OK, estou pegando gosto pela prática. Aqui vão algumas charadas:
aferesada:
No final do segundo tempo, o apito do juiz incomoda a multidão enfurecida. (3-2)
mesoclítica:
O animal arranhou uma letra na mão do menino. (2-1)
novíssima:
Então ostentei-me para o francês discutindo comigo, que demonstrava muito mau-humor e fumava observando a estrutura metálica. (3+1=2 2)
2008/05/24
Algumas primeiras charadas
Um enigma do subterrâneo
Eu escrevi o último post sobre charadas porque achava que tinha inventado uma hoje de manhã, mas na verdade não é uma charada daquele tipo ali de baixo não... Portanto aqui vai meu "enigma"!...
Estação Ana Rosa / Livro inglês. (7 e 7 letras)
((Explicando melhor, a resposta é alguma coisa de 7 + 7 letras que é tanto algo representado pela estação Ana Rosa, quanto pelo conceito de um livro inglês...))
(((Preciso inventar um nome pra essas charadas...)))
2008/05/23
O verdadeiro charada brasileiro
Meu avô sempre conta que "no seu tempo" tinha costume de trocar charadas com amigos de um grupo de charadistas formado no Rio em uma livraria, ou coisa que o valha, em algum momento na metade do século passado. Existiam livrinhos de charadas, e as pessoas gostavam de inventar pra propor pros outros, como ocorre com outros tipos de quebra-cabeças. Não sei se foi algo desenvolvido por alguma revista específica, ou se é algo tradicional e antigo, gostaria de descobrir!...
Não é qualquer charada, "o que é o que é", adivinhação ou coisa que o valha. Era um tipo específico de charada, que não sei se tem algum outro nome mais específico, e que não sei quando e onde se desenvolveu, mas funciona da seguinte forma: A pessoa propõe uma frase que envolve duas palavras-chave que devem ser descobertas. É um passatempo similar a outros que envolvem palavras, como palavras-cruzadas, criptogramas, rébus, etc. Um bom charadista acaba conhecendo o mesmo tipo de vocabulário dos praticantes dessas outras artes... O mesmo tipo de palavras manjadas que acabam sendo muito utilizadas porque são escritas de formas convenientes!
Um exemplo de charada:
O exército consegue até desviar um curso natural de água, tamanha é sua capacidade. 2-2
resposta: pode + rio = poderio
Esta é uma charada do tipo novíssima. "Consegue" é "pode", "curso da água" é "rio". Concatenando dá "poderio", que corresponde a "capacidade", e mais do que isso, é um conceito envolvido na frase. O 2-2 é o número de sílabas de cada palavra-chave, uma diquinha...
Charadas podem ser classificadas de acordo com o tipo de restrição impostas entre estas palavras-chave, e como é a resposta. Eu sabia dessas classificações de ouvir meu avô falar. Hoje lembrei disso tudo, e resolvi ver se encontrava na Internet algum grande portal de charadas. Só encontrei UM único site com charadas, esse aqui, por sorte um site bastante completo. Achei também uma resposta de alguém num Yahoo perguntas da vida...
Lá vai então, copiando daquele site ali do Schwalf, a lista da classificações de charadas. Não sei de onde vieram, quem inventou etc, se alguém tiver informação por favor me avise!
- sincopadas: Existe uma palavra maior, e uma menor obtida pela eliminação de algumas das sílabas da primeira. A dica é o número de sílabas da menor.
- aferesadas: Duas palavras, a menor é a primeira sem a primeira sílaba.
- casal ou dupla ou alexandrina: duas palavras de sentidos diferentes, mas que uma é a feminina da outra (ou uma é a masculina da outra, que seria feminina, você entendeu). Exemplo: "Era um objeto precioso aquele instrumento cortante", tesouro/tesoura.
- novíssimas: Existem duas palavras-chave, e um conceito que é a concatenação delas. O conceito está contido na frase, como as palavras-chave (ou talvez de forma mais implícita). A dica é o número de sílabas de cada palavra.
- mefistofélicas (nome maravilhoso): São como as novíssimas, mas a primeira sílaba da segunda palavra é a última da primeira, e são unidas por ela.
