunto meio complicado, mas é basicamente um sistema que se encontra num estado tal que ele é capaz de replicar esta própria organização em que ele se encontra para tal.

O conceito começou pra ajudar a pensar sobre sistemas biológicos, mas foi facilmente reaproveitado em diversos outros contextos. Um dos livros que os dois escreveram sobre o assunto foi bem na época que tavam rolando uns movimentos socialistas no Chile (época do Allende), teve uma tal invasão numa universidade lá, em que mudaram altas estruturas de poder. Nesse livro o Maturana escreve umas considerações que ele não pôde ser furtar de fazer, sobre transformações sociais e autopoiese... uma coisa que ele escreve é sobre indivíduos que se desligam da sociedade, no processo de causar uma revolução, e ele fala sobre como este indivíduo elimina suas dependências da sociedade, ea sociedade dele (desligam-se as tais autopoieses lá um do outro).

São insetos inconvenientes, saindo do enxame para espetar o mesmo, agora transformado em massa contínua e disforme do lado de fora.

***
Consegui ainda ver o inseto contestador da sociedade agora numa música do CCR, a segunda do segundo disco: Bootleg, Bayou Country. Provavelmente a música mais nasty do mundo, porque faz uma análise fria da psique humana, insinuando haver algo de inerentemente prazeroso em se violar leis, e ainda que seguindo-as, às vezes até se perde a graça.

Chorus:
Bootleg, bootleg;
Bootleg, howl.
Bootleg, bootleg;
Bootleg, howl.

Take you a glass of water
Make it against the law.
See how good the water tastes
When you can’t have any at all.

Chorus

Findin’ a natural woman,
Like honey to a bee.
But you don’t buzz the flower.
When you know the honey’s free.

Chorus

Suzy maybe give you some cherry pie,
But lord, that ain’t no fun.
Better you grab it when she ain’t lookin’
’cause you know you’d rather have it on the run.

Chorus

Pegue um copo d'água
Torne-o contra a lei.
Veja como fica bom o gosto
quando você não pode ter nem uma gota.


A estrofe de interesse é obviamente apenas a segunda, cuja tradução já se torna impeditivamente ridícula. Mas tem tudo a ver com a geração web 2.0, pq fala em BUZZZZ!...

2008/05/08


A boca para estas orelhas

Sempre ouço me dizerem que tudo que escrevo é muito comprido e chato. Eu sei, eu sei... É que nem sempre tenho tempo de fazê-lo mais curto (vocês devem reconhecer que roubei isto da Carta Provençal número XVI de Pascal

Je n'ai fait celle-ci plus longue que parceque je n'ai pas eu le loisir de la faire plus courte

). Também é meio de propósito, porque acredito que blogs tem que ser sim meio "diários". É a parte da invasão de privacidade, importante elemento dos meios de comunicação internéticos (o que pode sim ser evitado, mas por algum motivo louco se tornou algo importante, e eu sigo a onda).

Não tenho intenção de escrever um jornal popular, tanto porque não é a estética que estou buscando, quando porque dá mais trabalho mesmo. Quero que meus textos sejam um pouco como aqueles cadernos de malucos de filmes, tipo o matemático do Proof, e o mocinho do Se7en. De mais a mais, meus temas dificilmente atraem espectadores, não sei quanto a qualidade dos textos modificaria isso... Me daria até mais pena ver textos mais caprichados sendo igualmente ignorados.

De qualquer forma, tantas são as sugestões que estou querendo aceitar o desafio de tentar escrever algo que possa ser lido pela "geração vídeo-clipe". Duvido que faça qualquer diferença na minha vida ou na de outras pessoas, mas vou começar a fazer uns artigos curtos com coisas interessantes sobre as quais até gostaria de escrever prolongadamente, mas não vou. Vou tentar manter um tag com algum nome criativo que ainda não criei. O resultado, aposto, é que ninguém vai entender cossa nenhuma, e vai jogar o produto literário no lixo com mais facilidade, devido à massa diminuta.

***

O que me dá raiva é que muito se fala das novas gerações se entregarem apenas a coisas curtas e superficiais, se comunicarem apenas por curtas mensagens SMS muito pouco elaboradas, ver filmes curtos e ler livros com figuras. Eu tou tentando justamente cultivar um hábito de escrever coisas maiores, mostrando que pode haver literatura "comprida" (não necessariamente profunda) na Internet. Quero contrariar todos que dizem "ah, blogs são uma porcaria, o fim dos tempos. Olha só, são apenas textos curtinhos". O meu não. E não é contrariando de birra não, eu escrevo prolongadamente é porque me dá uma vontade sincera. Eu escrevo pra "tirar de dentro de mim" o conteúdo, e me incomoda se eu não o faço. Mas é claro que se isto incomoda meus vizinhos eu tenho que repensar o hábito.

