2008/03/21


Porque servem um copo de água junto com o café

Resposta rápida: a idéia é tomar a água antes do café. Mas que eu saiba não é nenhuma gafe terrível tomar em outra ordem, ou mesmo deixar de tomar. Então fique tranqüilo, e curta o seu cafezinho do jeito que melhor lhe convir...

Resposta lenta:

Não tem nada mais legal do que ver as consultas que levam as pessoas às suas páginas!

Alguém caiu no meu conto ali abaixo buscando no google por porque servem um copo de agua junto com o café. O famoso copinho de água mineral, freqüentemente com gás, que começaram a servir a uns poucos anos por aqui nas melhores cafeterias perto de sua casa. Como é um assunto que me fascina (tanto que escrevi um conto que fala sobre isso) lá vai. Tudo o que você queria saber sobre o copinho de água junto do café.

A dúvida maior que geralmente se tem é se é pra beber antes ou depois. Pois bem, a idéia é que se beba antes, pra você “limpar” sua boca e poder apreciar melhor o sabor da bebida. Isso é especialmente importante se você tiver acabado de comer algo, como geralmente é o caso quando se toma café.

Mas é claro que este é um país livre, e se você quiser deixar pra tomar depois, também pode. Eu mesmo deixo sempre um golinho pra depois. Aliás, outra coisa que eu faço é às vezes pedir um docinho junto do café, e ir intercalando da seguinte forma: água, café, doce, água, café, doce...

É, enfim, um “instrumento” para você utilizar em sua experiência degustativa da forma que quiser. Alguns podem até querer impor por aí que é “só” pra isso ou aquilo. São os hitlerzinhos do dia-a-dia. Mas eu vou longe disso, digo que se quiser, por exemplo, misturar um pouco na bebida negra, porque não? Afinal, tem gente que prefere o popular “chafé”, né?... Isso pode servir pra esfriar a bebida também, quando vem muito quente. Ou ainda, por exemplo, você pode ir bebendo a agüinha lentamente enquanto a xícara esfria, se for o caso.

Água é algo básico na vida e na culinária. Tem muitas coisas por aí que podem ser melhor apreciadas com uma boa agüinha. Mas só “colou” com o café, porque fica bonitinho aquele copinho de cachaça do lado da xícara.

É poisé, parece um copo de cachaça, né? Também já achei engraçado a primeira vez que reparei, mas isso “já é tããão semana-passada”!... (pra imitar o Anthony Bourdain) E eu nem sei o que haveria de tão engraçado em se tomar um copinho de cachaça. Tenho uma suspeita de que quem acha isso engraçado são pessoas que consideram cachaça uma bebida não-chique, enquanto café seria algo sofisticado, e do contraste decorreria o efeito humorístico. Tem gente ainda que considera o café uma bebida inofensiva, e o álcool um entorpecente mais sério, e daí surgiria outro contraste.

No dia que eu abrir meu café, vou colocar no cardápio: café com um copinho de cachaça, Cointreau ou Steinhager. Já ouvi falar até em café com vodka, mas estou ainda pra aceitar que tenha mesmo algum valor. Café com Cointreau é inigualável, adoro. E vai vir copinho de água também, dois copinhos, uma xícara, e um docinho. Pra quem quiser achar graça ao invés de beber, vá em frente, sorria. Quanto mais bom-humor melhor pro mundo.

2008/03/20


Encontro com Clarke

A algumas semanas atrás eu havia conseguido um endereço de e-mail pra Scholarpedia poder convidar o Arthur Clarke a escrever um artigo pra lá, sobre satélites geo-estacionários de comunicação. Ele declinou, mas ao menos respondeu o convite (muitos convidados nem dão bola).

Por causa disso eu estava com ele fresco na cabeça, sabia que ele tinha acabado de fazer 90 anos... E uma preocupação grande da Scholarpedia hoje é justamente tentar chegar aos potenciais autores mais velhos. É um alívio saber que pelo menos tentamos no caso dele... Mas é claro que não é um alívio que ultrapasse a tristeza da sua mudança irreversível de estado.

Fiquei sabendo da morte do Clarke de manhãzinha, meu cunhado me mandou um e-mail, e foi uma coisa rara eu ter lido tão cedo meus e-mails. Eu não esperava que fosse ficar tão triste no dia inevitável-mas-não-comentável, já que ele não era um dos autores no topo da minha lista de preferidos (apesar deu ter lido um só livro)... Mas foi só ontem que percebi que em primeiro lugar ele é pra mim mais do que um autor de livros... Ele representa muito mais do que isso, é um nome associado com "achar legal" ciência, tecnologia e a ficção-científica, e isso é que é o mais importante. Era um "bastião" de muitas coisas legais, antes mesmo de ser um autor.

Senti um frio na espinha porque percebi que foi o terceiro a morrer, de um grupo de pessoas seleto e muito importante pra mim: o grupo das mentes que contribuíram de alguma forma para o filme 2001: Uma Odisséia no Espaço.

