Eu travo uma luta solitária contra o endeusamento de Albert Einstein, e seu tratamento como pop-star e ícone único da ciência.
Outro dia peguei pra ler um pedaço duma biografia dele que saiu. Achei bacana, e me fez pensar se às vezes não pego um pouco pesado demais com o velho Beto.
Eu gosto de meter o malho nele seguindo minha teoria de que ele e Newton possuíam um mau-hábito (vício?) de escrever mal, e ainda não dizerem bem de onde tiraram suas idéias, e enfim, não se importar com toda a parte "social" da ciência, criando uma imagem de serem gênios inescrutáveis ao serem cientistas desajeitados.
O livro me fez ver um pouco que no caso do Einstein, além dessa questão do gênio inescrutável, existe ainda uma outra coisa, que é o lance pop-star, que é separado. É o lance Marilyn Monroe/Elvis... Aí que reparei que é MAIS Marilyn Monroe/Elvis do que parece. É mais forte, porque na verdade Einstein passou por todo um processo de estaduzunidificação quando ele foi pros EUA devido à WWII!
Apesar de já ser meio que perseguido pela imprensa ingênua e sensacionalista desde quando foi pros EUA lá pros anos 1930, a famosa foto dele mostrando a língua é de 1951. Todo o espírito que depois veio a criar os mencionados ícones pop já estava lá. Essa coisa que as pessoas tem com o Einstein tem muito a ver com isso, portanto, e essa minha coisa com o Einstein tem a ver com essa raiva que eu já tinha com isso. Mais uma vez, duas idéias que eu tinha que são na verdade uma só. A melhor coisa do mundo é descobrir que dois certos conceitos são na verdade o mesmo! :)
2008/01/07
Estaduzunidificando Einstein
GOTO o_chuveiro;
Um famoso debate no mundo da computação é entre aqueles que são "contra" e "a favor" da instrução GOTO. Este debate nunca fez muito sentido pra mim. A instrução GOTO é o cerne de toda a computação, mas é óbvio que é freqüentemente mais útil programar pensando em estruturas como um "for"... Só entendi a briga agora que li aquela carta do Dijkstra que dizem ter inaugurado a polêmica. Esta carta é sempre citada, mas foi raramente lida de fato, fazendo-a sofrer da mesma "síndrome do Necronomicon" que afeta por exemplo o livro Perceptrons de Minsky.
A carta de Dijkstra menciona uma preocupação que nada tem a ver com eficiência de programas, ou de capacidade de representação de linguagens. Dijkstra se preocupava com as limitações cognitivas do homem, e sua capacidade em entender naturalmente um programa de computador. Sua preocupação era com questões envolvidas na gênese da atividade de "programador de computadores", algo que acredito ter sido central em sua vida. Tem a ver ainda com a criação das linguagens de computador.
Acho muito anacrônico as pessoas continuarem esta discussão. Linguagens de computador já existem pra valer, e continuam sendo criadas. A atividade de programador já é algo definitivamente estabelecido. Precisamos considerar que estamos em um contexto diferente do de Dijkstra. É um absurdo transformar aquela questão em uma disputa entre programadores de Java, e projetistas de FPGAs.
Eu sempre simpatizei mais com a turma "a favor" do GOTO por considerar absurda a censura que se impõe sobre esta instrução que, junto da execução condicional, constitui a essência da computação. O que eu nunca havia compreendido é que aqueles que se colocam "contra" a instrução estão preocupados é com a legibilidade de códigos, e a facilidade em se gerar códigos corretos, e não com os fundamentos da teoria da computação e arquitetura de computadores.
Na verdade existem duas atividades distintas, ligadas à computação, onde ocorre um uso parcimonioso ou indiscriminado desta instrução potencialmente críptica. Aqueles preocupados com a manutenção de códigos, ou com a confecção de programas para fins específicos, devem de fato buscar padronizações como as oferecidas pela programação estruturada. Este grupo de pessoas, ao me ver, deveria se identificar com o sentimento de Knuth ao criar a linguagem WEB, e ainda propor que "programas deveriam nascer corretos, e não depurados até a exatidão". Entretanto, Knuth é tido como um opositor de Dijkstra na questão do GOTO...
Existe outro grupo de pessoas que se preocupa com o fenômeno da computação em si, e não com a confecção de programas para serem facilmente lidos por outras pessoas, ou para atender a encomendas. É nesta atividade que pode acontecer de nos depararmos com programas corretos, mas difíceis de compreender. Nestas ocasiões o programa sendo estudado é um enigma sendo resolvido, um código que se decifra. São de fato programas que desafiam as nossas capacidades cognitivas ao tentarmos entendê-los, e é de se compreender que pessoas acostumadas a trabalhar em uma das atividades estranhe os programas que ocorrem na outra.