A vontade de contrariar a estética da "geração vídeo-clipe" tem ainda a ver com minha admiração por coisas do passado... Tem um punhado de escritores dos séculos XVI (olha o xvi aí de novo, ele me persegue) pra frente de quem eu gosto muito, e eu tento fingir que fui "influenciado" por eles.

Eu gosto tanto disso que outro dia estava numa conversa com uma persona non-identificatta, e me perguntaram se eu havia lido algum certo livro moderno, da moda, e eu respondi: Nem... Não leio esses livros modernos assim não, eu sou hum homem do século dezenove... (eu tinha acabado de falar sobre meu gosto por Dostoievski e Nietzsche)

Aí a pessoa, mais jovem, me fala: Nossa, como assim? Eu sou lá do século trinta.

Porra, como alguém tem coragem de falar algo assim pro aquariano de plantão aqui? Tenha dó. Desde então, quando eu falo comigo mesmo, eu me referencio à pessoa como "o Buck Rogers", o homem do século XXV. É bem coisa de jovens delargeanos mesmo, dispensar o passado como algo fútil, ultrapassado, inútil, infértil, estéril. O futuro não, é maravilhoso, industrial, pra-frentex, com sociedades reformadas de acordo com princípios lógicos irrefutáveis... E a guerra é a higiene do mundo, etc. (justiça seja feita, jovens delargeanos de fato, e mais maduros, aprendem a apreciar seus iguais no passado e no futuro)

Vamos ver se consigo me tornar uma boca para estas orelhas!...

***

Als Zarathustra diese Worte gesprochen hatte, sahe er wieder das Volk
an und schwieg. "Da stehen sie", sprach er zu seinem Herzen, "da
lachen sie: sie verstehen mich nicht, ich bin nicht der Mund für diese
Ohren.

Muss man ihnen erst die Ohren zerschlagen, dass sie lernen, mit den
Augen hören. Muss man rasseln gleich Pauken und Busspredigern? Oder
glauben sie nur dem Stammelnden?

Quando Zaratustra pronunciou estas palavras, olhou para o povo novamente, e calou-se. “Ali eles permanecem — lhe disse seu coração. — ficam ali rindo: eles não me compreendem; Eu não sou a boca para estas orelhas.

É preciso que alguém primeiro esmague estas orelhas, para que aprendam a ouvir com os olhos? É preciso atroar à maneira de timbales ou de pregadores de Quaresma? Ou só acreditarão nos entarameladores?


(mais ou menos minha tradução, roubando coisas de uns, e colocando umas palavras engraçadas)

2008/05/06


O SESC é que é anti-eu

Dizem que o SESC está correndo o risco do governo federal "fechar a torneirinha", meter a mão no dinheiro deles. É algo deveras absurdom considerando que o SESC é muito bom, seja lá qual for o destino pra onde o governo que remanejar o tutu. Mas me incomodou profundamente, melhor, me deixou ofendido e ultrajado as afirmações do presidente do SESC no final de sua carta aberta:

Esse patrimônio não pode ser sacrificado no altar de prioridades transitórias, em nome das quais se engendra um prejuízo incalculável ao país.

Tornar a Educação meramente técnica, burocrática e pragmática, dissociando-a do universo simbólico, subjetivo, crítico e criativo, cerne da Ação Cultural, é um evidente retrocesso, fruto de visão flagrantemente obscurantista.
Certo de que compreenderão a gravidade dessa perspectiva, escrevo a vocês, formadores de opinião, representantes de classes, artistas, pensadores, amigos e parceiros do SESC para que se manifestem, pelos meios ao seu alcance, em prol da continuidade de nosso trabalho. Um projeto que, afinal, construímos juntos.


Quer dizer que educação técnica é uma coisa "dissociada do universo subjetivo, crítico e CRIATIVO"?? Todo cientista, físico, programador e engenheiro é um robozão boçal, sem livre-arbítrio, sem coração? Vão pro inferno.

Li outro dia aí, e imagino qu eseja verdade por minha esperiência pessoal, que este país possui uma das maiores proporções de alunos de áreas não-ténicas ("subjetivas") comparado às áreas técnicas. Dizem que estamos em falta de engenheiros. Naõ digo que todos países precisam ser iguais, claro que pode haver uma tendênci ano brasil a se formarem sociólogos e publicitários, mas será que não precisa ter um limite?

A questão é bem que se suspeita estarmos acima do limite. Carecemos de técnicos. Aí o governo quer dar uma mãozinha, e esses patetas vem falar que isso é alguma forma de totalitarismo? Vem falar que o governo incentivar o estudo técnico é nazismo? Nas palavras do meu sociólogo favorito (FHC): "Ooora, tenha paciência!!"