- mesoclíticas: A segunda palavra é inserida no meio da primeira para formar o conceito.
- metamorfoseadas: Uma palavra é a outra com uma letra substituída. A dica é o número de letras, e a posição da trocada. Exemplo: "A disputa mostrou o quanto ele era deselegante." 5(3) briga/brega.
E aí, quem anima de fazer uma lista de discussão de charadas? :)
***
Eu tou interessado em saber quem inventou isso tudo, porque é muito bacana, e não conheço nada parecido em outras línguas... Vou até mandar pro Douglas Hofstadter pra ver qq ele acha!
2008/05/22
São Silvestre como padroeiro dos turistas
Paulista, mais especificamente paulistano, gosta de "correr atrás". São adeptos dessa coisa de que "tem que correr atrás", e os cidadãos desta cidade são requeridos a fazê-lo todo o tempo com relação às menores coisas, e sempre requerem o mesmo de seus iguais. Herança do tempo bondes? Vá saber. Mas por aqui é assim,
"Ou, que horas são?"
"Você é mesmo um inconseqüente, por estar, a estas horas, aí sem saber quais as horas. Você acha que nós temos que fazer tudo por você? Você tem que andar com as próprias pernas, ponteiros e mostradores de sete segmentos. Você é responsável por saber as suas horas. Malditos estrangeiros, querem tudo na mão. Além do mais, isso é lá maneira de se dirigir a alguém?"
"Puxa, olha doutor, pode deixar, já consegui enxergar ali no relógio da estação de trem..."
"Há! Mas essa é boa! Você não sabe que esse relógio é atrasado, desde que suasS engrenagenS foram foi atingidaS por bólidoS disparadoS acidentalmente na revolução de 32? Ele não é um relógio, é um lembrete aos cidadães, ops, perdão, cidadãos (quase falei cidadães, imagine!) do papel que nós esperamos que cada um cumpra em nossa civilização."
Tá bom, não teve graça, e é um exagero absurdo, mas aqui rolam umas coisas assim mesmo, você tem que estar informadíssimo sobre tudo, correr atrás, não é fácil-fácil não.
Outro dia reparei que essa mentalidade existe na própria forma de fazer turismo em São Paulo!...
No Rio de Janeiro, a partir do momento que você desce do ônibus, ou talvez quando o avião já está chegando no aeroporto, você já está passando pela experiência carioca. A cidade invade seus sentidos. Você já está fazendo turismo ao percorrer o caminho de ônibus até seu hotel, e saindo pra comprar uma aspirina na farmácia. Exemplo óbvio do que estou dizendo: o cristo redentor é visível em boa parte da cidade. (Pelo menos na parte que interessa.) É engraçado às vezes, no Rio, quando você pega um ônibus e de repente ele vira em alguma avenida bonita, e você passa ao lado de uma porção de lugares interessante, que vão te distraindo, enquanto ao mesmo tempo acontece algo como os motoristas dos ônibus começarem a bater um racha. Esse misto de beleza paisagística com emoção do perigo até te faz sentir num parque de diversões.
Em Belo Horizonte, talvez por ser uma cidadezinha pequena e irrisória, não sei, quem for na Praça da Liberdade, na Diogo de Vasconcelos, na do Papa e na Sete, já conheceu boa parte da cidade, já passou por boa parte da experiência belorizontina. Quem vai no Palácio das Artes ver uma exposição daquelas que às vezes nem precisa entrar pra ver, já que tem paredes de vidro transparente e no nível da rua, e aí depois sobe a rua da Bahia, desce a Cristóvão Colombo e vai tomar um café no Pátio Savassi, já experimentou bastante da cidade, já conheceu o ar, o jeito. já viu um bom número de pontos turísticos, vai poder dizer que conhece a cidade. Vai passar perto de uma porção de lugares interessantes, fáceis de ir com um pequeno desvio.