A criação e análise de programas do primeiro tipo, os claros, naturais e fáceis, são valorizadas por profissionais de diversos tipos, que lidam com questões como manutenção de códigos e portabilidade. No caso de programas crípticos, esta programação é valorizada por um número de pessoas que suponho serem aquelas identificadas como "escovadores de bits". Acredito que o motivo da intensidade nos debates sobre a instrução GOTO se deve ao fato de que estas pessoas se sentem ofendidas pela sugestão de que esta instrução, que é a epítome da atividade desenvolvida por elas, seja considerada como inerentemente maléfica.
Acredito que este grupo de "escovadores de bits" possa ser comparado com os pesquisadores de ciências básicas, como físicos que fazem experimentos com forças básicas de interação na busca de novas formas de obter um certo efeito. Do outro lado teríamos engenheiros e técnicos na busca por dispositivos fáceis de se produzir e utilizar.
Já passou da hora de amadurecer o debate, e ver que não há o que se debater. A remoção do GOTO em linguagens de alto-nível é um fato cada vez mais fortemente estabelecido. Diria ainda que definitivamente, com a criação das instruções "try/catch"... Ou talvez falte ainda uma boa forma de se programar sinteticamente saídas alternativas de procedimentos...
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Temos que entender que esse debate naquela época tinha a ver com programadores que queriam programar em alto-nível, e eram obrigados a fazer GOTO porque não havia alternativa. Eles queriam se libertar das amarras cognitivas do GOTO. Hoje em dia parece que existe uma tendência de programadores de alto-nível quererem amarrar os de baixo nível, exigindo que estes abandonem o GOTO. Que sentido faz isso?!? Porque as pessoas não podem ser simplesmente felizes no mundo moderno, em que pessoas como Guido van Rossum e Larry Wall podem criar suas linguagens sem o trabalho que isto exigia nos tempos de Grace Hopper?
Os tempos mudaram. Precisamos é avaliar melhor os tais limites cognitivos que interessavam a Dijkstra. Ele percebeu alguns, e lutou contra eles, e foi bem sucedido. Precisamos avançar esse trabalho, mas isto não significa de forma alguma fazer com que os escovadores de bits se ajoelhem e sejam proibidos de criar coisas como programas auto-modificáveis.
Precisamos estudar melhor ainda a forma como pessoas interpretam e escrevem programas. Precisamos entender melhor o processo, agora no novo contexto onde existem coisas como Perl e Python e Java e LISP e etc. Precisamos nos deslocar para esse novo mundo onde a existência de um número infindável de linguagens de computador diferentes existe, e esquecer, ou melhor, permitir que entre para a história o mundo de Dijkstra com seus cartões perfurados e etc.
Dijkstra não usava editor de texto, não gostava nem de máquinas de escrever. Não usava calculadora, não tinha televisão. É um sujeito que viveu um período muito específico da história em que isso era meio que normal, e manteve essa cultura até o fim da vida. Ao pensar nele me lembro um pouco de Maxwell escrevendo seu magnum opus sobre eletromagnetismo à luz de velas. Não quero dizer que ele era retrógrado, o que quero dizer é que ele subiu um degrau no desenvolvimento da humanidade, e temos agora que nos reconhecer neste nível mais alto, e pensar daqui pra cima, e não ficar pulando lá pra baixo achando que esse foi o final da história.
Em outras palavras, as pessoas agem como se o desenvolvimento posterior da evolução epitomizada por aquela carta de Dijkstra fosse o BANIMENTO do conceito de GOTO. Fosse a proibição desta palavra, fosse tornar imoral que alguém escrevesse um código desta forma. Assim surge a animosidade entre os escovadores de bits e programadores de alto-nível, algo que não faz o menor sentido.
Coisas como programas auto-modificáveis foram encontradas nos idos de 1950 e 1960, e passaram a ser cultuadas por alguns %os escovadores), e odiadas por outros, os programadores que não tinham muito tempo pra perder com isso, e a quem estas entidades crípticas atrapalhava. Hoje estes conseguiram se realizar, adquirindo linguagens que atendem a suas necessidades. Mas parece que uma forma de trauma surgiu. As tais entidades crípticas, as esfinges ou quimeras computacionais, que antes imperavam devido à inexistência de linguagens sofisticadas e à juventude da atividade de programação, estão sendo agora requeridas a se retirarem do universo, estão sendo banidas e recriminadas.