As atividades técnicas exercitam a subjetividade, em especial obrigando as pessoas a encararam coisas que geralmente não são do seu "dia-a-dia" (eu até acho que nas verdadeiras e profundas ciência humanas isto tb é verdade, mas não é nisso que eles consideram que é o ensino subjetivo etc). Atividades técnicas REQUEREM senso crítico, REQUEREM que as pessoas saibam arguemntar sozinhas, criticar injustiças, reconehcer profissionalismo, etc. Criatividade eu nem comento. Um tpecnico sem criatividade é um boçal, mas gente sem criatividade não é exclusividade do meio técnico.

Não sei se o governo está de alguma forma querendo beneficiar APENAS ensino técnico de má qualidade, um conceito absurdo. Posso entender que haja algo a mais nessa história toda que não estou sabendo, mas essa arguemntação que o SESC representa o "ensino humano", e não pode ser prejudicado em benefício de um ensino inumano antagonista é de enojar.

Agora fiquei até com tanta raiva que vou começar a cobrar: Porque o SESC não patrocina umas atividades técniacs lá de vez em quando?

Pode começar com cursos técnicos de iluminação de palco, áudio, administração de bandas de rock, edição de vídeo, produção de cinema, efeitos especiais...


Tenho um símbolo pra vocês interpretarem no seu universo simbólico subjetivo semântico aqui, ó:

2008/05/03


Mails, casts, streams e discos de falecidos

Eu ouço os programas de rádio apresentados pelo Emmanuel Goldstein, o editor da publicação hacker trimestral 2600. Outro dia mandei um e-mail falando de vários assuntos, inclusive perguntando sobre uma música que ele tocou noutro programa (Human Barcoding, do recém-falecido Mikey Dread), e ele acabou lendo!!!

Foi engraçado porque ele leu no programa de rádio que é transmitido normalmente por rádio, e ainda por streaming pela Internet, mas eu mesmo só fui ouvir quando peguei o podcast uns dois dias depois!... (Muito louco isso, pensar em todas diferentes formas com que pessoas acabam contactando umas as outras, às vezes em "tempo real", às vezes bem tardiamente, às vezes com resposta direta, às veze sindireta, às vezes sem... Nesse causo aqui rolou um monte de meios de comunicação diferentes!!!)

Quem quiser ouvir, foi nesse show aqui, lá pros 16 minutos. Era uma carta relativamente grande, e ele leu pra valer, deu até uma interpretada... Achei super legal!! :_)

2008/05/01


Navegação orientada por marcos

A vida é um caos mutante insondável. Tudo é contingente, e as vicissitudes são infindáveis.

A existência física é ainda uma eterna viagem no tempo. Estamos a todo momento efetivamente viajando no tempo, para o futuro. Uma inexorável viagem por um único trajeto e para um único destino, durante a qual continuamente nos perguntamos: "e se tivéssemos virado à esquerda ali atrás?", e "será que essa rua é sem saída?".

Quando morreu o Arthur Clarke senti algo que jamais havia antes, mas aquele poema do Kipling, que ele sabiamente citou e eu fiz questão de traduzir, me ajudou a passar por isso. Me fez ver melhor que às vezes a gente dá mais valor pro que a gente não tem, especulando sobre coisas que pessoas falecidas poderiam ter feito, do que apreciando o que elas fizeram, o que deixaram.

Nietzche, por exemplo, morreu antes de desenvolver direito o conceito de "eterno retorno", do qual eu tenho uma certa interpretação pessoal... Envolve um pouco uma idéia de que as coisas vão mudando, mas tem coisas que vão ser sempre as mesmas, tipo, a história vai se repetir fatalmente. Eu vejo não como uma repetição determinística, inambígua, absoluta e simplória, mas apenas como uma repetição num sistema caótico, que está fadado a se repetir simplesmente porque o número de alternativas é limitado...

Mas o lance é que existem sim coisas que não mudam, além dessas daí. São justamente livros antigos, como os que Nietzche deixou até 1900, e os que Clarke deixou até 2008... E são músicas, quadros, esculturas, e podcasts e seriados de TV.

...No LOST está rolando um lance duma tecnologia lá que permite viajar no tempo, pra isso você precisa ter uma tal "constante", uma coisa que você precisa entrar em contado nos diferentes pontos do espaço-tempo, senão você ENLOUQUECE...

(atenção metaforofóbicos: contem metafolanina)
Só neste momento é que comecei a ver nisso uma bela metáfora da nossa própria viagem no tempo involuntária e unidirecional... Sem umas constantes você fica louco.

Você pode estar num lugar, ir pra outro, ser uma coisa e virar outra. Sofrer todas metamorfoses físicas e mentais, mas o sutil vibrato e batimentos daquele arpeggio levemente distorcido de Born on the Bayou, do Creedence Clearwater Revival, capturado em suas maravilhosas gravações, vai ser sempre o mesmo. Vai tar lá igualzinho, mesmo depois que a sua vida tiver se transformado completamente. Aquele timbre indescritível estará sempre lá pra te embasbacar de novo... (E agora com a pirataria em larga escala pela Internet, com mais certeza ainda.)