Quem não sabe fica sabendo: O filme é em parte baseado em Nietzsche, e este é um escritor (filósofo) que admiro muito. Morreu lá em 1900. Kubrick morreu em 1999, e agora depois de Clarke sobrou só o
Minsky. (Poderíamos querer incluir o Osamu Tezuka na lista, mas não ajuda, ele faleceu em 1989.)

De repente eu me sinto que estão nos deixando meus mais admirados pensadores, e não surgem muitos novos no lugar. Em alguns anos vou ficar sozinho, perdido nessa rocha insípida...

Junto a esse sentimento veio ainda uma percepção que já tive a algum tempo, de que tem tantas coisas legais do anos 60 de que eu gosto muito, mas relativamente menos coisas contemporâneas. (não só dos 60, eu tenho uma queda pelos anos 20 tb) O 2001 é um filme inigualável, e tem muito poucas produções modernas que chegam perto de me agradar tanto quanto ele. Foi lançado em 1968.

Mais ou menos na mesma época, Minsky lançou um livro que é muito falado na área de redes neuronais (ou redes neurais), chamado Perceptrons. Ele é muito falado, mas é MAL-falado. Por algum motivo bizarro, que foge à compreensão humana, as pessoas falam do livro sem tê-lo lido, e ficam repetindo inverdades. Fala-se que o livro traria "hipóteses" que teriam colocado em estase a pesquisa em redes neuronais (e outras coisas similares), e que depois teriam sido provadas falsas.

Mentira. O livro traz resultados ólidos que valem até hoje. Mais do que isso, fala de técnicas par ao uso dos perceptros que se diz só terem sido descobertas mais tarde...

Ninguém leu o tal livro, e ele fala coisas que precisam ser ditas hoje em dia. Ele toca em questões que ainda são atuais!...

Coicidentemente, li a pouco um artigo relacionado à morte do Clarke, e caí nessa entrevista com o Stephen wolfram (não é segredo pra ninguém que eu o admiro em alguns aspectos, mas me desentendo com ele às vezes). Nessa entrevista, ele fala sobre ainda não termos chegado a construir algo semelhante ao HAL9000. Ele fala justamente que pode ser que tenhamos deixado algo escapar, algo que podíamos ter visto a 20 anos atrás. Não quero com isso implicar que o livro do Minsky é precisamente a coisa faltando, que se mais pessoas tivessem lido e menos pessoas falasem mentiras sem ler que então tudo seria diferentes, mas é digno de nota que o Wolfram esteja levantando a hipótese de que pode se tratar de um natural "lapso de atenção" da comunidade científica, e que ao mesmo tempo eu sinta que estamos de fato cometendo esse tipo de erro com o Perceptrons.

E não é só o Perceptrons, meu sentimento vai além. São outras coisas ali dos anos 50 e 60 que parece que não "sobreviveram" ao anos 90 e 2000, e são às vezes "reinventados", ou tomados de uma forma que considero errônea... E isso tudo faz a gente perder tempo. Tempo precioso...

Nesse vídeo que o Clarke gravou após compeltar sua derradeira revolução ao redor do Sol, ele tenta ser otimista, e fala sobre como que é legal que a viagem espacial turística esteja a ponto de se tornar uma realidade. Mas convenhamos, não é meio vergonhoso que a "corrida espacial" tenha passado por um certo congelamento lá nos anos 70 e 80?... Vá lá, tivemos missões não-tripuladas, mas eu não sou capaz de ver aqui neste momento da história deste meu ponto de vista, que as coisas tenham se dado de forma contínua, monotônica... Não acho que a exploração espacial dos anos 80 tenha sido uma continuação natural daquele desenvolvimento entusiasmante dos anos 60, quando já se esperava pelo vôo espacial civil. Precisou se passarem uns 30 anos até que se falar nisso tenha começado a se tornar uma realidade (o X prize começou em 1996).

Enfim, o falecimento do Clarke está me trazendo todo o tipo de sentimento de solidão e descontentamento, mas também de esperança e "boas memórias"... Coisas da vida.

***

A vida continua. No final da mensagem do Clarke ele menciona um belo poema de Rudyard Kipling. Kipling era um inglês-nascido-na-Índia, e faz alguns dias que eu coincidentemente li um pouquinho sobre ele na Wikipédia, por causa da agitação que rolou / está rolando em Myanmar. Ele escreveu um poema chamado Mandalay, que é uma cidade grande de lá.

Ele foi o primeiro anglófono a ganhar um prêmio nobel, e é até hoje o mais jovem laureado na área (42 anos). O poema que o Clarke cita é exatamente tudo o que eu estava precisando ouvir.


The Appeal (Kipling)

If I have given you delight
By aught that I have done,
Let me lie quiet in that night
Which shall be yours anon:

And for the little, little, span
The dead are born in mind,
Seek not to question other than
The books I leave behind.


Que traduzo de forma inventiva, em tributo...

O Apêlo

Se lhe agradei ao menos
por algo que tenha feito.
Me deixe ao noturno leito
que logo dividiremos.

E por um tempo breve e fugaz
os mortos surgem em mente.
Peço questione somente
os livros que deixei pra trás.



