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2008/05/27


Cansado mas alerta. Estratégia...

É um alívio ter nascido no Brasil em 1981, já em tempos de abertura, anistia, diretas-já e Tancredo Neves. Tenho a sorte de poder ver a ditadura e ler sobre suas atrocidades com a respeitosa distância de um estudante de história, assim como vejo o fascismo da Europa da metade do século XX... Pra mim nazista são os mocinhos maus do Indiana Jones, e estudante clandestino é o Cássio Gabus Mendes no Anos Rebeldes. Talvez por essa distância, tenha conseguido vencer os traumas justificáveis carregados por quem vivenciou essas coisas, e consiga ver o mundo com um pouco mais de maturidade, sem morrer de medo de acidentalmente tecer elogios a algo que possa ser associado ao fascismo, ditadura, "direitismo" e outros males. E olha, são poucos os brasileiros que conheço que considero serem capazes de sair dessa de fazer uma classificação binária e simplória de o que é direita e esquerda, e se permitem falar das coisas com a verdadeira complexidade que elas possuem. Um deles é o Arnaldo Jabor.

Um caso desses, de uma coisa complexa que é mal-interpretada por brasileiros traumatizados e preconceituosos, que falham em apreciar as coisas com o detalhamento que elas merecem, é o filme Tropa de Elite. Não é um filme maravilhoso, nenhum grande clássico da história da arte, mas deve ser o filme mais injustiçado de que ouvi falar ultimamente. Um filme bem-feito, com um roteiro extremamente sóbrio e complexo, passível de observações intelectuais, foi jogado no lixo pela intelectualidade brasileira que o deveria ter apreciado melhor. Foi acusado de ser um filme "fascista", de fazer apologia à violência policial, e de "dar à classe média o que eles tavam querendo", que seria algo como um filme do rambo em que os russos são o CV.

Só quem eu sei que fugiu de enquadrar o filme em pontos cardinais (esquerda direita, pra cima pra baixo) foi mesmo o Jabor... Ele fez duas crônicas (uma duas), e cito um trecho de uma que diz bem o que estou em vão tentando dizer com outras palavras:


Tinha lido nos jornais a eterna polêmica de nossos intelectuais dualistas: progressista ou fascista? Esquerda ou direita? Essa gente só consegue raciocinar com um cuco na cabeça, batendo o pêndulo como um colhão pendurado, tentando enquadrar a realidade num conteúdo ideológico qualquer.


Poisé. Quanta babaquice viu... Olha, não sei de nada mais ingênuo que uma pessoa possa fazer ao criticar um filme (ou obra narrativa qualquer) do que sair falando que "o filme insinua que TODOS xx são yyy"!... Taí algo que se fez muito ao criticarem o Tropa. Cito alguns blogs de amigos de amigos meus. Um diz que o filme é muito "caricato", e que representa muito superficialmente os personagens, e que insinuaria que todas ONGS são criminosas e todos universitários maconheiros safados. Outro já apela mais pra questão do suposto "fascismo" pregado pelo filme, alegando que o filme seria algo como uma apologia contemporânea à nossa ditadura torturadora de outrora... E fala que o filme insinuaria que os policiais do BOPE são incorruptíveis.

Isso de falar que "o filme chamou todas ONGs de corruptas e todos policiais do BOPE de incorruptíveis" é extremamente infantil. Ora, o filme conta a história de um sub-grupo de personagens de um batalhão, num certo período de tempo, em que houve um envolvimento com uma certa ONG. Porque sair extrapolnado dizendo que o filme afirmou coisas sobre todos policiais e todas ONGs?? Como teria que ser o filme pra ser "justo"? Tinha que ter duas ONGs, uma bonita e uma feia, e tinha que ter dois policiais, um mocinho e um bandido, e tinha que ter também dois tipos de bandido, os malvados e os corrompidos pela sociedade... E além disso cada um desses tinha que ter pretos, brancos, índios e mulatos, loiros, morenos e carecas, homens e mulheres, senão também o filme taria falando que, por exmeplo todos policiais morenos e canhos do BOPE são incorruptíveis... (do BOPE, porque da polícia convencional mostrou bastante os corruptos.)

Não tem tempo de ficar sendo capitão planeta não, ficar representando um de cada. Cresçam. o cara contou uma história ali, de um capitão, mais dois policiais, mais um punhado de universitários, num certo morro, com uma certa ONG. São vocês que insinuam essas tais generalizações.

