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2008/08/18


Brasil 2012 - IPv6 para o Pelé. Ops!

Se tem uma causa pela qual este blog aqui luta, acima da popularização do software livre, ideais políticos, e outras coisas chatas e mundanas, é a adoção completa e irrestrita do IPv6 em toda a Internet.



0111
0 1 Campanha da fita binária,
1 0 pela conscientização da crise do protocolo IP.
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1 0 ADOTEM JÁ O IPv6!!
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O nosso estimado leitor Pimenta Malagueta recomendou-nos um artigo no arstechnica que faz coro a esta minha reivindicação. O texto foi ensejado pela chegada de uma marca numerologicamente notável: faltam apenas um bilhão de endereços possíveis a serem atribuídos na Internet. (Se você acha pouco, saiba que são "apenas" 3.7 bilhões os possíveis...)

Quer dizer, isto enquanto nos limitarmos ao IPv4... A migração tem que acontecer mais cedo ou mais tarde, e é atrasada antes demais nada devido ao interesse podre das empresas que não sentem muito no bolso enquanto a qualidade da Internet de todos usuários do planeta vai decaindo simultaneamente. Eles não querem renovar equipamento, não querem fazer administração "complicada", com gerenciamentos sofisticados de uso de larguras de banda, não querem viabilizar coisas legais como clientes criando conexões com QoS controlado dinamicamente...

Eles só querem manter roteadores podrinhos, velhos e basiquinhos, mantidos por estagiários recebendo salários de fome em salas dominadas por aranhas. E se um usuário tentar colocar a cabeça pra fora do perfil geral de atuação da manada, toma uma cacetada entre os chifres.

Por causa deaa letargia capitalista toda, é legal quando os governos da China e da Coréia e outros ali no leste asiático tomam iniciativas pra instalar o novo protocolo em suas fronteiras. Isso é uma chance de ouro, países mais atrasadinhos como eles e nós, em relação aos EUA e Europa ocidental, podemos aproveitar que não temos redes tão sofisticadas, e teríamos menos trabalho pra fazer a migração é só querer, e depois ver o Tio Sam chupando o dedo.

Vivem falando no Brasil "ai, tínhamos que ter feito que nem a Coréia do Sul x anos atrás, quando eles decidiram investir pesado em educação". Não será esta mais uma decisão da Coréia do Sul que se não imitarmos agora vamos nor arrepender mais tarde? Passamos os últimos anos invejando o crescimento da China em meio às crises no resto do mundo,. Não seria esta uma oportunidade que os governantes e homens de negócios da China (freqüentemente as mesmas pessoas, pelo que ouvi dizer) estão sabendo aproveitar, e nós não?

O artigo ali do Arstechnica fala do site das olimpíadas de Beijing poder ser acessável através de IPv6. Uma formidável propaganda da tecnologia e do país, pela qual estão de parabéns todos envolvidos.

O artigo ainda menciona que, pelas contas mais pessimistas, os IPv4 pode se esgotar na época das próximas olimpíadas, em Londres...

Se não acabar até lá, teremos logo a seguir a copa no Brasil. Por causa dessa copa tão dizendo que vão construir metrô em São Paulo, em BH, que vao arruamr aeroporto, vão fazer trem... Que tal se a gente colocasse junto de todas estas reformas estruturais, uma implementação do IPv6 na Internet Brasileira?

Os chineses fizeram o IPv6 por Pelops, herói grego das olimpíadas. Podemos fazer por Pelé!... IPv6 por Pelé, é a nova campanha.

Mas não. Temos só aquela briga besta, de um lado uns querendo criar protocolos bizarros certificando cada conexão TCP feita na Internet, uma preocupação que só encontraria paralelo em fazer análise química de tintas pra descobrir quem anda escrevendo palavrão na porta do banheiro. Do outro temos aquele pessoal louco pra tornar NAT (e acredito que IPv4 também de tabela) algo obrigatório por lei, como se fosse a coisa mais linda do mundo.

Vamos pra frente, gente!...