Talvez seja sorte a nossa que as melhores coisas da vida (CCR facilmente entre as 10 primeiras) sejam imutáveis. Talvez seja o contrário, a gente gosta delas porque não é trouxa, e escolhe coisas que não se podem perder facilmente... Mas eu acho que não, é sorte mesmo. E sorte que freqüentemente desprezamos, tendo às vezes a ilusão de que estas coisas seriam meros luxos passageiros desprezíveis, e que importante mesmo seriam títulos nobiliárquicos, contratos, promessas, compromissos e outras atrocidades antrópicas.

Da próxima vez que você encontrar um engenheiro eletricista, dê um abraço nele, e agradeça-o entusiasticamente por ter desenvolvido estas técnicas capazes de imortalizar aqueles preciosos sinais produzidos 39 anos atrás, e permitindo-os ainda hoje transformar o planeta todo num infinito, eterno, constante e imutável bayou dionisíaco.

(Um "báyaco"? Bayou cannal??)

Num mundo caótico incerto e desconhecido, nada melhor do que poder dar de novo um repeat numa seqüência de números inteiros. Revisitar um bom sistema determinístico, linear e invariante no tempo...

2008/04/27


Abduzidos pelo sistema

Tou aqui estudando lógica. Já aprendi por exemplo que uma falácia é um raciocínio aparentemente fundamentado na lógica mais rigorosa e inquestionável, mas que “na verdade”, é mentira.

Métodos de dedução lógica clássicos incluem por exemplo o modus ponens, que permite dizer que se a implica em b, ou se b é condição necessária para a, e se verificamos que a é verdadeiro, então podemos deduzir b. Outra regra de inferência lógica famosa é o silogismo, que permite dizer que se um grupo é subgrupo de outro, e se alguém pertence ao subgrupo, então ele também pertence ao grupo maior... São pequenas coisas aparentemente tolas, mas que ajudam a construir o edifício da ciência.

Existem falácias famosas, catalogadas bem como as regras lógicas válidas. Uma falácia muitíssimo comum é, dado uma regra de causação, e verificando-se o conseqüente, tentar daí inferir o antecedente. Por exemplo, suponha por hipótese que “Todos homossexuais gostam de The Smiths. O Daniel gosta de The Smiths. Logo, ele deve ser homossexual.” Ora, isto é uma falácia! É uma afirmação do conseqüente. Afirmar o conseqüente não significa absolutamente nada. Apenas a negação do conseqüente é que permite inferir a negação do antecedente... Mas a recíproca de uma implicação nem sempre é verdadeira. a -> b não significa que b -> a.

Pois bem, o problema é que no nosso dia-a-dia a gente até que faz bastante isso. Existem mecanismos de pensamento humano que cometem estas falácias, e isto nos permite levantar hipóteses que podemos manter “até que se prove o contrário”... É importante tentar fazer esse tipo de coisa
em sistemas de inteligência artificial, é basicamente “dotar o computador de imaginação”. Se vc é daqueles que acham que um computador é todo certinho, incapaz de errar, você nunca ouviu falar em lógicas não-monotonicas!...

Uma lógica não-monotônica é justamente uma lógica em que você pode inferir coisas que eventualmente vai descobrir serem falsas dada mais informação. Ela é diferente da monotônica que seria extremamente “conservadora”, incapaz de eventualmente dizer algo que se poderia descobrir ser falso.

O que estou achando engraçado aqui é que acabei de descobrir que um dos vários filósofos que estudaram a questão foi Charles Peirce. Uma figura estranha. Parece que eram um sujeito bacana sim, mas eu sinto às vezes que é um daqueles pensadores americanos que os próprios gostam de ficar exaltando pra mostrar como que “na colônia” também se pode fazer ciência e filosofia. Praticamente um Irmão Wright da lógica.

O que eu acho engraçado no tratamento que Peirce deu pra questão, ou pelo menos na forma como isto é ensinado por aí, é que me dá uma impressão assim que ele teria tentado formalizar o “pensamento prático anglo-saxão”.

Meu leitores sabem que estou tentando criar uma teoria sobre um certo tipo de cultura que identifico como sendo o pensamento mais comum do povo dos estazunidos, e os saxões em geral. Uma coisa que se ouve muito é que eles são “muito práticos”, não perdem tempo como picuinhas, e preocupações bestas como, por exemplo, lógicas monotônicas. Isto causaria, por exemplo, algo que mencionei noutro artigo: uma necessidade se poder fazer uma análise estatística de dados e poder dizer assim, sem sombra de duvida, que uma certa hipótese É verdadeira... Poder fazer um teste de “significância estatística” e, PÁ, daí poder já ignorar o processo de análise anterior e poder falar numa boa como se fosse uma verdade garantida. Essa mesma vontade louca de poder afirmar conclusões certas e absolutas de análises probabilísticas, o que é um absurdo, me parece estar relacionada com esse desejo que querer dar mais valor e credibilidade a falácias aparentemente inocentes, como a afirmação do conseqüente!...