Em São Paulo, amigo, você tem que correr atrás... Você tem que saber onde diabos fica o tal restaurante remoto lá que tem um tal sanduíche que é "o certo". E enquanto você não for lá no tal lugar, você não viu nada. Esses lugares são o que há de fundamental pra se conhecer em São Paulo! São o que constituem a experiência paulistana!... Turismo em São Paulo é tipo uma busca aos ovos de páscoa. É como entrar no site da Cartoon Network em busca de ícones escondidos. Não bastassem dificuldades, como lidar com o PÉSSIMO transporte público, salvo apenas pelo metrô... Aliás uma das mais importantes atrações turísticas: O metrô. Recomendo a qualquer visitante pegar o metrô, e andar bastante, mas não precisa sair dele não, tá...
Tem pontos turísticos em São Paulo que você tem que se informar pra visitar, não só porque tem que descobrir como ir (e o como ir inclui saber os horários em que os ônibus efetivamente param no ponto de ônibus perto do local), mas tem que se informar pra saber qual diabos é a graça daquele lugar!...
Não fiquem com a impressão de que acho tudo uma porcaria não, já tenho minha listinha de lugares que freqüento pra tentar me divertir... Já corri atrás.
2008/05/16
O que realmente importa
Acho que já escrevi isso aqui algumas vezes, mas é tão importante que é sempre bom reprisar.
We must make boogie music an essential factor in the life of all. In presenting this song to the world, we must then explain and justify our position by formulating a definition of boogie music and setting forth its main principles in such a way that all may understand instantly that their souls, their lives and every relationship with every other human being in every circumstance depends on boogie music and the right comprehension and right application thereof. --- Canned Heat.
Devemos tornar a música boogie um fator essencial na vida de todos. Ao apresentar esta música para o mundo, devemos então explicar e justificar nossa posição na formulação de uma definição da música boogie e postulando seus princípios fundamentais de tal forma que todos possam compreender instantaneamente que suas almas, suas vidas e todo relacionamento com todo outro ser humano em qualquer circunstância depende da música boogie e da compreensão e aplicação corretas desta. --- Canned Heat.
Sonho de engenheiro
Tive um sonho bizarro. Estava num laboratório trabalhando como técnico de informática. Era um laboratório que trabalhava com umas coisas envolvendo radiação, e organismos altamente infecciosos e letais. Em um momento ia se realizar um experimento em q tinha que sair um grupo de pessoas, e ir pra um outro prédio do lado de fora. Tocou lá o alarme, fui junto, entrando no outro lugar percebi que era muito frio, e voltei pra pegar meu casaco. Voltei, peguei, e nisso lembro de ter tentado aproveitar a estranheza da situação (falhas de segurança freqüentemente acontecem nessas horas assim, "opa, peraí vou voltar pra pegar um negócio", todo mundo com pressa, etc) pra tentar ver algo que me fizesse entender melhor o que se estava pesquisando...
Enfim, saí, a porta do lugar se trancou, cruzei o pequeno pátio gramado (super bucólico!) e fui pro barracão lá, onde as pessoas acompanhavam o experimento por televisores grandes (CRT!!) num daqueles painéis levemente inclinados.
Aí teve um acidente!!... Algo deu errado, e vários dos pesquisadores lá no experimento acabaram sendo infectados / expostos a radiação, sei lá.
Nisso começou a ficar óbvio pra mim que aquele sonho era metade um sonho normal, tipo "realidade alternativa", e metade um filme de ficção científica!!
Porque acontece que havendo o acidente, automaticamente entrou em operação um robô andróide chamado "O JUDICIADOR", responsável por ir atrás de cada um dos pesquisadores afetados pelo acidente, avaliar se eles representam ou não perigo, e MATÁ-LOS!... O Judiciador era interpretado por ninguém menos que Donald Sutherland.
Então ele apareceu. Nós, de fora, estávamos a salvo, mas não podíamos sair enquanto o Judiciador não terminasse seu trabalho. Em algum tempo a imprensa já estava cobrindo os fatos, mostrando ao vivo as execuções dramáticas. A última vítima (ou alvo, dependendo de seu alinhamento político e moral) do Judiciador era interpretada por uma atriz que era meio a Winona Ryder, meio a Sasha Grey. Ela conseguiu fazer alguma coisa, não sei o que, que acabou salvando sua vida. Só que apesar de não ter sido executada de imediato, teria de qualquer forma ficado "jurada de morte" pelo estado, devido a questões legais.
um passo pra trás implica em dois pra frente
"Ô Nicolau, usa Java! Bota aí um Eclipse!... Usa W1mbous CE, me, NT, 2000, XP, Vista... Tira esse TWM, bota um Gnome, KDE, Windowmaker... Porque vc não usa Java????"