Agora, procurando pelo texto do poema, esbarrei numas coisas interessantes. Acontece que a figura de Kipling é um tanto quanto controversa. Por um lado ele escreveu e criou uma porção de coisas positivas, legais e bonitinhas como o Mowgli. Mas por outro ele é considerado por alguns como um prenúncio do imprialismo britânico. Em especial, parece que George Orwell dizia isso. Ele, que não só autorou 1984 como também o livro maizomenos autobiográfico Burmese Days.

Kipling escreveu o infame poema White Man's Burden, e isto não passaria de uma curiosidade se não fosse o fato de que esta expressão aparece no filme The Shining, do Kubrick!!... É inclusive uma das pistas para se ver que o filme fala sobre a colonização da América (claro que nada é tão simples assim, vocês sabem. Ou deviam saber...)

Kipling também tem alguns poemas (como esse) que tocam na questão da tecnologia de uma forma singular, que certamente interessará muito aos fãs de 2001.

Pra finalizar, folheando aleatoriamente pela Internet fiquei sabendo só agora que a (última) esposa do Kubrick, e o rimaõ dela que produziu seus últimos filmes, eram parentes de um certo diretor alemão que serviu (com ignoto nível de satisfação) ao regime de Hitler. Essas coisas todas, Clarke, Kipling, Kubrick e Hitler, estão interconectadas, mas só as pessoas que brilham é que percebem.

2008/03/17


Harpão sem ponta

Este post faz parte da iniciativa de Blogagem Inédita do InterNey.net. Como eu considero que a maioria senão todos meus posts usuais já são suficientemente “inéditos” mesmo que não necessariamente interessantes, o que eu fiz foi guardar pra publicar hoje uma pequena peça de ficção que escrevi... Espero que gostem!

((Este texto é melhor visualizado na formatação original, aqui...))


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-- HARPÃO SEM PONTA --
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um conto de fantasismo realístico,
por Nicolau Werneck <nwerneck@usp.br> (06/03/2008)


F entrou em um bar/restaurante pouco depois das 15:20. Incerto sobre a adequação ou não de sentar-se a uma das mesas, que são utilizadas com freqüência mesmo é no horário do almoço, F senta-se no bar, no segundo banquinho antes do fim, próximo às mesas. Talvez até fosse ainda, segundo os critérios dos freqüentadores do recinto, o horário do almoço. Talvez até isso não fizesse a mínima diferença. Mas F estava incerto, e observar as atitudes de outros clientes e dos funcionários não o ajudou a esclarecer absolutamente nada. Todos pareciam muito certos entre si de que tudo estava normal e na mais perfeita ordem, mas F não sabia dizer qual ordem seria esta.

E no final das contas nem mesmo importava nada disso porque F não queria almoçar direito não, queria comer uma porcaria qualquer e voltar pro trabalho. O único motivo porque não estava lá naquele exato momento é que seu escritório havia sido tomado por uma força-tarefa de funcionárias do setor de limpeza, que foram agendadas para encerar o local ali naquele momento.

E não fazia mal também, porque F podia perfeitamente dar uma pausa ali naquele momento, e podia também levar seu computador portátil para continuar trabalhando no cafezinho perto do escritório. Enfim, estava ele ali, e iria consumir apenas um salgado qualquer, alguma bebida qualquer — de preferência algo saudável — talvez depois um café, e pronto.

Pediu uma coxinha e um suco/refresco sabor amarelo. A coxinha era comum, sem Catupiry. F ia com freqüência naquele lugar, e jamais conseguiu adivinhar quando que tinha ou não tinha a coxinha com Catupiry, para dar preferência a estes horários, ou mesmo pra não precisar sempre perguntar às balconistas, ou ficar se perguntando se haveria ou não... Mas não tem problema também, porque as duas são boas, e a sem Catupiry talvez até fosse mais saudável do que a outra. Mas era sempre uma pena, porque ali eles usam Catupiry de verdade, não é requeijão não, apesar de poucas pessoas se importarem com a diferença. Aliás, uma vez F até ficou desconfiado que os próprios donos do estabelecimento ali não tinham sequer a menor idéia de que havia esta diferença.

Tendo comido, F resolveu então pedir mais um café. O café de lá não tinha nada de mais, a xícara não era das preferidas de F, mas o produto em si era razoavelmente gostoso. O café veio rápido, ao contrário de uma outra ocasião em que ainda era mais a hora do almoço, e tinha uns dois grupos de pessoas pedindo café ao mesmo tempo e o dela acabou demorando no meio da confusão.

Pretendendo comer junto do café um docinho que estava em sua bolsa, F decidiu pedir um copo de água mineral, seguindo o costume que começou a adquirir depois de começar a frequentar alguns cafezinhos mais chics por aí, onde sempre se serve um copinho de água junto da infusão ritual.

Na rua, F viu antes passar um guarda desses que andam de bicicleta, usando shortinhos de lycra e óculos arrojados parecidos com olhos de alienígenas dos piores filmes baseados em livros do Stephen King.

“Ei, por favor, você pode servir pra mim um copo aí dessa água mineral?”, perguntou F.