Aliás, por acaso o filme insinua também que todos capitães do BOPE tem crises nervosas? Insinua que todos ele brigam com a esposa grávida? Ora, tenho certeza de que ao menos o Azevedo, que tem DOOOIS filhos, não deve ter se separado da esposa quando esta teve o primeiro.

***

O filme possui uma formidável diversidade de personagens. Tem universitário MUITO safado (traficante), tem universitário só mais ou menos safado, tem os que realmente querem só ser legais (a moreninha que paquera lá com o policial)... Tem até mesmo um interessantíssimo personagem, que é o policial universitário.

Do lado da polícia, tem policial bandidão, tem o que se importa pouco, tem o que "se vende" pra trabalhar, em diferentes níveis. Tem várias histórias complicadas, não é nada simplório não. O filme é cheio de "áreas cinzas", essas dualidades maniqueístas infantis tão só na cabeça de quem viu cheio de preconceito.

***

Quanto à violência, fala-se muito que o filme seri aum grande espetáculo de sangue e horror, que seria um passatempo sádico para a classe média fascista que queria ver derramamento de sangue de pobre. Taé o Jabor falou isso. Isso não podia se rmais afastado da realidade.

Eu até concordaria se alguém me dissesse, por exemplo, que a violência foi banalizada no filme. Nem vi ninguém dizer isso!!... Mas se você reparar bem, assistir de novo sem ficar nervoso, com medo de talvez apoiar uma obra que seria algo como um Mein Kampf contemporâneo, vai ver que a violência passa às vezes só no fundo... Por exemplo, na memorável cena do "põe na conta do papa", não aparece o cidadão sendo executado. Em mais de um momento pegamos a cena de tortura já no final, e às vezes ela é só mencionada. Isso é MUITO diferente do que acontece no 24 horas, por exemplo, em que acompanhamos todo o processo do Jack Bauer decidindo fazer uma tortura, e fazer. Naquele seriado, o lance da tortura é intensamente explorado pelo diretor pra criar suspense, stress e todas emoções do filme. No Tropa de Elite isso não acontece.

Tem uma cena por exemplo em que o BOPE chega num pátio na favela, aparecem de surpresa levantando das sarjetas, e atiram antes de perguntar nos sentinelas do tráfico. Acho até que rola um que toma um tiro meio atrasado, uma cena muito marcante. Mas não marca pelo "stress" da tortura. Não é uma violência explorada com close-ups, câmeras lentas, ou com diálogos estilo homem-aranha.

Acho que o pessoal sentiu falta disso. O filme não tem diálogos assim, entre um policial e um traficante em que um fica questionando sobre o outro ser vagabundo, ou homossexual, ou de direita, ou sei lá o que mais que se gosta de falar em filme brasileiro, até que enfim o traficante puxa um revolver e fala algo como "Quer saber? Eu tou pouco me fudendo. Isso aí é o caraaalho, vai tomar no meio do seu cuuuu! Ahahaha!!" aí então o mocinho dá um tiro de sorte e pega na barriga do trafi, sendo atingido apenas de raspão no braço. Só porque não tem isso, esses diálogos existencialistas antes das mortes, o pessoal achou que é um filme "cruel", sei lá.

***

A cena lá do pátio, aliás, é importante porque tem o fogueteiro. Ninguém falou do fogueteiro, mas o fogueteiro é o personagem mais importante do filme. Será que de todos intelectuais por aí, tem que vir eu, engenheiro, pra notar uma certa semelhança nesse negócio todo de procurar o corpo do fogueteiro, com a preocupação de tragédias gregas com o corpo de pessoas mortas? Exemplo óbvio: Antígona.

O filme tem dessas coisas, mas ninguém deu a menor bola. Tem lá o Capitão tendo uma crise nervosa. As pessoas saíram falando do capitão Nascimento como um Chuck Norris brasileiro, como um Rambo (não no primeiro filme, óbvio), um Nico-acima-da-lei, mas ele não é isso!... Ele até pode ser sim um militar fodão e malvado quando é preciso, mas ele é não é um personagem sobre-humano, plano, propagandista. Ele é humano, tem problemas pessoais muito piores do que o homem-aranha (olha ele aí de novo), toma à vezes atitudes guiadas pela emoção, às vezes pela razão. Erra e acerta. E sofre com tudo isso boa parte do tempo, mas sempre encontra conforto em saber que é um bom profissional.