"Sai fora, não suporto..."
"Então usa .NET... Ou Delphi, pq vc nunca fez sequer um programa em Delphi? Ooopa, vc usa o que?? EMACS? Eeeeca!..."
"Cara, eu gosto mais é de programar em C++, às vezes Prolog..."
"Prolog? Isso é muito velho, vc vive no passado. Retrógrado."
"É bem mania de programador de Prolog, fazer backtracking. Antigamente as coisas eram feitas para durar, cara... E pra funcionarem direito. E elas ainda duram e funcionam..."
Apologia às não-linearidades e realimentações positivas
O mundo, o universo, as pessoas, a sociedade, a natureza, são todos grandes foguetes desgovernados, empurrados por um potente e errático motor nuclear. Um pêndulo invertido que segue uma trajetória caótica, sem jamais cair. Mas a lentidão do processo todo é ilusória.
De central importância na natureza são processos de realimentação positivos. Os negativos também estão lá, são fáceis de estudar, úteis pras atividades mais corriqueiras de engenharia. Mas se houvessem apenas estes, tudo haveria de convergir para "small-crunches", em todos lugares e o tempo inteiro, e nada sairia mais do lugar. Um universo absolutamente "bem-comportado" entraria logo num estado de letargia completa.
Quando estudamos eletrônica aprendemos a fazer osciladores. A técnica é criar uma realimentação positiva, com uma ligeira não-linearidade que limita o crescimento. São essas realimentações positivas que dão origem a alguma coisa. Crescimentos biológicos, fusões nucleares, fissão nuclear em cadeia... Realimentações positivas onde alguma coisa "explode", sendo segurada apenas por alguma forma de não-linearidade. Apenas com estes mecanismos podemos ter revoluções sociais, evoluções de espécie...
É uma dobradinha vencedora, a realimentação positiva e a limitação não-linear.
Tava hoje tentando enxergar isso numa árvore decídua. Não conheço na verdade o processo de crescimento delas, mas dá pra imaginar algo como: mais folhas capturam mais energia e mais nutrientes, mais folhas crescem, até que uma hora as folhas começam a consumir demais alguma coisa, a árvore 'não dá mais conta", atingindo um certo limite de alguma coisa, e as plantas caem, voltando pra um estado onde dá pra elas nascerem de novo, e daí vai... E em ressonância com as estações do ano... Se não são osciladores são pelo menos filtros não-lineares...
As coisas existem, crescem e produzem interessantes estruturas porque são impulsionadas por alguma energia. São sempre essencialmente átomos/moléculas/células/agentes de um gás aquecido e sob pressão. E não-linearidades permitem que estas entidades grudem uma na outra, girem, se partam... Em todo estudo da ciência é fundamental conhecer quais são estas formas de interação entre os elementos. É daí que sai alguma coisa. São regras minimamente complexas em autômatas celulares que permitem a eles fazerem desenhos fascinantes. Regras muito simples só criam coisas que desaparecem rapidamente, ou que andam de forma muito elementar...
Átomos, moléculas, bolhas, células, pessoas, sociedades e países são todos bastante parecidos: bolhas fervendo numa panela, sendo criadas, crescendo e explodindo. É tudo um grande caldeirão de coisas estranhas grudando umas nas outras. Às vezes mais lento, às vezes mais rápido.