Peirce até inventou um nome novo pra isso: “abdução”... (Nada mais importante pra tentar dar credibilidade a alguma coisa famosamente rejeitada, od que invetar um nome novo, hein!... Não que eu esteja afirmando que seja isso que está acontecendo... Não necessariamente.) Eu concordo que é interessante, concordo que a mente humana funciona assim, e que nenhum sistema de IA vai muito pra frente sem esse tipo de coisa. Mas por algum motivo, talvez seja até puro preconceito meu, quando leio sobre o assunto pensando em americanos discutindo essa questão, me dá uma impressão de que eles olham isso com outros olhos. De que eles pensam assim: “é perfeitamente aceitável afirmar o conseqüente!...” “Vejam só essa tal lógica monotônica, até onde ela nos levou? Precisamos de mais do que isso!...” “Vamos ser práticos!...”

Sejam práticos amigos!... Divirtam-se! Mas pra lá dos rios Grande, Reno e Danúbio, por favor. Isso, obrigado...

2008/04/26


Ensuiçando o espresso italiano

Café, todos meus leitos mais assíduos tem que saber, é uma bebida cujo consumo e produção começaram ali no mundo árabe, ao sul do Mar Vermelho. De lá tomou o mundo. A produção do café hoje se concentra, além do Brasil, no sudeste da ásia, principalmente Vietnã. Já o consumo, se concentra na Europa e nos Stazunis. Esse café do Vietnã é quase apenas o tal coffea canephora, que é um cafezinho meia-boca, mais barato e portanto apropriado pra comprar em grandes quantidades, e misturar em coisas como cafés solúveis fajutos, bolos e chocolates... Aqui e em outros lugares eles chamam de café “conilon”. O café “de verdade” é o coffea arabica.

Justamente porque fiquei sabendo outro dia desses dois tipos de café, venho então prestando atenção no tipo e procedência de cafés por aí... Aí quando ouvi falar do tal Nespresso, que abriu um aqui em São Paulo, lembrei disso na hora, porque um dos maiores compradores de café conilon é justamente a Nestlé.

O Nespresso está com uma campanha de marketing daquele tipo maaais picareta, tou adorando!! E uma coisa que eles falam muito é sobre como que eles trabalham com grãos “selecionadíssimos”, “exclusívíssimos”, e o mais importante, trazidos “dos mais tradicionais produtores de café”.

Exemplo de frase do marketing deles, tirado desse site:

Nespresso is not just coffee. It is another dimension in the world of coffees.


Outro exemplo interessante, daqui:
A rede suissa de cafés de luxo Nespresso, chegou ao Brasil trazendo um novo conceito em cafés.


Então formei imediatamente na minha cabeça uma idéia de que no cardápio deles teria assim, dividido por procedência: “Café da Etiópia”, “Café com mofo da Colômbia”, “Cafézes dos gatinhos da Indonésia”... Qual o que. Chega lá, tem lá as variedades, e tem escrito em todos lugares que os cafés vêm “dos mais diversos exclusivos e tradicionais produtores”. Mas só o café “exclusivo da temporada” é que eles dizem que vem de Papua Nova Guiné (aquele país que divide com a Indonésia uma das ilhazinhas ao norte da Austrália). O resto não se diz de onde é não!!... Cheguei lá achando que ia fazer piada falando “Quero um café de Minas Gerais, por fazvor”, ou que ia experimentar o famoso café colombiano que nunca tomei, mas nada. Tomei lá um café com um nome italiano bizarro metido qualquer, sem qualquer pista de ser um café brasileiro, tailandês, ou mesmo de talvez ser um café conilon vietnamita!!

Cheguei achando que fosse só teoria da conspiração que talvez quem sabe pudesse haver uma graminha de café conilon ali, e que se tratasse mais de prezepadas de marketing do que realmente produtos gourmet de alta qualidade. Achei que me fossem provar se tratar mesmo de estarem buscando cafés específicos em diferentes remotas terras, cuidando de pequenos produtores locais, como se fossem um shopping center de vinhos finos... Mas não vi nada que me comprovasse isso lá.

Se me perguntarem, o esquema lá é o seguinte: eles preparam um café que não tem nada de especial. uns 50% de café do cerrado e 50% de café do Vietnã. Variam uns 3 parâmetros da fórmula (torrefação, e concentrações de sei lá que substâncias flavorizantes (naturais)) pra gerar as variedades, e colam em cima um texto de marketing maravilhoso, fazendo vc pensar em Roma, Etiópia, na colonização da África, no Reich de mil anos e no white man's burden e sei lá mais o que. Aí vc fica emocionado, e adora aquele cafézinho ali.