A propósito, eu disse "novo" ali em cima? "protocolo novo"??... IPv6 já existe (em versão alfa, verdade) no Linux desde 1996!! Faz mais de 10 anos, portanto, que ele já está "rolando por aí"... E você que achava que a Internet e a informática moderna era sobre agilidade, hein? Era sobre ser incapaz de seguir o rumo dos acontecimentos. Qual o quê!

Se você quiser acompanhar o dia cataclísmico do fim dos endereços de IPv4, o artigo lá recomenda esse site. Tenebroso...

2008/07/14


Todos errados na polêmica da Internet

ATUALIZAÇÃO:
Quando me mandaram o abaixo-assinado do Sérgio, entendi que era outro assunto. Mas não, a lei que foi votada é aquela da tipifação de crimes eletrônico. Quanto a este assunto, eu não podia me importar menos, é papo de juiz e advogado, falar "ah, cirano vai pegar x anos na cadeia, mas se o crime tiver sido cometido enquanto ele plantava bananeira, vai ser mais um ano"... Assunto compeltamente estéril, ridículo.

Quanto a esse assunto, minha crítica é um pouco semelhante à do outro, na verdade. Acho que as coisas deveriam permanecer o mais próximas o possível das legislações existentes. Acaso não há leis quanto ao porte de pornografia infantil em formatos que não eletrônicos? O que se deveria fazer no máximo é qualificar os crimes, e não criar crimes específicos... (mas eu não entendo desse assunto, de repente é até bem por aí que já estão andando)

A questão é que não devemos sair por aí falando em "crimes eletrônicos". Todos os alegados crimes eletrônicos são na verdade os memos velhos crimes de sempre, só muda o meio. Golpistas são golpistas, sabotadores são sabotadores...

Essa coisa de proibir "invasão de rede", por exemplo... Ora, o crime de fato, a ação preocupante é a espionagem industrial, por exemplo. Que que tem o cara entrar numa máquina/rede e dar um "dir"??...

O lance é que as pessoas e empresas são incompetentes na proteção de seus equipamentos, e vivem se assustando ao se encontrarem com gente que conhece estes equipamentos melhor do que elas, e aí querem dar porrada ao invés de fazer o certo: aprender a fazer as coisas direito. É basicamente uma caça às bruxas: condenação à morte de pessoas que realizam prodígios "mágicos". Tão querendo condenar não simplesmente as pessoas que cometem crimes (fraudes, roubo, espeionagem), mas as pessoas que tem capacidade técnica superior, só por isso.

Um cara entra na sua casa, abre seu cofre, e deixa um bilhetinho: "hahaha", você não pode condenar ele por roubo, né?... Tem lá a invasão do imóvel, OK, mas fora isso, porque que abrir o cofre e fechar de novo é crime?

As pessoas querem poder ter um cofrinho vagabundo, uma caixinha amarrada com barbante, e simplesmente falar "olha, é proibido abrir, é tabu". Isso é ridículo, se seus dados e objetos são precisosos, tem é que guardar direito, e não ficar ameaçando dar porrrada em que olhar / pegar.

Talvez a questão da criação e distribuição de virus de computador possa sim receber essa atenção especial, mas junto a ela eu gostaria de ver a tipificação do crime de uma companhia grande lançar uma porcaria dum sistema operacional cheia de furos. Isso que é o crime maior, condenar a população e esta situação ridícula...

Quer dizer, a porcaria do Outlook tem um dispositivo de sair abrindo arquivos sozinhos e executando eles, o que pode facilmetne ser explorado pra criar worms, e se alguém faz um a culpa pela bagunça causada é dele, e não do criador do aplicativo? Imagina que uma fábrica tem um carro que se vc der um peteleco num ponto específico, de fácil acesso, ele desmonta todo... O carro não é robusto, mas os petelecador é que é o culpado pelos danos eventuais? Não senhor...

É a questão do vizinho que querendo ou não querendo, monipoliza seu roteador wi-fi ruim. O roteador é uma porcaria, mas a culpa é do Azureus do cara? Não, a culpa é da D-Link, Cisco ou sei lá quem for. Culpa dessa porcaria dessas empresas que não oferecem pra gente tecnologia de ponta, que não oferece IPv6, não oferece QoS flexível.