2008/05/14
Aprendi tudo necessário no jardim-de-infância austríaco
Agora essa é boa. Tão tentando provar (e eu tou acreditando muito) que Ludwig Wittgenstein, um dos mais importantes filósofos do século XX, nascido em Viena em 1889, teria sido coleguinha de escola da personalidades política mais crucial, controvertida e louca-furiosa do século XX: Adolf Hitler, nascido esta também em 1889 no norte da Áustria, numa cidade a 60Km de Salzburg. O encontro teria sido influente na vida de ambos, e eles representariam de certa forma a grande dicotomia maniqueísta do século XX. Alguns ainda debatem esta foto, mas conhecendo a cara de peixe-morto do Lud, e a cara de mamãe-eu-vou-chorar do Adô, eu não tenho dúvidas. E por mais que o Lud não seja esse piazinho aí na foto, eles estudaram na mesma escola sim, apesar do Lud estar dois anos na frente. Diga-se de passagem, razão o bastante pra ele ser famosinho na escola, e atrair ressentimento de todos. Quem gosta de um geniozinho?
(Wittgenstein nasceu em 26 de Abril, e Hitler no dia 20.)
Eles teriam 14 e 15 anos nesta época. Alguns debatem, dizendo que eles talvez nunca tenham se encontrando, e que provavelmente nem se lembrariam um do outro quando mais velhos. Duvido muito. 14 anos já é velho o suficiente pra ter um bom conhecimento de todos seus colegas de escola, e para formar uma bela listinha de quais você gosta e não gosta. Duas peças raras como eles sem dúvida tiveram uma porção de encontros desagradáveis. E tendo se encontrado ou não, saber que estiveram tão próximos um do outro é muito interessante.
O que se debate mesmo são umas teorias paranóicas que saíram nesse tal livro The Jew of Linz, explorando a contraposição destas personalidades. São teorias até interessantes, vale a pena dar uma lida, menos porque seja verdade ou não, mas mais porque faz pensar sobre questões fundamentais da mente humana (um pouco como eu considero a astrologia). Duvido muito que o Wit tenha sido espião da Rússia, mas não duvido que tenha "se relacionado" com um certo famoso cientista da computação inglês homossexual que foi a engrenagem central da quebra da Enigma.
2008/05/09
Sobre ciência e capitalismo
Reprodução de um comentário / carta que fiz em resposta a um post-em-um-blog / entrevista-numa-revista. (apriveitando pra conçertar uns erinhos de portuguéz!)
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Prezado Professor Schwartzman
Gostaria de somar minha humilde voz discente à do professor Shellar. O comentário sobre a física de partículas foi infeliz. Um ponto geral deveria permanecer assim: geral. Especificar uma área de estudos qualquer, tachando seus praticantes de fracassados inúteis, seria de mau gosto mesmo se fosse verdade -- o que está longe de ser.
Existem diversos problemas nesta afirmação. Primeiro, é um absurdo resumir a pesquisa em física de partículas à realização de seus experimentos, alguns deles notoriamente custosos. Existe muito trabalho teórico que precisa ser feito para complementá-los, o que inclui tanto análise de resultados quanto a própria concepção de novos experimentos. Algo similar ocorre, por exemplo, na astronomia, que por vez ou outra também recebe semelhantes críticas injustas. Me espanta o senhor não ter inclusive criticado também esta área, ou mesmo criticado diretamente o estudo de matemática pura.
Como engenheiro eletricista especializado em computação, garanto ao senhor que os trabalhos realizados na área de física de partículas, e outras, estimulam sim o desenvolvimento da própria computação, como foi com a citada criação da WWW. Também podemos mencionar atualmente o projeto de computação distribuída sendo desenvolvido para atender ao LHC. Este e outros projetos por vezes bem menores podem e são freqüentemente aproveitados em outras áreas. E como disse o professor Shellar, esta sinergia não ocorre apenas com a computação.
Este desconhecimento da profundidade e extensão dos estudos tanto em física de partículas quanto em outras áreas deve ser fortemente combatido. Vimos recentemente uma lamentável campanha de difamação do programa espacial brasileiro, por exemplo. Me pergunto até que ponto todas estas críticas pseudo-científicas são apenas levemente influenciadas, se correlacionando com interesses políticos antagônicos, ou se são decorrências diretas, causadas não só com altíssimo índice de correlação linear mas dependência funcional completa e determinística.