Esse negócio de sair falando do Capitão Nascimento como um Chuck Norris tupiniquim rolou só porque é engraçado. O filme não se resume a isso, de forma alguma. Tem lá cenas memoráveis de "ação militar"... Em especial, tem o trecho todo do treinamento do BOPE, que é algo quase que separado do resto do filme. Eu vi aquilo como uma interessante versão nacional da parte do treinamento do Apocalipse Now. Nem nacional, carioca. É muito legal ver, pra variar, oficiais brasileiros ao invés de gringos, falando com sotaque carioca coisas como "os senhores não são bem-vindos aqui". Mais do que isso, em todo o filme tivemos oportunidade de pensar um pouco sobre essa figura tão estranha e pouco conhecida: o policial e o militar brasileiros.

Sim, porque ser militar no Brasil é visto por alguns quase que como uma contradição. Afinal, toda a nata intelectual desse país se esforça para rechaçar impiedosamente qualquer filme em que estes cidadãos sejam retratados senão como bestas feras assassinas sem-mãe, seguidores de Mussolini ou defensores de interesses imperialistas estadunidenses. O Tropa de elite foi um parte um alívio de toda essa babaquice. Ou tentou ser, porque a reação foi apenas a esperada.

A proósitco, fiquei feliz com o que vi. Fiquei com uma impressão que nossa polícia, comparada com as anglo-saxônicas, adapta bem nosso jeitinho peculiar de ser.

***

Eu sinto é que toda essa reação negativa ao filme se deve aos fumantes de maconha formadores de opio-nião terem ficado tristes porque não foram os mocinhos do filme. Em geral o cinema, principalmente o brasileiro, trata fumantes de maconha como grandes heróis, únicos cidadãos a se preocuparem com a liberdade, a possuírem criatividade e a cultivarem outros valores relacionados. Nesse filme apareceram como nada demais, apenas pessoas que indiretamente contribuem para o problema da violência. Aí ficam putinhos em suas escolas de ciências humanas, citando sei lá que microrrelações de poder do Foucault pra tentar provar por a+b que o filme se tratava de um manifesto em prol da opressão do povo...

***

Quanto à questão da exploração barata da violência, a uma suposta "favela-exploitation", atendendo lá aos anseios dos jovens jogadores de Counter Strike, ao meu ver filmes como Carandiru e Cidade de Deus o fizeram muito mais, e foram no entanto super elogiados. Não rolou peitinho balançando do rodrigo santoro... Não tem aquela coisa toda do "mundo cão" tradicional do cinema nacional.

Tem, por outro lado, cenas da polícia subindo o morro ao som da música lá do Tihuana. Alguns chegaram a clamar que o filme era um "filme de ação barsileiro". Não achei não. São cenas de ação, mas são mais pra dar clima pro filme, não são o centro das atenções, não é o motivo de ser do filme. O motivo de ser é fogueteiro, são as narrações do Capitão falando da merda que é o trabalho dele, e é o policial-universitário tentando achar o lugar dele no mundo.

Infelizmente, os caras se vestem de preto. Dizem até que vai mudar agora, vão passar prum tal camuflado digitalizado. O filme criou essa imagem do "policial de Elite" brasileiro, que até então não existia. A gente só tinha idéia do que poderia ser uma SWAT estadunidense, por exemplo. E isso é legal, pelo mesmo motivo que é legal brincar de guerrinha quando a gente é criança. Aí virou moda, caiu na boca do povo, e os intelectuais prepotentes únicos-bastiões da democracia saíram falando que era nazismo, que aquele preto ali era o uniforme da SS, ou dos guardinhas do Mussolini... Talvez se eles se vestissem de cor-de-rosa, o filme se tornaria uma doideira cabeçuda, e aí sim seria apreciado pela nossa intelligenza, o "stablishment moral" comunista das universidades.

O problema todo é o preconceito contra o preto.

***

Em suma, infelizmente foi mais um daqueles textos extensos em que eu falo um monte de bobagem complicada tentado defender algo sofrendo acusações fáceis... Sou uma eterna vítima da retórica suja, pobre eu.