Enfim, aí vai o post inicial, sobre a polêmica que realemnte importa: da tentativa de "burocratizar" os protocolos da Internet, exigir identificação em cybercafés etc.

***
Nas discussões sobre o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo relativo à Internet estão todos errados (menos eu, claro). Se todos estudassem um pouco mais de engenharia, se soubessem um pouco melhor como as coisas funcionam, poderíamos mudar a briga pra uma outra muito mais importante: a da sociedade contra as empresas fornecedoras de acesso à Internet (ISPs).

Me mandaram agora o link pra petição do Sérgio Amadeu:

http://new.petitiononline.com/veto2008/petition.html

Eu recomendo que ninguém assine. Mas que fique claro: sou absolutamente contra o projeto de lei também.

O projeto basicamente exige a criação de um protocolo "complementar" a funcionar junto de qualquer conexão TCP/IP. Este protocolo realizaria identificação de usuários, e ajudaria a controlar acesso a conteúdos.

A idéia é questionável por vários motivos, mas o maior deles é que é tecnicamente infeliz. Querer mexer no funcionamento dos protocolos é uma piada de mau gosto. Que diriam os caciques do IETF ao ouvirem estas propostas?

O projeto no entanto parte de uma necessidade real, cuja melhor solução se alia a um desejo meu... A necessidade é identificar usuários para perseguir aqueles infratores de leis relativo ao tráfego de certos conteúdos (se eu sou a favor ou não dessas leis _não importa_). A solução, é acabar com o NAT.

Sim, porque a única dificuldade que existe é o NAT. NAT, pra que não sabe, é um esquema que funciona igualzinho PABX com telefones. Ele atrapalha pelo mesmo motivo que PABX atrapalha descobrir que funcionário de uma empresa fez alguma ligação (por exemplo, não aparece o número no seu bina, certo?)

A Internet era pra ser igualzinho a rede telefônica: cada um tem um número pessoal, que pode originar e receber chamadas. Mas devido à infelicidade da versão 4 do protocolo IP ter só 32 bits de endereço, começou a faltar número, então esse PABX se fez necessário. Não dá pra facilmente aumentar o número de dígitos, que nem se faz em linha telefônica. Resultado, em nossas casas e empresas somos freqüentemente ligados num grande PABXzão, sem a gente se dar conta...

Essa praga de NAT é o principal impedimento hoje em pessoas terem servidores dos mais diversos serviços em sua casa. Não fosse o NAT, poderíamos receber e-mail em nossas casas, direto, igual caixa de correio mesmo. Poderíamos fazer ligações de telefone através da Internet, sem precisar de redes como o Skype. Poderíamos hospedar websites...

O Sérgio Amadeu e colegas se dizem preocupados com isso, mas deviam estar lutando antes de mais nada por essa terrível tirania que é o NAT. Deus meu, o NAT impede até as pessoas de jogarem JOGUINHOS direito. O NAT torna dificílimo possuir um servidor de qualquer serviço que seja, por exemplo, um servidor para distribuir software livre, ou vídeo livre, ou o que for.

Entretanto, existe esse empecílio dele na identificação de usuários realizando atividades potencialmente criminosas, existe essa certa anonimidade oferecida...

...Só que é uma anonimidade burra, mal-feita, infeliz. Tecnicamente tosca. As pessoas preocupadas com anonimidade tem que procurar ferramentas adequadas, tem que lutar pelo uso de bons protocolos que rodem sobre o TCP/IP, e que permitam a anonimização. Tem que aprender a usar criptografia, e tem que aprender a utilizar técnicas tradicionais para evitar rastreamento. Por exemplo, tem que aprender a fazer retransmissões de conexões, os famosos "proxies".

Proxies já são utilizados em redes telefônicas a muito tempo. Inclusive isso aparece muito em filme de detetive. O único motivo porque fazer proxy é difícil na Internet, é o NAT.

O projeto do senador Azeredo, se não me engano, também tenta tornar ilegal fazer um proxy TCP/IP. Isso aí eu considero um absurdo muitíssimo maior, o verdadeiro escândalo nesse projeto, mas eles quase não se pronunciam quanto a isso...