Estas estruturas são tidas como obscenas, num sentimento que lembra talvez o horror da comunidade de matemáticos frente a conceitos como os fractais e atratores caóticos %Mandelbrot denuncia este preconceito ingênuo em sua formidável obra). Este sentimento deve ser rejeitado.
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Dijkstra fez um apelo para que as pessoas mergulhassem de cabeça no mundo da criação de linguagens de computador. A briga era com pessoas que passaram a vida programando em baixo-nível, e diziam que "passei a vida fazendo isso, porque haveria de parar"? A briga era contra pessoas que não viam que era possível se criar uma linguagem de um nível tão alto e distante dos circuitos. Era contra pessoas que possuíam uma restrição cognitiva que as impedia de ver o quão longe a idéia de linguagem de programação podia ir.
Antigamente existia apenas a programação de baixo nível, que irritava as pessoas com desejo de programar em alto-nível. Agora que ocorreu a revolução, e foi criado o mundo da computação de alto-nível, estas pessoas que o habitam parecem querer sugerir que aquele mundo arcaico deve como que ser extinto. Elas não vêem que o que houve foi uma expansão do universo da programação. Elas acreditam que antes havia algo "errado" , e que agora o erro, o "bug", deve ser exterminado.
O que havia não era errado. Era apenas pequeno demais. Agora já cresceu... A instrução GOTO e os programas auto-modificáveis ainda tem o seu lugar. A existência de alternativas que agradam mais a platéias específicas não significa que aquele outro show, que antes era o único que havia, deva acabar. Tem lugar pra todos!...
O sentimento de guerra dos anos 1960 deve ser encerrado. Temos que acabar também com essa coisa sádica na programação de falar para as pessoas o que elas não podem fazer ou o que devem fazer, ficar ditando os comportamentos dos outros. Cada um faz o que quiser. O importante é sempre divulgar todas possibilidades, em detalhes, e tentar compreender o que é mais adequado para que situação. Se um grupo de pessoas adota alguma restrição em um projeto coletivo, e a impõe através de uma hierarquia visando a melhor inter-operação das partes, bom pra eles. Não podemos ficar dentro das universidades falando em "acabar com o GOTO". Universidade é pra conhecer bem e avaliar todas possibilidades, e aconselhar sobre quando evitar ou não o tal GOTO, ou o Java, que seja...
O importante é que as tais restrições cognitivas mencionadas por Dijkstra permanecem muito pouco estudadas. O mundo da computação e programação continua sendo um bocado experimental, selvagem e confuso, em grande parte devido a um sentimento generalizado de vaidade de cada um por suas preferências. Ou talvez pelas preferencinhas do homem mais rico do mundo, e um punhado de mega-corporações.
Tem que acabar esse "contra-golpe" de programador de Java fazer careta pra GOTO e pra programa auto-modificável e o escambau, em retaliação por todos anos em que as pessoas foram obrigadas a escovar bit pra utilizar os computadores em seus serviços. Chega de trauminha, acabou a adolescência. Os programadores de "demos", vírus e outras paradas até gostam do sentimento de marginalidade, mas essa infantilidade tem que acabar, pelo menos dentro das universidades.
2008/01/02
Brazil negro
Passou na TV outro dia falando que mais da metade do Brasil é de "negros". Isso tá errado. A pesquisa do IBGE lá de 2006 dá menos de 10% de negros, mais de 20% de brancos, e uns 40% de pardos. Somando o negros com pardos, dá pouco menos de 50%. Ficar chamando a soma dos "não-brancos" de "negros" e dizer que é a segunda maior população negra depois da Nigéria (130M) é pra lááá de errado.
http://en.wikipedia.org/wiki/Ethnic_Groups_in_Brazil
2007/12/20
2007/12/16
Super-simulacrante
A res-peito da tal "Ciência Gostosa" da Superinteressante, que está causando por aí:
1) A Superinteressante nunca prestou.
2) Não acredito no conceito de "divulgação científica", esta idéia de que é preciso adquirir uma postura específica para se falar sobre a ciência, e outra para então "divulgá-la". Em geral, quem se coloca a "divulgar" a ciência nada mais faz do que reforçar para os espectadores sobre o que eles devem continuar a ignorar. As pessoas precisam é serem instigadas a irem atrás enfim de fontes de informação sobre ciência e não sempre a tal "divulgação" e "divulgação"... Chega de intermediários. Isso sempre foi errado, e é ainda mais agora na era da Internet.