Assistam a droga do filme lá!!... Não é "nazista" não. Só não é mais um daqueles filmes brasileiros de favela-exploitation em que o mocinho é um maconheiro ladrão que namora uma puta. É um filme tanto ou mais complicado quanto a própria questão da polícia/favela/classe-média é. Qualquer simplificação está na cabeça dos críticos que não quiseram ver tudo, quiseram se posar de bacana-apático pros amiguinhos renegando o sucesso do filme, como sempre acontece aqui. "Ai ai, cansei desse Tropa de Elite"...

2008/02/22


Sobre a censura hacker no Campus Party

Este será mais um texto sobre a cultura cyberpunk, ou ainda o que eu às vezes chamo de “revolução cyberpunk”. Por cyberpunk eu quero me referir a uma mistura de duas coisas:


  1. A cultura punk, que entre outras coisas prega o DIY (do it yourself, faça você mesmo) para sobreviver nas cidades selvagens.
  2. A cibernética de Norbert Wiener, coisa mais importante que aconteceu na ciência do século XX, associada à eletrônica lógica desbravada por Claude Shannon et alii. (Poisé, você talvez ache que foi Einstein a coisa mais importante da ciência século XX... Ele foi até o ‘homem do século’ da revista Time! Pretendo escrever sobre isso num futuro próximo...)


Mas este texto não é de cunho teórico e geral, não, vamos analisar um acontecimento específico, um causo verídico, ocorrido de fato na realidade verdadeira, que se sucedeu com um amigo de um amigo meu lá no Campus Party Brasil 2008.

Meio mundo já deve ter ouvido falar: De repente, uns campuseiros que estavam felizes navegando na Internet foram surpreendidos por não conseguirem abrir o Google, recebendo uma mensagem dizendo que aquela página havia sido bloqueada pela direção do Campus Party, por ser “inadequada”. Mas na verdade tratava-se de um engôdo Lokiano, um vento soprado pelo redemoinho de um saci digital... Foi um jovem campista do Campus Party, um hacker, que causou isto de alguma forma. Depois de um tempo de tumulto, a administração e os campuseiros-blogueiros atingidos localizaram a máquina e “resolveram o problema”.

O lance todo causou a maior comoção, principalmente porque já estava rolando uma briga sobre as verdadeiras censuras que a administração tava fazendo. Mas mais comoção ainda foi causada quando se descobriu ser tudo obra de um pirata de dados que estaria “atacando” as pessoas ligadas na rede. Lá no post do t3cnocracia sobre o assunto podemos ler zedenas de opiniões sobre todos aspectos da questão, inclusive algumas boas mensagens do próprio perpretador do ato controverso, Vinícius K-Y, digo, Vinícius K-Max.

A primeira coisa que queria dizer sobre isso tudo é que estou fulo por causa da superficialidade técnica com que este “ataque” foi coberto. O tecnocracia, por exemplo, disse que o notebook estava “interceptando” a transmissão, “redirecionando” o tráfego para si mesmo, e ainda que a máquina estava atuando como um “sniffer”. Já o elogiado IDG now soltou o seguinte par de pérolas do dadaísmo informático desinformativo:

Considera-se a hipótese de alguém da bancada ter usado um software que mandou ao hub da mesa um arquivo de texto reproduzido toda a vez que o usuário tentasse entrar nos serviços citados.

[K-Max] reconfigurou o roteador da mesa pra redirecionar sites pra sua máquina e falsificar o conteúdo das páginas.


Quem dera fosse eu um caçador de mariposas pra colecionar todos esses bugs nesse texto!... Não só de escrita como conceituais.

Não quero cobrar nem da “grande mídia” nem da “pequena” que me dêem detalhes técnicos precisos de tudo o que ocorre, mas eu espero que alguém que use termos como “sniffer” e “redirecionamento” me fale com um pouco mais de profundidade as coisas!... Ou pelo menos use estes termos sabendo precisamente o que eles significam. Saibam em que nível de tecnicalidade vocês estão falando. O que eu vejo por aí são as pessoas jogando termos técnicos obscuros numa grande sopa, criando o que elas acham que se parece com um discurso científico, e ficam satisfeitas. Parece criança tentando imitar conversa de adulto, sem saber o que está falando.

A dica é: se não sabe do que se trata, não fala nada não...



O que diabos aconteceu afinal? O cara ligou um servidor de DHCP, e virou o gateway das máquinas na quela LAN? Ou ele atuou só como servidor de DNS delas? Ou a máquina dele só tava rodando mesmo um servidor de HTTP? Ou a máquina não tava rodando absolutamente nada, e era mesmo só um inocente sniffer??