Havendo uma verdadeira disponibilidade da tecnologia TCP/IP aos cidadãos, com endereços reais ao invés de NAT, fica fácil montar redes de proxies com conexões encriptadas, tornando quase impossível para qualquer investigador fazer um rastreamento das conexões. Lutar pela manutenção do NAT por causa do anonimato indireto e tosco que ele oferece é um no-brainer.

NAT é um inferno, uma gambiarra tosca que só serve pra encoleirar os usuários. NAT impede todo esse uso bonito da Internet que o Sérgio Amadeu diz proteger. NAT é uma grande dificuldade para o uso de P2P, por exemplo. Dizer que é a favor de P2P e de NAT ao mesmo tempo é um paradoxo, é um contra-senso absoluto e imperdoável.

Pintar as ISPs como "parceiros" dos seus usuários, protegendo dados de anonimato, é no mínimo risível. O governo tem todo o direito de querer monitorar ligações, como já acontece com o telefone e sei lá mais o que. Eles só não pode é tentar proibir criptografia. Poder pode, mas não vai conseguir. Quem se preocupa tem que ir é nessa direção. A gente tem é que ficar independente das ISPs, e não confiar nelas a nossa segurança. Não tem que confiar é em ninguém, só na sua pessoal rede de proxies e canais encriptados... E o o fim do NAT vai permitir que esse tipo de tecnologia seja utilizada direito.

O que precisamos é lutar pelo IPv6, cuja principal característica é o maior número de bits de endereçamento, acabando com essa desculpa para que as ISPs e o governo nos controle com NAT. O governo, o Sérgio Amadeu e eu temos que nos unir e lutar pelo IPv6. As ISPs no mundo inteiro não querem o IPv6 porque, além de ser mais confortável ficar no NAT, não querem trocar equipamento, não querem atualizar nada.

As ISPs precisam de um belo chute no traseiro. Se depender deles, ficam par sempre oferecendo um serviço ruim, a um preço alto. IPv6 vai praticamente obrigar as ISPs a trabalharem mais, a oferecerem serviço de mais qualidade. Vai ajudar o governo a rastrear quem eles querem tentar rastrear, e vai ajudar os que buscam anonimidade a obtê-la. E o mais importante, vai permitir entrarmos no grande tópico do futuro da Internet: prover QoS. Quero saber de QoS, essa conversa toda que rola hoje é coisa do século passado, senão do retrazado.

Tão todos errados, olhando pra trás. Tá querendo ver a Internet como jornal, como rádio, como carta... Ela é no mínimo como a rede telefônica, legislações sobre a Internet deviam andar casadas com legislações sobre a rede telefônica.

Mas é claro que a Internet é ainda mais do que isso. Mas pra começarmos a ver as peculiaridades da Internet temos primeiro que enxergar ela como analogia da rede de telefonia, e nem o Azeredo nem o Sérgio Amadeu parecem ter chegado nesse nível de entendimento ainda...

Eduardo: Por acaso a cada ligação telefônica que você faz você tem que sair falando seu CPF por aí? Se você liga prum disk piada, ou pede uma pizza, vc sai se identificando? Não, né? Você só fala "alô", e pode até pedir pizza no nome de outras pessoas, uma piada de mau-gosto que não deixa de ser clássica (e que pode ser evitada, a propósito, com esquemas de identificação criados pela própria pizzaria, sem que o governo interfira). Então a regulamentação é um absurdo. Por acaso você deixa CPF quando liga de orelhão? Não. Então libera o acesso não-identificado nos cyber-cafés.

Por outro lado, Sérgio, você acha que o governo deve ser tipo fundamentalmente impedido de rastrear, dentro de um sistema telefônico interno de uma empresa, quem anda fazendo algum tipo de ligação ilegal? Não né? Tudo bem que deve ter um processo específico pra isso, diferente de rastrear uma ligação de uma linha pessoal, mas uma empresa não é tipo um bastião do anonimato dos seus funcionários, que estão ligando de baixo dos PABXs delas. O PABX é só um inconveniente pro processo de rastreamento e escuta, e a empresa só um inconveniente legal, mas facilmente superável. Tenho certeza que nenhum juiz jamais consideraria o PABX uma barreira intransponível, uma espécie peculiar de direito a anonimato inalienável... Não senhor, tem que ser igualzinho qualquer outro telefone por aí. Quem quiser se proteger ao realizar ligações tem é que procurar formas boas pra fazer isso, e não contar com este empecílio técnico criado pelo PABX. Isso é se agarrar num toco de madeira no meio do mar, chamá-lo de seu navio, e querer dar nome, sei lá...