3) A idéia da "Ciência Gostosa" nem me pareceu ruim não. Eu gosto de mulher, e gosto de ciência, e sempre gostei de professoras gostosas. Mas por mim deu errado, em primeiro lugar, por terem colocado as coisas tão explicitamente assim... Era só ter colocado uma mulher bonita de minissaia, e pronto, não precisa AVISAR, entende??... No dia que as pessoas ficarem TÃO burras a ponto de não conseguirem perceber se uma mulher é gostosa ou não, meu amigo, nesse dia podes crer que estaremos divulgando ciência para seres com menos capacidade cognitiva do que zumbis. Essa é uma tendência que existe das pessoas não conseguirem simplesmente fazer o que ela querem, mas ficarem num nível superior, falando sobre aquilo, "brincando" de fazer aquilo... Acho que tem a ver com um conceito aí que os filósofos chamam de simulação. Trata-se de uma simulação de uma mulher gostosa fazendo uma simulação (a tal "divulgação") de uma aula.
4) Ela nem me pareceu tão "gostosa" assim... E esses closes nos peitos foram pra lá de ridículos. As edições naquele programa do Rede TV em que ficam dando close nas bundas das mulheres consegue ser melhor do que isso... A segunda cruzada pernas também, foi pra lá de desnecessária.
5) Porque é sempre "relatividade, relatividade, relatividade", e "Einstein, Einstein, Einstein"?? Sempre isso. Faz 100 anos que o mundo da ciência vive nessa amargura sobre tentar e achar que não consegue explicar relatividade e Einstein pras pessoas. Eu acho é que o verdadeiro motivo é que os próprios cientistas até hoje não entenderam muito bem. Einstein foi APENAS MAIS UM cientista (genial) da história da ciência. Mas as pessoas o tratam como pop-star, um Elvis, uma Marlyn Monroe. Odeio isso. Já dizia o Atari Teenage riot: "The most famous suckers are Elvis Presley, James Dean and the most photographed universally known of them all - Marilyn Monroe. But the times are changing (...)" Eu boto Einstein nessa lista. Nada contra o velho Beto, mas contra o endeusamento.
6) É a mesma coisa com física quântica, sempre se fala que é tudo "contra-intuitivo". Chega dessa postura anacrônica. Isso é uma forma indesculpável de antropocentrismo. É tipo um "intuitivocentrismo". E não tem nada mais confuso ao tentar explicar algo pra alguém do que ficar dizendo pra ela sobre como aquilo que você está tentando explicar é incompreensível!!... As pessoas falam desse jito porque elas mesmas não entendem muito bem a tal física quântica. Eu não digo que entenda absolutamente bem, mas sei reconhecer um cientista inseguro. (Reconheço que no roteiro lá até falaram bem naturalmente do efeitos "relativísticos", sem ficar martelando em supostas "contra-intuitividades" e "incoerências'...)
7) O final do roteiro, com os "gedankenexperiments" nem ficou muito ruim... A piada com o Rubinho quaaase deu certo...
8) Sabe que programa de "divulgação científica" que era bom? Mundo de Beakman! Era só fazer um mundo de Beakman para adolescentes, com uma Rosie menos infantilizada... E pronto!
Colônia dos Sonhos
Fui assistir ao fabuloso Inland Empire ontem... Fui querendo saber previamente quantas camadas de realidade e sonho tinham no filme, mas acho que o Lynch conseguiu chegar num nível agora que nem esse conceito ajuda a "modelar" a narrativa!!...
Equanto estávamos ali assistindo aquele filme em que não é certo o que é a realidade e ficção, o mundo desperto e o morfético, tinha um sujeito sentado ali na segunda fila, perto de mim, que volta e meia caía no sono, ou melhor, no ronco! Puxava um ronco altíssimo e inconveniente!... Absurdo! Aí acordava, olhava pro relógio, e pras duas acompanhantes, e depois dormia... E acordava, e dormia, e roncava, e acordava... Tenha dó.
Agora, não posso de perceber a estranheza da situação: O sujeito ficar alternando sonho e realidade vendo um filme do David Lynch!
O mais engraçado de tudo é que no final ele aparece no filme: tem lá o lenhador serrando um tronco enorme!!... :D
2007/12/13
Watson Bergeron
Postei no meu borg no Nature Network um artigo sobre a questão do James Watson, e sobre QI e racismo...
http://network.nature.com/blogs/user/nwerneck/2007/12/13/watson-bergeron
"A Internacional" nacional
Agora olha só essa. Alguém fez uma versão brasileira d'A Internacional. Ela começa igualzinho a versão do Partido Comunista Português, a única diferença é que tiraram fora a parte dizer que não vamos seguir mais messias e Deus, mas só senhores e patrões...