“Hein?”, respondeu inquisitivamente a atendente atrás do bar.

“Me vê um copo de água mineral, por favor.”

“Aaah tá!... Não.”

“Ah...” finalizou atônito o consumidor fracassado. F já havia tomado daquela água antes, pedira pra mesma atendente semana passada, se não depois. Pagou oitenta centavos, ele estava certo disso!... O copo era daqueles de aproximadamente quinze centímetros de altura, com a boca ligeiramente estreitada, um pouco como nas bainhas da calça de uma antiga zoot suit estadunidense. Era o mesmo copo normal de se utilizar ali para sucos à tarde, sendo que pela manhã o normal era um outro copo, daqueles que tem um alargamento abrupto a um terço da boca.

F procurou pelo cardápio, meio conformado e meio desconsolado. No verso da impressão plastificada e rígida lia-se com clareza: “água mineral (copo) ... R$0,80”. Mas que sandice seria esta?

F inquiriu novamente a atendente, que ao atendê-lo dava a impressão de que era a primeira vez, de que eles não haviam acabado de passar por exatamente o mesmo processo poucos instantes atrás.

“Ei... Me vê um copo de água mineral, por favor?“

“Água?”

“É, daquela garrafa ali, ó, vocês não vendem? Me dá um copo dessa água aí dessa garrafa.”

F indicava a garrafa de forma polida e comedida inicialmente, mas depois de um tempo apontou de uma forma mais ilustrativa, clara, inambígua e direta. Um apontar de dedos quase prolixo. A garrafa de plástico transparente carregava originalmente um conteúdo com um volume nominal de mil e setecentos mililitros. O formato da garrafa algo entre o cilindro de alguns ínvólucros semelhantes de bebidas gaseificadas, e o encurvamento tradicional de garrafas feitas com materiais convencionais, como vidro ou cerâmica. A tampa da garrafa trazia inscrições na cor vermelha, indicando que tratava-se de água com gás. O rótulo também tinha coisas em vermelho, e trazia uma logomarca elíptica com ainda as cores azul, branco e cinza/prateado. Vinha escrito claramente a natureza de seu conteúdo: “Água Mineurval”.

A garrafa encontrava-se já parcialmente consumida, com o nível da água dentro dela chegando a quase exatamente a metade da altura da embalagem, o que significava obviamente que ainda não deveria ter sido consumido mais da metade do volume total da garrafa, por causa do formato quase cônico dela. Ainda mais considerando-se que a embalagem vem da fábrica com um pouco de ar dentro, uma quantidade que varia um pouco aleatoriamente mas pode chegar a tomar toda a região a uns 2 centímetros da boca da garrafa. F estava convicto de que aquela garrafa havia sido consumida por outros clientes, servidos por outros antendentes, senão por aquela mesma, e estava certo de que a quantidade de água presente na garrafa era perfeitamente o bastante para atender às imposições de seu pedido.

E isso tudo nem fazia a menor diferença, a quantidade de água na garrafa. Nem mesmo importava na verdade aquela garrafa estar ali atrás do balcão! E ainda mais do que isso: a garrafa estava ali, e estava parcialmente consumida, provando seu uso anterior. Aliás, consumida em seguramente menos que a metade do seu volume nominal de conteúdo, o que se pode provar pela altura no nível estar logo acima da metade da altura da garrafa, que é aproximadamente cônica. Mas isso aí nem vem ao caso.

A tampa da garrafa ainda mostrava claramente que esta havia sido aberta, pois era possível ver as curtas rebarbinhas esbranquiçadas que às vezes ficam saindo pra fora da beiradinha dela, e do lacre que vem grudado. As rebarbas da tampa desencontradas das rebarbas do lacre, demonstrando uma rotação relativa entre os dois objetos a partir de suas posições originais antes da abertura. E a garrafa ainda estava ligeiramente amassada, daquele jeito que desamassa no momento que você segura pra servir (algo como um multivibrador biestável). F imaginou até que alguém poderia estar naquele momento bebendo um copo servido daquela garrafa, e quase tentou observar se não haviam manchas de condensação sobre a garrafa, com marcas de dedos no meio, que às vezes se formam quando servimos e que esvanecem em decaimento exponencial depois que colocamos a garrafa de volta sobre a mesa.

“Ih, essa água aí eu não sei direito não... Não sei.”

“Aqui no cardápio, ó. É essa água aí! Outro dia mesmo eu até tomei.”

Nisso o café já tava até ficando frio, né. Mas isso não importa muito não, não faço questão de café muito quente, às vezes até tomo frio mesmo, o que importa é mais o gosto, o açúcar e a cafeína.

E a atendente: “Mas ela tá tampada, a garrafa.”

“Não ó. Já abriram ela.”

“Hein??”

“Olha ali, já abriram essa garrafa, ela já tá até meio vazia.” Ou meio cheia, não importa.

“Ah, sim, mas é que ela está tampada, tem que destampar, precisa abrir ela para servir.”

“Então...”

“Eu não sei abrir a tampa não... Tem que falar com a Neurva, que ela sabe. Espera ela atender ali, e ela já vê.”