O que mais me dá raiva, em geral, é a proposta de tornar as coisas fundamentalmente diferente do que ocorre na telefonia. Tem que ser igual primeiro. Os mesmos princípios tem que ser aplicados coerentemente nestas duas ferramentas de comunicação, antes de mais nada. Os problemas de anonimato já existem lá a muito tempo, e ajustiça já lida com eles desde então. Precisamos resgatar o que já existe, ao invés de querer dar o golpinho, a rasteirinha de tentar mudar as regras gerais do jogo porque ainda não falaram explicitamente que é pra ser parecido nos dois mundos. Cada um querendo aproveitar a chancezinha pra cravar o seu pontinho, pra fazer valer sua opiniãozinha num assunto que é apenas superficialmennte novo, e a sociedade perplexa, sem entender de onde vem toda a fúria dos dois lados, quando na verdade não tem nada de novo em toda essa história.

O que tem de novo é a facilidade em dar mais tecnologia ao povo, e nenhum dos dois lados me parece realmente estar lutando em nome disso, não enquanto a discussão não for a respeito do fim do NAT, e do oferecimento do serviço de acesso baseado estritamente em venda QoS em conexões TCP/IP, sem considerações sobre os conteúdos transmitidos.

Quantos engenheiros eletricistas (de computação ou teleco) participaram desse debate todo? Te digo: nenhum. Quer dizer, tem pelo menos eu, mas ninguém me escuta, então estou oficialmente fora do debate... O Azeredo é engenheiro, mas mecânico. Ele de fato trabalhou muito com informática na vida, e fez uma porção de trabalhos muito bacanas envolvendo a aplicação dela no governo, ajudando a população. Mas não creio que teve a oportunidade de jamais estudar aprofundadamente o funcionamento da Internet. O Sérgio Amadeu e os outros dois signatários daquele abaixo assinado ali são todos "de humanas", por mais que conheçam informática, como o Azeredo. Por mim, é o sujo falando do maltrapilho. Cresçam.

2008/02/11


Sobre hot-spots abertos, torrents no talo e os problemas no compartilhamento da Internet em casa

Andei discutindo com algumas (mais de duas) pessoas anônimas sobre liberação de acesso do seu roteador a seus vizinhos, e sobre a etiqueta que se deve observar ao gozar do privilégio. Tão me chamando de nazista por aí porque eu botei senha no roteador do meu avô, e porque eu acho que quando vc entra numa rede não deveria ter que se preocupar sobre a banda que está ocupando... Permitam-me discorrer um pouco melhor sobre estas duas questões:

1_ Eu jamais configuraria o roteador de uma outra pessoa pra deixar a rede aberta, sem senha. O meu, em casa, eu deixaria, porque sou eu quem vai administrar, vou ter plena consciência do que isto significa. Mas o dos outros eu deixo fechado por default.

É como decidir deixar a porta de casa sem fechadura. Você não instala uma porta na casa de alguém e deixa sem fechadura. Vc deixa a fechadura lá, e se a pessoa quiser deixar destrancado, ela que deixe. Mas antes ela precisa aprender a trancar e destrancar.

Quando alguém mais experiente configura um sistema pra outra pessoa utilizar, tem sempre que deixar configurado da forma mais fechada e segura possível. Isso obriga o usuário a aprender a abrir o sistema. Ao mesmo tempo em que aprende isso, ele aprende sobre o funcionamento e configuração e manutenção do sistema, e assume as responsabilidades.

Quem configura um sistema, tem responsabilidade sobre ele. Se o usuário optar por fazer algo perigoso, ele tem que ter consciência de que vai estar fazendo isso.