Café aliás que não é ruim não, é bem bom!... Gostei sim. Mas fiquei decepcionado achando que fosse realmente ter diferentes opções de procedências e tipos de café... Minha suspeita é de que os cafés “exclusivos” são os únicos que realmente tem algo de mais especializado. Mas tem que ser só um de cada vez, por bastante tempo, pra ser lucrativo pra indústria. O resto é o bom e velho cafeão nosso de cada dia, que vende aí no super mercado.

Quanto ao processo deles, é mesmo bem interessante. E eles falam disos o tempo todo, aliás. Um folheto diz assim:
Máquinas criadas em torno de um processo exclusivo.

Aliás, fato essencial pra lucratividade: manter essa exclusividade ali... Mas não é exatametne um monopólio, então não dá pra criticar muito né.

O café vem moído na tal cápsula de alumínio. Vem com o próprio ar de Papua Nova Guiné guardado ali dentro! É uma embalagem hermeticamente fechada, tipo uma latinha de Pringles. A propósito aquele site ali em cima diz erroneamente que elas são “lacradas a vácuo”, o que não é acurado. Devem ter confundidos com aqueles cafés moídos de pacotinho que parecem uns tijolinhos, que são de fato embalado a vácuo, e fazem até "pssss" quando vc abre.

O café do Nespresso é preparado na própria embalagem. A máquina fura ela, injeta a água quente e pressurizada, e o café sai por uns buracos feitos na parte de baixo da cápsula, a mais molinha. Bacana, interessante, engenhoso!... Fácil de guardar, e ideal para solteiros iúpes ricos que não consomem grandes quantidades. Mas o mais legal disso aí é explorar o conceito poke-bola! Criar o lance de colecionar os potinhos, poder trocar cafezinnhos com seus amigos, guardar as tais coleções exclusivas da Nova Guiné... (Aliás, não é engraçado que eles se esforcem pra buscar café da Nova Guiné, que fica do lado do terceiro maior produtor de café do mundo? Qual a chance da Nestlé estar levando café da Indonésia pra Nova Guiné, por exemplo, se esforçando o mínimo possível em lidar com a própria Nova Guiné, só o suficiente pra poder mencionar este exótico país nos anúncios?... Só quero da ruma idéia do tipo de negociata falcatrueira que pode estar havendo por trás dos doilys de papel aí, e agente nem tem noção. )

Na verdade o que essa parada das “cápsulas” me lembrou mesmo foi de papelote de drogas ilícitas!!... Imagina só: é uma dose do seu estimulante embrulhadinho, preparado pra vc levar pra usar no escritório ou em casa... Só falta algum dia venderem o café em forma de cristal, por exemplo!!...

E ainda tem um lance de entrar no “clube grão-cú” pra participar de sei lá que promoções exclusivas... Tinha um cliente q vi lá comprando sei lá o que respondeu prontamente a uma funcionária, “já sou cadastrado”!... Parece que a moda está pegando pra valer!... Só espero que meus temores de ser um engodo midiático não se verifiquem...

Resumindo, é bom, e tals. Mas a propaganda e o climinha descolado me irritaram. Achei um tiquinho pretensioso, mas faz parte. É carozinho, mas depois de pagar 5 paus pra me decepcionar no Maksoud, não achei tão ruim.

2008/04/24


Estatística... Pois é!

Fenômenos probabilíticos, aleatórios, estocásticos, contingentes e incertos permeiam nossas vidas. No entanto, poucos dominam a contento a gentil arte do estudo da estatística.

As pessoas querem a todo custo poder tirar conclusões "certas" de dados incertos. Um testemunho disto é o popular conceito de "significância". Análises só são ditas cientificamente corretas se atenderem um certo conceito de "significância estatística", que seria algo geral, concordado por todos. Em geral esta atitude oculta o fato de que é sempre possível que um pesquisador tenha tido AZAR, ou SORTE, e encontrado uma tendência que não existiria em uma amostragem maior. digo, uma tendência cuja probabilidade de ser detectada numa amostragem maior seria ainda menor...

Enfim, eu só queria comentar uma coisa interessante. Tem um tipo de variável aleatória muito importante que é aquela estudada por Jacob Bernoulli (1654–1705). É aquela em que há uma probabilidade p de se detectar um certo evento, e uma (1-p) do contrário. Uma moeda tem p=0,5 Um revolver com uma bala em uma roleta russa tem p=1/6=0,166667.