“Beleza, falou.”

“Hein?”

“Tá bom, obrigado...”

Já com o seu café pela metade, e o doce em um terço ou talvez dois quintos, F esperava calmamente pela outra atendente que deveria resolver tudo quando chegasse. Não que ele se importasse muito. Mas não era possível que fosse tão difícil servir essa água. F estava determinado a ser servido, até para tentar evitar essas complicações no futuro. De repente era só pedir pra essa outra, e ela sempre serviria sem problemas, a tal Neurva. Mas F tem uma má memória pra nomes, tinha que ver depois se ia lembrar.

Chegou a outra garçonete.

“Ei, tudo bem?... Pega pra mim um copo dessa água mineral aí?...”

“Mas eu não consigo abrir essa tampa não!”

“Ah, tá, é que ela ali disse... Mas será que não tem jeito? Você não pode pegar ela pra mim, e eu mesmo abro?...”

A face da atendente espressava de repente muita preocupação e empatia, olhando pros lados e para F e para o balcão e para a garrafa.

“Ih, não sei não... Tem que ver... É que é difícil... E se como que fica??”

F agora apenas fitava a cena, quase que como se estivesse assistindo a uma peça de teatro sendo ensaiada ou encenada, talvez improvisada à sua volta. A garçonete prosseguiu...

“Tinha que ver com ele ali, mas acho que eles não costumam deixar. A gente nunca faz assim, sabe.”

F ensaiou um diálogo na sua mente: “Mas então. Se vocês nunca fazem assim, deixando o cliente se servir, é porque a maneira como vocês sempre fazem é vocês servirem. Como diabos pode ser agora que não tenha quem possa abrir essa MALDITA” ele retirou a palavra forte do diálogo ensaiado em sua mente. “...abrir essa garrafa?” Ele não aproveitou sequer uma palavra do diálogo ensaiado na cabeça. Mas não faz mal, não tem importância.

“Tá, então. Valeu.”

Pela cara da atendente, F percebeu que ela não havia entendido o agradecimento, mas não se importou. Não importa, porque não importava.

F ficou lá, desapontado. Mas como seria possível? A água ali do lado, era só abrir a garrafa, servir e pronto. Ele pagava até mais, pagava um real. Pagariam talvez o preço de uma latinha de refrigerante, que estavam evitando beber porque não é muito saudável. Mas não tinha nem como... E a água ali parada, não servia nem pros mosquitos da dengue se reproduzirem, já que o invólucro estava fechado.

Parou por um momento, pensou, olhou para os lados. Uma das atendentes ia de um lado para o outro resolvendo coisas distantes. A outra fazia algo parada meio de lado, olhando para a direção onde estava F, mas não exatamente para ele.

Então F pegou a garrafa, um copo, e abriu a garrafa com a maior naturalidade. Serviu sua porção, fechou a garrafa e a devolveu para seu lugar. Naturalmente, sem pressa nem cuidado.

Se alguém viu, não ligou. Um tempo depois, F pediu a conta. A conta veio errada. Veio a conta de uma outra pessoa, e não só isso: além de ser a conta dessa outra pessoa, ela estava mesmo errada. Tinha um produto que essa outra pessoa nao tinha pedido, mas até aí tudo bem, porque era por causa de um outro produto que nao estava cadastrado, e aí colocaram outro do mesmo preço no lugar. Esse tava certo, na verdade. Só que aí tinha duas vezes uma outra coisa que esse outro cliente pediu uma vez, e não veio, aí ele pediu de novo, e só trouxeram da segunda vez, mas cadastraram nas duas vezes que ele pediu.

Mas isso tudo não importa, o que importa é a coincidência que se deu, que é o fato peculiar dessa história/conto, a única razão porque ela merece ser contada e ouvida, e porque isso tudo não é apenas um relato banal do dia de uma pessoa mas sim um caso interessante, digno de nota e atenção. Acontece que o valor que estava naquela conta era exatamente o que F deveria pagar pelo seu lanche completo, inclusive a água que ele pegou, que sairia pelos oitenta centavos de direito. Se pagasse aquela conta, F pagaria pelo seu lanche com precisão, e ainda não precisaria explicar nada pra ninguém, sobre ter ou não pegado a garrafa ele mesmo.

F pagou. Enquanto nosso protagonista caminhava do caixa de volta até o lugar onde estava sentado, ouviu atrás o tal outro cliente pagando sua conta. O outro cliente explicou o que havia pedido, e pagou corretamente também a sua conta. Tornou-se assim mais um herói nesta história, um semideus com direito a ser imortalizado em desenhos de ânforas/vasos da era clássica.

F sentou-se novamente em seu banco, no bar. A xícara vazia ainda estava ali, com um resto de açúcar no fundo, calorias não-consumidas. Seu livro aberto, virado com a capa pra cima, estava ao lado. F se sentou e voltou a ler o livro. Mas deteu-se por um momento, e observou novamente a garrafa por cima do livro. Observou o anel ondulante desenhado na interface tríplice entre o líquido, o ar e o plástico. Observou a concavidade sutil da água sobre a mesa no ponto em que ela encosta na base da garrafa, causada pelas caracteríticas de viscosidade e tensão superficial do líquido. Aquela agüinha entre a garrafa e a mesa que às vezes deixa uma marca parecida com uma flor quando a garrafa é levantada.