Configurar um roteador pra uma pessoa que não domina a tecnologia é um pouco como construir um apartamento para alguém. Você não constrói um chão que agüente só 200kg/m2 sem avisar o usuário (e confiar nele). Vc constrói pra agüentar lá uns 500kg/m2, a não ser que ele te peça, e que vc tenha certeza de que ele sabe o que isso significa, e que ele seja o responsável por um eventual acidente.

Vc não pode deixar a rede aberta se for você o responsável pelo bom funcionamento dela, mas não vai ficar lá administrando todo dia. Vc tem que ter certeza de que o usuário vai vigiar se não tem algum mané atrapalhando a conexão dele. Senão o CREA te detona... É a vida dos engenheiros desde os tempos de Hamurabi.


***
2_ Eu acho que se você é legal, e deixa sua rede aberta, e alguém entra nela e começa a baixar 10.000 torrents e de repente você não consegue mais usar sua própria conexão com a Internet, esse cara é um mané, e se vc quiser eu te ajudo a ir lá e dar uns sopapos na cara dele. Mas acontece que a filosofia em que se baseou a construção dos protocolos TCP/IP é totalmente contrária à idéia do usuário na "folha" da rede terem que ficar vigiando o seu consumo da banda.

O TCP envia pacote o quanto dá pra enviar. Se tem coisa pra mandar, e se tá indo, ele manda. Mas conforme os pacotes vão demorando pra chegar do outro lado --- ou melhor, conforme os ACKs vão demorando a chegar de volta --- ele vai esperando, e assim a velocidade da transmissão vai naturalmente se ajustando aos recursos. E essa flexibilidade se reflete em todas camadas acima do TCP também. Por isso ninguém devia ter que ficar limitando o funcionamento do seu BitTorrent.

Se você tem uma conexão de 20kB/s, e tem uma conexão TCP ocupando tudo, e de repente você liga outra conexão paralelamente, em um sistema convencional as duas vão aos poucos se ajustando pra dividir irmãmente a conexão. O protocolo funciona assim, ele é meio "passivo". E esse é o maior motivo do sucesso do TCP/IP. Não tem muita discussão, ele simplesmente vai tomando conta do que pode, e se não pode, abaixa a bola.

Como o TCP/IP funciona dessa forma, pra um roteador limitar a velocidade das conexões de um usuário basta ele levantar a estatística de quantos pacotes vc tá enviando. Se vc começa a enviar demais, ele simplesmente joga seus pacotes extras no lixo. Isso acontece até vc aprender quanto vc pode ocupar. E na prática vc acaba sempre transmitindo um pouquinho acima do que pode, porque é assim que vc efetivamente mede o quanto é que pode.

É assim que funciona... Quer dizer, é assim que nossos roteadores DEVIAM funcionar. Essa era idéia lá nos anos 90. Só que esses roteadores paias que essas d-link, 3com, cisco e outras fabricantes enfiam pela nossa goela não fazem isso não meu chapa. O que os engravatados decidiram é que o povão ia ter que se contentar com roteadorezinhos vagabundos que não te permitem ter um controle adequado de alocação de banda entre os clientes do roteador.

E a coisa mais podre do mundo não é nem a falta de controle de banda. É o problema do número de acessos do roteador. Acontece que esses dispositivos são quimeras bizarras que nada tem a ver com o verdadeiro TCP/IP. Essas porcarias todas dividem a conexão entre os clientes usando NAT, que é uma meleca duma gambiarra feia que não devia existir. Por causa dessa maldição contemporânea, nosso "roteador enxerido" é obrigado a ter uma lista de todas as conexões TCP ocorrendo em nossa rede, ao invés de ser de fato apenasmente um roteador de IP. E se o limite de conexões for ultrapassado, vc tá perdido irmão...

Esses roteadorezinhos que a gente usa não foram projetados pra dividir direito a conexão entre clientes desconhecidos. São brinquedinhos pra colocar em casa, e dividir uma conexãozinha entre duas máquinas, e mais uma impressora estribada da vida. Na hora que algum zé mané inventa de deixar o torrent ligado "no talo", ao invés da máquina dele ser naturalmente limitada pelo roteador, como deveria ser, ele acaba engasgando o roteador.