Questiono veementemente todo esse desejo em transformar as universidades em produtores de patentes e em consultores de indústrias. Isto não quer dizer que prego algo diametralmente oposto, apoio sim que hajam interações, acoplamentos, correlações e causações mútuas. Mas é errado ter na produção industrial, ou mesmo nesta chamada "produção intelectual" -- lamentável invenção do mundo moderno, transformando o conhecimento em commodity -- um fim prioritário da atividade científica. Descobertas científicas não são sacos de farinha.
O mundo das patentes é recheado de pesquisas fúteis. Numerosas são as patentes que não trazem nada de novo. Isto inclui famosamente a indústria farmacêutica. Esta, aliás, merece nossa atenção aqui primeiro porque é muito comum ver um cientista, quando questionado sobre sua atividade, acabar precisando recorrer à criação de remédios para se justificar a contento. Saúde e longevidade são uma espécie de remédio infalível para justificar qualquer coisa. Se contribui para medicina, então algo é visto como bom, se não contribui, dispensável. Isto é lamentável...
A multi-bilionária indústria farmacêutica raramente produz novos conhecimentos científicos relevantes. A interação da indústria com o meio acadêmico também freqüentemente provoca desastres, como pesquisas fraudulentas e desperdício de recursos, sempre devido ao sentimento do "tudo pela patente". Mais do que isto, patentes são um instrumento extremamente mal-utilizado. Elas devem servir é para proteger o inventor, e permitir que este negocie com as indústrias, mas são utilizadas como instrumento para a apropriação de conhecimentos que poderiam perfeitamente, e deveriam ser tornados públicos. São vários os casos de tecnologias inovadoras que caem vítimas de patentes que as engessam, numa ominosa forma de especulação intelectual.
O verdadeiro espírito científico inclui o desejo em divulgar descobertas da forma mais ampla e rápida o possível. Era o espírito de Santos Dumont, que compartilhava suas descobertas, oposto ao dos controversos estadunidenses Wright que faziam pesquisas secretamente com intuito de "vender" (como se fosse algum tipo de mercadoria produzida como ouro, aço ou soja) conhecimentos aos militares para que estes os convertessem em instrumentos do imperialismo e opressão. Esta é a epítome da contraposição entre o que geralmente ocorre na ciência nossa, e na dos EUA, que ainda hoje se preocupa excessivamente em ajudar às forças armadas daquele país, e a "se dar bem" em geral. Isto se vê até mesmo na usualmente "liberal" Berkeley, que recentemente tem me surpreendido muito ao começar a colecionar decepções minhas -- não que isto tenha relevância ao universo. A correlação deste com minhas opiniões não é "estatisticamente significativa".
Termino citando um famoso parágrafo de Henri Poincaré de que gosto muito, do livro O Valor da Ciência:
La recherche de la vérité doit être le but de notre activité; c'est la seule fin qui soit digne d'elle. Sans doute nous devons d'abord nous efforcer de soulager les souffrances humaines, mais pourquoi? Ne pas souffrir, c'est un idéal négatif et qui serait plus sûrement atteint par l'anéantissement du monde. Si nous voulons de plus en plus affranchir l'homme des soucis matériels, c'est pour qu'il puisse employer sa liberté reconquise à l'étude et à la contemplation de la vérité.
A busca da verdade deve ser o objetivo de nossa atividade; é o único fim digno dela. Não há dúvida de que devemos nos esforçar por aliviar os sofrimentos humanos, mas por quê? Não sofrer é um ideal negativo que seria atingido mais seguramente com o aniquilamento do mundo. Se cada vez mais queremos libertar o homem das preocupações materiais, é para que ele possa empregar no estudo e na contemplação da verdade sua liberdade reconquistada.
Me perdoe se soei agressivo em algum ponto. Careci de tempo para apurar a qualidade desta carta. Pretendo apenas estimular um debate construtivo a respeito destas questões que muito me concernem... O que mais me preocupa é que nesta crise que se está detectando no ensino de disciplinas técnicas no Brasil, tenhamos que passar por esta dificuldade em justificá-las, quando ainda por cima já é tão difícil justificar por exemplo um bom número de disciplinas das ciências humanas, como a história, filosofia e literatura que tanto estimo.