Ele olhou pra garrafa, olhou pro livro, pro balcão, pras atendentes, pros lados... “O que vai acontecer se eu simplesmente pegar essa garrafa e levar embora?”, F pensou. Considerou, mas desistiu. Aí então levantou-se e pegou a garrafa. Pegou e colocou dentro de sua mochila com naturalidade, sem pressa nem perfeição. Fechou o acessório, que levou às costas, e saiu do bar/restaurante. Ganhou a calçada/rua. Uma calçada mal-feita, quebrada e esquecida, e dividida igualmente (ou não) entre pedestres e veículos.

Na esquina, F abriu a garrafa e começou a beber seu conteúdo pelo gargalo. Não sentia qualquer tipo de satisfação, nem pelo furto bem-sucedido, nem por finalmente beber sua almejada água, saciando algum desejo profundo que não possuía. Não tentava também se livrar da prova do possível crime. Ele simplesmente bebia a água porque é isso que se faz com a água: bebe-se-a.

Um transeunte/cidadão se aproximou, observou o rótulo, e perguntou: “É água com gás?”

F confirmou: “É...”

“Água sem gás é melhor.”, pronunciou o transeunte enquanto fazia uma cara meio de decepção meio de intrigado.

A asserção portava ao fundo um tênue tom de proposição e de pedido de confirmação. F respondeu em altura e volume baixos.

“Né não, sô...”

“Hein?”


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2008/03/15


Hidros estadunidenses

Os gringos gostam muito de falar em filmes e documentários sobre a tal Represa Hoover, e sua usina hidro-elétrica. Ela foi batizada em homenagem ao presidente (1929--1933) republicano e engenheiro Herbert Hoover. (Não confundir com J. Edgar Hoover, famoso crápula diretor do FBI em 1924--1972.)

Ela fica no rio Colorado, entre o Arizona e Nevada (o rio é toda a fronteira oeste do Arizona, com Nevada em cima e a Califórnia em baixo). A usina teve seu momento, vai. Quando criada em 1936 foi uma obra notável. Mas ela não é mais grandes coisas!... Sua potência atual é de 2,1GW, e hoje é apenas a quinta maior usina hidrelétrica dos EUA. É o bastante pra se considerar uma usina de respeito, mas depois dos anos 1940 os EUA construíram outras usinas maiores, como a da represa Grand Coulee, que hoje gera uns 6,8GW.

A segunda maior usina deles é a da Chief Joseph Dam. As duas ficam no rio Columbia, e no estado de Washington. Não entendo porque nunca se ouve falar dessas duas... Mesmo depois que Woodie Guthrie foi contratado em 1941 para compor músicas sobre a energia hidroelétrica e o rio Columbia!

O lago formado pela Grand Coulee foi batizado em homenagem ao presidente (1933-1945) democrata Franklin D. Roosevelt. A Chief Joseph, a um cacique da região... Estão notando um padrão aqui? Agora me digam, já pensou se Itaipu se chamasse "Usina Médici / Strößner"???... Acho que não hein. E esse lago da Grand Coulee, aliás, não é grandes coisas. Ela não tem muita capacidade de reserva não... Eu ficaria ofendido por batizarem um lago pífio com meu nome!

A Chief Joseph é operada pela USACE, e a Grand Coulee e a Hoover por um certo
Bureau of Reclamation, do DOI. Engraçado, tem gente que imagina que os EUA são um país-símbolo do capitalismo, e portanto da privatização, mas suas maiores usinas hidrelétricas são estatais!...

Um aspecto ambiental interessante: Tanto a Grand Coulee quanto a Chief Joseph bloqueiam a subida dos salmões pelo rio Columbia. Mas a Johnny Day, outra usina grande que fica mais pra baixo do rio e foi construída mais recentemente, tem escada de peixe. O rio Columbia passa perto da cidade de Portland, Oregon, e forma boa parte da fronteira entre este estado, e Washington acima.

Em termos de potência total gerada em usinas hidro-elétricas, a China e o Canadá estão à frente do Brasil. Os EUA vêm só em quarto lugar. Mesmo com Santo Antônio e Jirau ainda vamos ficar apenas pertinho de ultrapassar o Canadá em potência instalada, mas muito provavelmente vamos ultrapassar em produção de energia. A maior usina hidrelétrica do Canadá também tem nome de político, e fica pros lados de Québec.

Aproveitando que estamos no assunto, ainda tão pra fazer a primeira fazenda de cata-ventos que atinja 1GW. Já as maiores nucleares do mundo estão entre uns 5 a 10 GW.

Chernobyl eram 4 estações de 1GW cada. A número 4 saiu de funcionamento antes do esperado, em 1986, mas as outras três funcionaram por muito tempo ainda. A número 2 também saiu de operação antes do previso em 1991... (que eufemismos mais gentis da minha parte!) A última só saiu de operação em 2000.