É uma daquelas pequenas coisas que dizem tudo!...
(minha versão preferida é a do PS!... )
2007/12/08
Deixa pra lá
O Krist Novoselić apareceu aqui num documentário sobre o Nexermind, no finalzinho, falando que fazer aquele disco foi a mlehor coisa que ele fez na vida dele.
Pode ter certeza, Krist, que foi a melhor coisa que alguém fez na vida de muitas pessoas, não só da sua...
A hora e a vez de citar a Wikipédia em artigos científicos
EDIT: Se você está procurando informações sobre como citar a wikipédia em seu trabalho, por favor veja este outro post meu ensinando o macete.
A questão da propriedade ou não da citação de fontes como a Wikipédia em publicações científicas, e de seu uso em atividades acadêmicas em geral, acaba estimulando um debate muito mais amplo e importante: o do próprio papel das referências bibliográficas em artigos e no fazer científico.
Já na página 60 do último livro de Galileo Galilei, Discorsi e dimostrazioni matematiche, intorno a due nuove scienze (1638), o personagem Sagredo faz notar que é possível às vezes realizar um experimento científico, e concluir que a opinião de alguns filósofos antigos, ``incluindo às vezes talvez até o próprio Aristóteles,'' está errada. O lema da Royal Society de Londres diz ainda, desde 1660: Nullius in Verba, ou ``segundo [as palavras de] ninguém.'' Cito estes antigos bastiões da ciência para lembrar que a verdadeira ciência ocorre apenas naqueles raros momentos em que se realizam experimentos, e estes são percebidos como em conformidade com determinadas teorias científicas propostas. Tomando o conceito do mais contemporâneo Karl Popper, a parte mais crucial da ciência se dá apenas naquele momento quando se tenta falsear uma teoria. (Se é que eu entendo desse assunto.)
A citação, referência e reverência a fontes de conhecimento antigas e cultuadas não são necessariamente atividades científicas, podendo ser meramente recursos retóricos para tentar dar credibilidade a um trabalho científico novo. Este tipo de ação já é compreendido como tal desde quando o próprio Aristóteles identificou as diferentes formas de ``provas retóricas'': o ethos, o pathos e o logos. A lógica e a dialética podem sim ser suplementadas pela retórica. É preciso ser vigilante entretanto para não cair na retórica vazia, ou o ``sofismo,'' já denunciado por Platão. Freqüentemente citações em artigos científicos não buscam direcionar o leitor a alguma fonte de dados ou técnicas utilizadas no trabalho. Estas citações visam apenas sugerir afinidade com trabalhos aclamados pelo meio acadêmico, tentando tomar para si um pouco desta aceitação.
Se ao realizar um trabalho científico um cientista coleta uma série de dados, ou consulta a forma exata de alguma técnica em uma referência, e em seu trabalho é capaz de comprovar a certeza dos dados ou a exatidão da técnica, que mal há em referenciar esta fonte no trabalho, mesmo que seja ela a Wikipédia, ou talvez uma pichação, um rabisco em uma porta de banheiro, ou ainda um conselho de um faxineiro? Ao referenciar um trabalho o autor de um artigo torna-se na verdade cúmplice daquela referência. São os autores de novos artigos que são responsáveis pela exatidão de suas fontes, e não os autores dos trabalhos clássicos que são pela dos novos.
O questionamento da adequação ou não do uso da Wikipédia em artigos científicos e na atividade acadêmica em geral deve ser feito é neste contexto mais amplo, em que se questiona não a forma como esta fonte específica é confeccionada, mas sim todo o processo da referenciação. O pensamento que exige estritamente o uso de referencias ``consagradas'' em uma publicação é o mesmo que prega uma forma passiva de leitura, em que o leitor não busca questionar o que vê escrito. Renegar um artigo devido a sua autoria, sem travar contato com o material, é como negar-se a olhar através de uma luneta para observar um fenômeno que alguém diz ter visto, afirmando ter certeza de que trata-se de um equívoco.
Aceitar a Wikipédia como uma fonte bibliográfica regular é o último e maior passo necessário para se adentrar nesta nova era que estamos propondo, em que o aluno e o leitor deixam de ser meros espectadores da ciência para se tornar agentes participantes, enriquecendo as fontes de conhecimento com realimentações de banda larga e atraso reduzido.