Ou será que foi de fato algum tipo de hackeagem de alta-ordem, digna do termo? Por exemplo, será que rolou alguma forma incomum de spoofing??? Ou ele realmente fez algum tipo de sniffing, achou alguma porta aberta na máquina de todo mundo, ou num servidor do Campus Party, e aí depois realizou algum exploit nas máquinas Rwinndous? (ele deve conhecer bem Ruimdols, pois tem uma linda licença dele colada em baixo do notebook!... L4MM3R!!!! :D )

São muitas possibilidades, queria mais detalhes. Será que o digníssimo hacker campuseiro poderia se manifestar em nosso humilde blog a este respeito? Ou um mágico não revela seus segredos?... (Ele quer expôr as falhas lá da rede ou não?)

O motivo porque eu queria saber é que pedi pra um amigo de um amigo meu rodar um iptraf basiquinho lá na rede (o quêêê?? Mais um sniffer??? Chamem a polícia de dados! Disquem ‘451’!) e não deu pra ver nada. Ou seja, tava tudo ligado em switchs... Esse amigo do amigo não teve tempo de avaliar muito bem como deveria ser a estrutura da rede, e eu tou tão interessado em saber como era do que em saber o que houve nesse caso. Não encontrei nenhum bom documento sobre o assunto em lugar nenhum, só aquele post que mencionei noutro lugar que fala da conexão de fibra ótica, mas não diz nada sobr a estrutura interna da rede.

A Raquel Camargo fez uma entrevista com o infame campuseiro-hacker-tornado-celebridade. Ela até pergunta bem diretamente "o que você fez?" Mas ele só fala sobre como não pegou senha de ninguém, e como pediu desculpas pela brincadeira. A única pista que rolou foi que ele disse algo a respeito de mexer na configuração do roteador. Outras pessoas ainda me falaram que tinha algo a ver com “configurar um filtro no roteador”, mas isso eu duvido, porque o que eu entendo por “filtro” num roteador nada mais é do que impedir determinadas comunicações, simplesmente descartando pacotes de acordo com os endereços dele.

E eu não acho que foi brincadeira não!... Aliás, o que o Vinícius fez talvez possa ter sido sim. Mas não é brincadeira montar uma rede para 3000 pessoas com buracos de segurança.

Se realmente o ocorrido tem algo a ver com configuração do roteador, só consigo imaginar o seguinte: Os roteadores tavam funcionando no esquema de "DNS proxy". Cada máquina ali estava usando o roteador como servidor de DNS, e o roteador por sua vez retransmitia pros dois lados todas as mensagens de DNS, contactando o servidor de DNS real que fica do lado de fora da rede.

Pode ser que ele tenha mudado o endereço do DNS na configuração do proxy do roteador pra apontar pra máquina dele (poderia ser até alguma outra dele fora da rede), e assim pôde falsificar as requisições dos endereços de sites específicos como Google e Flickr, mandando as máquinas contactarem novamente o IP da máquina dele (ou outra fora!). Aí só falta rodar um Apache lá e colocar aquela página feinha e feita nas coxa.

Só restaria portanto uma questão: como diabos ele mexeu na configuração do roteador? Ora, ou ele fez uma hackeagem absurdamente foda (algum exploit muito louco), ou então foi alguma coisa mais clássica, como haver algum buraco em alguma configuração de segurança do roteador permitindo a configuração do endereço de DNS através da rede... Ou ainda o mais clássico de todos: podem ter deixado no roteador a senha default de administrador, da fábrica, ou ainda alguma senha fajuta como "campusparty" ou talvez "cparty2008", "bienal2008", "telefonica", "admin", "casemod", "blogueiros", "marymoon", "donniedarko"...

Aí a gente entra numa questão muito similar a algo que andei discutindo em um post anterior. As pessoas quando vêem uma situação destas só pensam em dar porrada na pessoas parecidas com elas, ali do lado. Ninguém pensa que é a porcaria do roteador que não funciona direito, ou que o administrador VIP engravatado ou encrachazado da empresa multinacional não fez o trabalho direito. E isso é muito não-punk... O jeito punk, cyberpunk de ser é questionar as autoridades!... Especialmente se for com toda a razão.