Um jeito de tentar medir o valor de p é simplesmente contar quantos eventos são detectados numa amostragem maior, por exemplo, na minha turma de engenharia elétrica, no começo do ano tínhamos algo como 50 alunos, sendo apenas 4 mulheres. Daí podemos estimar que p=4/50=0,08. Ou seja, "oito por cento" dos alunos da engenharia elétrica são mulheres. Se imaginássemos por exemplo uns 54321 alunos, deveríamos ter então umas 4345.7 alunas...

Conforme aumenta a quantidade de "testes" feitos, mais a distribuição da probabilidade se aproxima de uma gaussiana. Portanto, esses 4345.7 seriam praticamente o centro duma gaussiana, caso quiséssemos dar uma olhada nas probabilidades de termos 5000 alunas, ou de termos no mínimo 3000 alunas... Tudo isso é calculável uma vez que se tenha p.

Agora, uma coisa interessante é que no dia-a-dia o entendimento do processo de Bernoulli se dé meio assim: se eu digo que temos p=0,043, a rede Grobro diz lá que de cada mil, teremos lá 43 sujeitos de interesse. Aí corrigem: "provavelmente uns 43"... Aí corrigem mais: "mais ou menos uns 43"... E nem tem problema, porque 43 é de fato o número mais provável.

Agora, eu acho engraçado quando ao invés de darmos números quebrados, ou porcentagens, damos uma fração com numerador 1, o que é simplesmente um arredondamento do inverso de p. Por exemplo, para p=4/50 temos 1/(50/4)=1/25,5, aí arredondamos, e diremos que "para cada doze alunos de engenharia elétrica, um será um engenheiro fêmea".

É relativamente comum ouvir essa resposta. Alguém dá um número lá "3/69", e alguém esperto calcula: "ah, quer dizer que teremos um desses em cada 23 casos...". É bem gráfico isso, aquele um sujeito diferente lá em meio aos outros. Deixa a noção da proporção bem clara... Ainda mais com números menores, tipo "um em oito", "um em cada três"...

Me interessou de repente esse tipo de afirmação: A probabilidade de um em n dado p=1/n. Quer dizer, me interessou testar essa afirmação usual: O quanto provável é termos REALMENTE um em n dado essa probabilidade? O quão fiel é essa imagem mental que sempre montamos??...

É meio chato calcular isso, mas eu parti pra calcular outra coisa bem próxima, e achei um resultado bem interessante!

Dado uma probabilidade p, e n amostras, a probabilidade de todas amostras serem do tipo de interesse é p^n. Por exemplo, a probabilidade de tirarmos "cara" ao lançar uma moeda 3 vezes é de 1/8. Pra 10 vezes, é de 1/1024... Prum p pequeno, esse número cai bem rápido. Por exemplo, a probabilidade de termos uma turma de 50 engenheiras fêmeas com p=4/50 é de (4/50)^50 = 1.4272e-55, deveras irrisório.

Por outro lado, a hipótese contrária de um p pequeno, que tem probabilidade (1-p), vai dominando. A probabilidade de uma turma de 50 engenheiros macho é de (46/50)^50 = 0.015466, ou seja 1,5%... Quereria dizer lá que "para cada duzentas turmas, três não tiveram mulheres!..."

Então ao invés de avaliar a probabilidade certinha do estritamente um em n, vamos calcular "ao menos um em n". Isto é simplesmente o complemento da probabilidade de não termos ninguém... E na prática, pra valores de n grandes acaba que a probabilidade que queremos calcular chega mesmo bem perto dessa. E mais, chega perto dum número muito legal!!!

Jogando então p=1/n na fórmula temos que a probabilidade de não ter nenhum caso em n amostragens é de (1-1/n)^n. É fácil sacar, porque é simplesmente n sorteiros. A fórmula exata pra precisamente um evento é mais complicadinha: n*p(1-p)^(n-1).

O gráfico disso tudo dá:


Olha só que interessante. Primeiro vamos ficar felizes: a probabilidade de nenhum evento, cuja fórmula é fácil de deduzir, se aproximou da de apenas um... Então a conclusão bacana que vamos deduzir pra nenhum evento também vale pra que buscamos inicialmente, de apenas um!...

Vamos apreciar primeiro o que acontece nos valores pequenos: para p=1, temos certeza absoluta de que obteremos 1 em cada 1, e que tem chance 0 de termos nenhum em cada 1.

Para p=0,5, temos o problema de jogar um cara ou coroa duas vezes... possibilidades são "cara cara", "coroa cara", "cara coroa" e "coroa coroa", com igual probabilidade, dando chance 1/4 de sair nada, e 1/2 de sair apenas um em dois.

Conforme a coisa aumenta, vai deixando de ser intuitivo. Ambas probabilidades se aproximam, e pra um número... Que número é esse meu deus!?