A maior nuclear de todas é/era a Kashiwazaki-Kariwa, no Japão, com pouco mais de 8GW, que está temporariamente desativada por causa de um terremoto em 2007. Entre todas usinas do mundo, só perde/perdia em potência pra três hidrelétricas: Itaipu, Três Gargantas (China), e Guri, na Venezuela, com 10GW. O nome oficial da usina da represa Guri é Central hidrelétrica Simón Bolivar, nome trocado em 2006 seguindo a tradição saxônica.

2008/03/13


Pérolas Paulistanas pt. III

"[O lugar] X fica na mesma direção... mesma direção, sentido e distância do que (o outro lugar) Y."

***

Nos corredores da melhor universidade do Brasil: “Não, não, duas barras é comentário.” Olha o nível!!! Em público eu esperava ouvir umas questões mais complexas sobre C, como: “qual é a melhor forma de utilizar o operador ternário de avaliação condicional?” Ou talvez: “Você sabia que dá pra fazer incremento numa variável void** , mas não numa void*?”...

***

“Guitarra é muito melhor do que baixo... Por acaso você já ouviu um solo de baixo?” Esse paulistano não sabe nada de música, coitado.

“A professora perguntou o que era ‘Cólera’, e eu disse que era uma banda, e ela falou que não, e eu disse que ‘é sim, professora!’...”
Aí, do mesmo autor da anterior: “...mas você sabe que Cólera é uma doença física, né.”

2008/03/05


Biziu no ITER

Eu sou a pessoa que eu conheço mais empolgada com a iminente construção do reator do ITER . Este projeto busca construir a primeira usina de geração de energia elétrica baseada em fusão nuclear, ao contrário das outras nucleares que existem hoje que são baseadas em fissão.

Só hoje, entretanto, que fiquei sabendo através dessa notícia na Nature que algumas pesquisa mais recentes mostraram que ocorre um fenômeno em plasmas relativamente quentes que não foi levado em conta no design original do reator do ITER. O fenômeno em questão são umas “erupções” muito potentes porém muito curtas, o que pode ir danificando aos poucos as paredes do Токамак. Imagino que elas devam surgir a partir de alguma não-linearidade meio sutil, não previstas por modelos mais simples da dinâmica do plasma...

Agora tão revendo o projeto, vendo de que forma controlar esse fenômeno, o que significa mais atrasos e mais dinheiro... :( (e mais diversão e aprendizado por outro lado!)

2008/03/01


Controle de NES na USB

Quem lê meus últimos extensos posts sobre assuntos tão fúteis e diversificados deve achar que eu não trabalho!... Vamos falar um pouco de trabalho! :) Faz alguns dias que comecei a aprender a mexer num simulador de robôs móveis chamado Player/Stage. Como tudo o que há de melhor nessa vida, ele é GPL e tem pacote pra Debian.

O sistema não é apenas um simulador... Ele antes de mais nada oferece uma biblioteca-padrão para você escrever programas (em C, C++, Java e acho que até python) para controlar robôs. Com um mesmo programa você pode depois controlar um robô ligado ao seu computador através do Player, ou ainda num simulador (o Stage). E ele foi criado no espírito de sistema UNIX, cheio de sockets e módulos...

O mais legal é que os caras que criaram o projeto são uns nerds furiosos. Aí, por exemplo, a página com a história do projeto diz que conta a “origem” dele, tipo um gibi “Homem Aranha número 1”, e termina falando que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”! :D

O Player deixa você controlar os robôs com um joystick. Seguindo o espírito, fiquei inspirado em tentar descolar um controle de nintendo (NES, de 8-bits, “nintendinho”) pra ligar na minha máquina!!... Não ia ser o máximo??

E quem progoogla acha!... O formidável blog technablog reporta aqui que tem um maluco vendendo controle de NES adaptado pra USB!!... (tem SNES tb) Tudo o que eu queria!... Pena que o preço é um tiquinho salgado. Vou ver na minha escola se dá pra encaixar em algum orçamento do laboratório!!... :) Sério!! Não deixa de ser um equipamento importante, afinal, e tem um design imbatível, aprovado pelo tempo, melhor do que qualquer controle diferente que podemos pensar em comprar!...

Confira também o formidável colarzinho de controle de nintendo, e o brinquinho de pac-man!... E por falar nisso, eu sou o último a ver pra vender no thinkgeek o controle remoto universal em formato de controle de NES??? :) (mais especificamente, famicon...)


Decepção arabica

Sou usuário de café, (coffea arabica segundo Linnaeus), e isso não é segredo pra ninguém. Consumo-o compulsivamente, quase convulsivamente. Sempre que viajo para algum lugar, ou me mudo, ou mesmo visito qualquer lugar desconhecido, busco descobrir um bom lugar para consumir esta adorada substância estimulante ritual legalizada. Minha rotina sempre envolve tomar um ou dois cafezinhos em dois ou três lugares diferentes ao longo do dia.