Não era pra ser possível um “ataque” tão simples. Não era pra esses roteadores serem tão ruins e fáceis de estragar. E o “ataque” é entre aspas porque, me desculpem, isso não é exatamente um “ataque”... Aliás, se ele tivesse tentado imitar algum site de banco, por exemplo, teria que forjar o certificado digital, o que é um bom motivo pra vc sempre conferir aquelas janelinha...

Agora, o cara deve ser mesmo um exímio hacker, porque existe uma página na Internet para a qual ele conseguiu bloquear o acesso de todos usuários do planeta Terra e além, e ainda “redirecionar” as máquinas!! É, é um endereço que “redireciona”, faz sua máquina “interceptar o tráfego”, e manda uma cópia de um arquivo com um conteúdo falso no lugar. Acontece que se vc tentar entrar na página pessoal dele, viniciuskmax.com, vai ter uma surpresa bizarra: esse domínio está atribuído ao endereço de IP 127.0.0.1 (o local)!... O que diabos aconteceu com ele pra rolar uma coisa estranha dessas? (Sim eu tava aqui crente que por coincidência ele tinha deixado um apache mal-configurado e recém-instalado no servidor dele, igualzinho é aqui na minha máquina!)



Mas sabem porque mesmo que quero saber em detalhes tudo? Acontece que eu sou um hacker tão poderoso, mas tão poderoso, minha máquina é tão mas tão violenta e cheia dos truques, que eu já fiz um “ataque” parecido com esse dele aí, e SEM NEM SABER!!! É uma das ocasiões em que causei problemas, que mencionei no outro post.

É a primeira possibilidade que perguntei se poderia ter sido o caso. Acontece que estava com minha máquina numa rede fajuta que eu detesto, e fazia algum tempo que eu havia habilitado nela uma servidor de DHCP... É porque fica muito mais prático de ligar outras máquinas na minha placa wire-with, e transferir algum arquivo. Só que eu tava deixando esse servidor de DHCP ligado direto, nem me toquei. Aí começou a rolar um problema nas máquinas perto de mim. Acontece que elas tavam entrando no MEU servidor de DHCP ao invés do da rede mesmo!... Resultado: os administradores nervosões (e não muito knowledgeables) da rede ficaram me tratando com criminoso, bloquearam minha máquina, e eu me dei mal. Foi a partir daí que fui obrigado a ir procurar wi-fi por BH, e tive a experiência agradável no Café com Letras que andei falando em vários posts aí pra trás.

Tipo, foi sem querer!!... Eu nem conhecia a possibilidade de dar um golpe rodando um outro servidor DHCP numa LAN, ou imaginava que seria tão fácil. E o resultado? Arranquei correndo meu servidor de DHCP lá, mas continuei fora da rede, porque a pessoa que podia desbloquear tava de férias. Fiquem sem poder trabalhar direito. E ainda por cima, dias depois quando precisei do servidor pra ligar a máquina da minha namorada, e copiar uns filmes e tirar onda de gostosão, não tava rolando e passei papel de otário.

E tem mais, eu já tinha entrado com minha máquina em outras redes, e nunca tinha dado problema... Eu sei que eu tava fazendo algo super não-convencional, e não permitido pelas regrinhas daquela rede fajuta, mas porque é que tantas outras redes robustas, e essa aí não? Se tem um lema importante que aprendi na minha escola de engenharia e que é sempre bom relembrar, é: “Tem que ser robusto”.

Isso é igual quando vc tá no ônibus, e acerta sem querer a cara de alguém com o cotovelo. Sendo relativamente alto, já passei por esse constrangimento várias vezes... Mesmíssima coisa. Mas porque é que as pessoas reagem desse jeito na Internet, sempre exaltadas e super-ofendidas?... Eu acho que esse sentimento forte das pessoas que são “atacadas” por um hacker (que no nosso caso aqui atacou dando um poderoso tapinha na nuca) só se compara a, por exemplo, a ofensa que um passageiro do ônibus sem braços, amarrado e amordaçado, pode adquirir se alguém lhe acerta a tal cotovelada...



E então o que acontece é o seguinte. As pessoas estão se acostumando demais a viver nas mãos destas redes fajutas cheias de falhas. E aí a nova moral sendo imposta é: ninguém se mexe, ninguém fala nada, ninguém peida, senão a cordinha esfiapada da ponte carcomida cai e morre todo mundo... Isso é certo???