Então aqui que vem minha briga. Não pode ser considerado falta de ética uma pessoa entrar numa rede e sair tentando consumir todos recursos dela, e efetivamente conseguir. É falta de ética a D-link, 3com, Cisco e amiguinhas venderem pra gente estas bostas. É falta de ética as empresas chamadas "provedoras de Internet" não moverem um dedinho mínimo pra acabar com essa porcaria chamada NAT. É falta de ética a gente ser vítima de um bando de executivos babacas que só querem saber de ganhar dinheiro oferecendo pra nós um servicinho que não é sombra do que a tecnologia que existe é capaz de realizar.

Falta de ética é vivermos em 2008 sem conseguirmos imaginar quando se dará o fim do NAT e a ascensão do IPv6 e a popularização de roteadores que prestam. IPv6 tá fazendo 10 anos de vida.

Falta de ética maior é nosso povo viver absolutamente desinformado acerca da exploração que está sofrendo, a ponto de algumas pessoas serem capazes de imaginar que o sofrimento causado em nosso dia-a-dia quando temos estas disputas mal-resolvidas nos compartilhamentos de conexão em nossos roteadores são devido a um mal-comportamento incivilizado de seus pares, ao invés da ganância, preguiça e outros vícios desses engravatados dessas mega-corporações tipo as "provedoras" de Internet e os fabricantes de equipamentos... E também o Bill Gates (pronto, falei!)

Os roteadores que usamos hoje são como dispositivos de uma tecnologia avançada colocada sem proteção na mão de crianças. Resultado: uma machuca a outra e elas dizem que a culpa é da criança que não soube brincar. Não uai. A culpa é de quem colocou na mão delas uma coisa mal-feita. A culpa do engenheiro, como é desde os tempos de Hamurabi.

E eu fico puto porque esse assunto é tão importante pra mim, e ninguém tá pouco se importando. Eu acho sim que se alguém detona sua conexão ele é um babaca. Mas a gente não pode falar com naturalidade, como se fosse normal ter esses roteadores defeituosos. É isso que tem que mudar, e não as pessoas que querem ocupar toda a banda disponível.

Quando a gente se dispõe a tratar do assunto sem questionar a tecnologia maculada que tá dentro destas caixinhas mágicas prateadas em nossas mesas, a gente tá ficando de quatro pras empresas jogarem a canga no nosso pescoço. Quer dizer que estamos aceitando de fato que é assim que vai ser e pronto. Não é assim não gente. O que tem que mudar são estas bostas dessas máquinas. A gente não pode aceitar viver num mundo em que a gente tem que ficar vigiando o funcionamento de nossas máquinas pra não machucar inadvertidamente (ou não) nossos vizinhos de LAN.

Não era pra alguém ser capaz de detonar sua conexão ao entrar em sua rede que você tão gentilmente cedeu. Não era pra isso ser possível. E não é nem igual carro, por exemplo, que vc pode matar alguém se usar errado. Num roteador padrão, funcionando do jeito certo, não deviam acontecer essas merdas. A gente não pode aceitar essa condição. A gente tem que lutar é contra isso.

Quando vc simplesmente aceita o roteador como ele é, e o seu sistema operacional como ele é, e começa a criar regras de conduta em sua sociedade em decorrência da forma como a tecnologia está se apresentando pra você, vc está se deixando manipular. Você está cedendo na disputa cyberpunk entre dominar a tecnologia, ou ser dominado por ela. Você está tratando a tecnologia como um fato incontrolável da natureza, e os fabricantes desta tecnologia acabam sendo deuses no seu mundo, decidindo seu destino.

Aquelas frases do Heinlein e do Clarke falando sobre tecnologia avançada parecer mágica são exatamente isso aí. A gente tá achando mais fácil mudar nossa vida, nossa conduta, e criar regras sociais do que mudar a própria tecnologia. Estamos nos curvando à tecnologia que devia ser a nossa escrava. Está tudo de ponta-a-cabeça.


***
Eu já causei problemas em redes dos outros inadvertidamente mais de uma vez, por causa desses nossos roteadores toscos e redes mal-feitas. Na minha experiência, sofri mais ao machucar os outros sem querer, do sofri recebendo ataques dos outros. Vai ver que é por isso que insisto em nunca jogar culpa nos usuários...