Alunos de cálculo do segundo ano já devem ter percebido. O número é o limite daquela expressão que dei ali em cima, que repito:

lim n->infinito de (1- 1/n)^n

Esse limite é manjado, difícil de provar, mas é um grande conhecido dos estudantes... Seu resultado esplendoroso é 1/e!!! Sim, o inverso da famosa constante!!... Aliás, foi o próprio Jacob quem primeiro estudou esse limite, suspeito que deve ter sido justamente fazendo esta mesma investigação que estamos fazendo agora, e eu nem tinha a menor idéia disso, por isso estou tão empolgado!... :)

Quer dizer, a constante e, ou melhor, sua inversa aparece naturalmente em nosso dia-a-dia quando consideramos a probabilidade de termos de fato "um em cinquenta e sete" de alguma coisa que costuma ocorrer nesta freqüência em média...

E aqui vão umas considerações finais:

* A probabilidade de termos um em n de uma variável aleatória com p=1/n é 1/e = 0.3678794411... E também é o valor mais provável.
* A probabilidade de não termos nenhum evento em n amostras tende a ser igual à probabilidade de termos somente um.
*A probabilidade de termos ao menos um, é 1-1/e=0.63212....
*A probabilidade de termos um ou nenhum é de uns 2/e=0.74, metade pra cada lado.

Pela estimativa ao considerar uma distribuição quase gaussiana, temos que a variância vai pra 1. Quer dizer que poderíamos afirmar com uma probabilidade de uns 95% ou por aí que vamos ter de zero a uns 4 ou 5 eventos de interesse. Mais de 6 começa a ser muito improvável, pra menos de um milésimo.

Então é isso. Da próxima vez que alguém te disser "ah, você disse probabilidade de um em cento e vinte e sete, então quer dizer que se a gente pegar 127 desses, vai ter um estragado?", vc pode responder imediatamente, com a precisão e rigor científicos de um legítimo Beurnoulli do século XVIII: "Mais ou menos isso... Pra essa quantidade, a probabilidade de termos exatamente um estragado é de aproximadamente 1/e, e a probabilidade de não termos nenhum estragado é quase a mesma. Só garanto que não vamos ter muito mais do que uns quatro."

Quer dizer, se você cai no conto de sortear n vezes, porque a probabilidade é 1/n, você tá praticamente tirando na moedinha se vai ter algum lá ou não (quer dizer, desconsiderando a boa chance de ter mais de 1). Pra fazer uma boa amostragem tem que sortear mais, e não sei te dizer em geral quanto seria.

"É" isso... Pois "é"!...


The Race Question - Wikipedia, the free encyclopedia

The Race Question - Wikipedia, the free encyclopedia

É um equívoco querer fundamentar cientificamente o princípio moral de "dignidade, igualdade e respeito mútuo entre pessoas". A moral "vem de dentro", estes princípios não dependem da inexistência "cientificamente comprovada" de raças para serem seguidos. O uso de noções científicas para argumentar a favor disso é tão questionável quanto é para argumentar a favor do pensamento contrário: da "desigualdade, e desrespeito"...

Um tempo atrás o Lula falou num debate que existem métodos científicos pra determinar a raça de uma pessoa, e eu achei ruim, mas é verdade sim. É possível inventar utilizar um método "científico" pra isso. O método se tornaria imediatamente uma definição do que é essa tal raça, que é uma coisa que realmente pode ser definido de diferentes formas.

Não querer criar definições de raças (vejam bem como é flexível, não estou dizendo que existe uma única e verdadeira definição) para que não haja discriminação racial é algo muito ingênuo. Quer dizer que havendo, aí então tudo bem discriminar? De forma alguma, temos que ser mais robustos do que isto. Temos que rejeitar a discriminação apesar de diferenças que possam ser percebidas. E se um dia descobrirmos haverem não duas raças, mas duas espécies de animais inteligentes habitando a terra? Aí então vai surgir o conceito cientificamente definido, e aí discriminações legais de espécie, "especismo", vei ter fundamento? (notem que o termo especismo já é utilizado por defensores de direitos dos animais, não é piada minha.)

A um tempo atrás saiu uma entrevista muito boa sobre o assunto na revista da FAPESP, mas infelizmente esqueci o nome do entrevistado. Foi o que finalmente me fez mudar de idéia, depois da estranheza que senti naquele debate com o Lula. A propísito, apesar de algora concordar com ele, não sou muito a favor que se utilizem quaisquer "métodos científicos de comprovação de raça" para alocar recursos educacionais... Outros critérios, talvez.

O que precisa ser discutido é o quanto queremos que diferenças raciais, definidas como for, importem nas nossas vidas. O princípio de estado igual para cidadãos desiguais é "robusto" porque não se importa com o que a ciência possa dizer.

A ciência só tem as repostas, as perguntas vem antes...

Este link pra Wikipédia fala de um documento/manifesto da UNESCO, escrito à luz sombria da WWII, que entre outras coisas questiona "cientificamente" a existência de raças humanas, e foi contestado por alguns, principalmente por Fisher.