Está virando um tabu as pessoas terem programas minimamente sofisticados nas máquinas delas. Num desses blogs aí em cima o cara fala de um jeito meio negativo do sujeito ter um servidor de DNS ou mesmo de HTTP na máquina. No meu caso o tabu era ter um servidor de DHCP. Vamos chegar num dia que se o cara tiver qualquer coisa diferente dum Zuimdons paia com fundo-de-tela da terra dos teletubbies, vão tratá-lo como suspeito de ser um criminoso web-agitador terrorista de dados. Vão falar assim: “a quem interessa ter um servidor de HTTP num PC?...” Qualquer coisa que vc instala na sua máquina que faz ela agir menos como um submisso aparelho de TV passivo, e vc já é um “hacker”, ou melhor, “cracker” que está “atacando” ou outros. Sinto muito, mas quem fica perguntando “a quem interessa” o tempo todo não é ninguém menos do que o Grande Irmão contemporâneo (aquele original foi lá em 1984, mas seus iguais continuam na ativa). É a dicotomia da sociedade paternalista totalitária: ou vc é submisso, ou é um subversivo. Ou é um terrorista, ou é um aterrorizado (ou é um político).



Aproveitando o gancho, queria primeiro lembrar meu recente post em que eu defendo que tem que parar com essa conversa de “cracker” que tão tentando fazer pegar já faz alguns anos.

O título deste texto aqui é “Sobre a censura hacker”. Muitos devem ter entendido (espero) que eu estava querendo dizer que o hacker lá impôs uma censura, proibindo os blogueiros campuseiros de entrar no Google. Mas desculpe informar, eu quero falar é de como estão censurando o hacker!...

Faz anos que estão aí a Internet, e os hackers-de-internet. Todo mundo sabe do lance de desafiar as autoridades, de tentar esclarecer a população, de explorar a tecnologia, e de questionar a moral, as leis, os custumes, a cultura, o Establishment e o status quo. Até acham graça dos filmes Hackers, The Net, Die Hard 4.0, Johnny Mnemonic e Matriqueses da vida. Ai o carinha vai lá, e faz isso ao vivo e a cores pra todo mundo ver. E ao invés de acharem doido ver um hacker, ver um completo evento hacker, vivenciar a “complete hacked experience”, as pessoas ficam é FULAS!!!...

Muita gente é super-sofisticada quando vai falar de qualquer coisa na vida. De música, de relacionamentos, do trabalho, de sei lá mais o que. Mas se tiver um computador no meio, esta esfinge enigmática contemporânea, aí dançou. Baixa o Pinochet-Tranca-Rua, vira todo mundo uns moralistas retrógrados truculentos.

De repente até quem sabe não rolou um sentimento de união e amizade entre os jornaleiros e bloguistas quando o debate foi interrompido pra tratar do assunto?... Talvez a solução pra resolver o cisma da década, blogueiros versus jornalistas, é usar a estratégia de achar um inimigo em comum pra criar uma união, ficando então jornalistas e blogueiros versus hackers! (ou versus hacker, um só crucificado de exemplo já tá bom, gera bastante de movimento na blogosfera.) ((Mais sobre o famoso debate improdutivo em outro post meu.))



Eu só acho é que parece que as pessoas precisam ouvir mais aquela velha recomendação: “Informe-se e lute”. Seja contra quem for... Eu não tou exatamente preocupado em quem é contra quem não. Eu só acho que o nível das conversas que ando ouvindo por aí, tanto nas pregações contra hackers quanto os chamados “crackers”, nas contra blogueiros ou jornalistas ou políticos ou administradores de rede, todas essas conversas tão num nível ainda muito abaixo do que eu gostaria de ver e ouvir.

Euzinho, posso até não saber muito e transmitir menos ainda. Mas consigo sentir quando o nível tá baixo.... A ordem do dia é: “elevar o nível do debate nacional”.

E não podemos ficar sem citar umas letras do Sepultura:
Choice control
Behind propaganda
Poor information
To manage your anger

E já que falamos muito de censura:
You censor what we breathe
Prejudice with no belief
Senseless violence all around
Who is it, that keeps us down
(...)
We're not slaves, we're free

Pelo menos é o que pensamos nós, que não somos como outros.



Terminamos com uma piadinha pra relaxar:
P: Porque o Exú Tranca-rua é a melhor proteção contra os sniffers e hackers?
R: Porque ele “tranca todas as portas”!...