São Paulo é sempre proclamada por seus habitantes e simpatizantes como uma “capital gastronômica” do país, e um lugar onde “come-se muito bem”. Assim sendo, estou sempre desafiando os paulistanos, experimentando o cafezinho de todos estabelecimentos por que eu passo...

Hoje foi o dia de por à prova o famoso Maksoud Plaza. O tradicional hotel paulistano fica a um quarteirão da Avenida Paulista, e eu freqüentemente passo na porta quando visito a escola da minha namorada. (Passava quando ia no Stand Center, que está infelizmente interditado.) A passagem sempre era um desafio, um chamado... Hoje estávamos voltando do almoço e decidimos finalmente botar o bastião da hospitalidade e chiqueza paulistana à prova.

Tinha esperanças de gostar da experiência, já que o fundador é um inventivo engenheiro metido a filósofo como eu mesmo — não necessariamente possuidor das mesmas crenças.

Começou mal. Subimos pelo belo caminho até a entrada, eu ia vestindo uma camiseta vermelha-soviética, e carregando meu notebook de universitário descolado. Chegamos perto da porta giratória, e um dos carinhas de uniforme de Sgt. Pepper's que estava calmamente andando na entrada deu uma parada de lado, bem na minha frente, ficando no meu caminho!!... Coincidência? Sem querer?... Sei.

Entramos então no belo saguão, que eu não conhecia. Achei bem interessante... Me lembrou o jeitão do mais recente برج العرب, (Burj al Arab). Ao que parece esse tipo de construção é um “átrio gigante”, queria saber agora se é algo comum em hotéis chics.

Entramos no restaurante à esquerda da entrada, e fomos servidos: dois espressi. O preço exorbitante do produto é de R$5,00 cada. Não vem nem com uma agüinha mineral, nem mesmo um biscoitinho ou uma mentinha que seja. Deveras abusivo.

Na saída não havia garçom ou qualquer funcionário que pudéssemos chamar para ao menos avisar que o dinheiro estava em cima da mesa. Nem pude avisar também que uma das clientes anteriores havia deixando um óculos de X-centos reais sobre a cadeira...

O café nem tava ruim não. Era bem bom. Mas ao todo foi longe da “complete coffee experience”.


Dizem que muitos ricos não ficam ricos à toa. O negócio é não dar nada de graça, vender caro, aproveitar todas oportunidades à exaustão, e ser daquelas pessoas que “são assim, ó” (com o punho fechado). Vai ver que eu estava ali apenas presenciando a epítome disso.

Tem lugar aqui em São Paulo que anuncia em alto e bom som que é um “ambiente exclusivo”, um lugar “super-exclusivo”, elogiando. Tipo... o que isso quer dizer afinal? Eu tou com essa teoria de que significa: “Um lugar caro pra burro, onde pobre não dá conta de ir.” Por exemplo, um lugar onde se paga C$5 (cinco ‘conto’) com um cafezinho que não tem nada de mais, pode não ser um bom café, mas é certamente um lugar excludente. Digo, exclusivo!... Eu mesmo buscarei pra sempre me excluir de entrar lá de novo (apesar de que agora quero conhecer as famosas portas projetadas pelo dono.) É só pra quem quer, e também pode...

2008/02/29


Resolvendo a tela azul do mplayer no Ubuntu

Por falar em Ubuntu ali no post anterior, parece que tem alguma versão aí do Ubuntu que tá dando um problema com o Mplayer e outros programas de tocar vídeo, fazendo aparecer uma janela azul quando vc manda tocar qualquer coisa. O som fica normal, não dá nenhuma mensagem de erro, mas o filme fica todo azul!... (Não, não é uma BSOD!... :) pelo menos não das originais) E o problema não se limita só ao mplayer...

Nosso leitor, contribuidor e cidadão exemplar Mön5i€ur N.F. passou uma dica que funcionou pra resolver o problema aqui no computador da minha namorada. Foi só mandar o mplayer usar o driver x11... No comando do mplayer, use “mplayer -vo x11 ...”. Vc pode automatizar isso colocando a linha

vo=x11

no seu arquivo ~/.mplayer/config

Claro que o melhor é descobrir o que está errado na instalação do sistema, mas até lá vc vai se virando!... E se vc não puder editar algum arquivo de configuração porque tem medinho que usar vi, ou achar que é a coisa mais difícil do mundo colocar as palavras mágicas "-vo x11" numa linha de comando (ou nem concebe usar uma linha de comando pra abrir um filme), nesse caso, amigo, ou vai chorar em algum fórum, ou contate o seu revendedor!...

Ops!! Não tem revendedor!!... (ou sera que as pessoas acham que o pessoal que ajuda nos fóruns, e os programadores, são tipo “o revendedor” do software livre?)

((E se alguém souber como resolve the Ubuntu way, eu gostaria de saber! :) ))


Hacker também é gente

(Hoje eu vim aqui para escrever algo sério, que já não pode mais ser ignorado!)

Só outro dia que finalmente me chamou a atenção uma coisa meio forte, que a gente tá vendo por aí achando super engraçado, mas se você pensar sobre isso vai ver que não tem graça nenhuma.

Eu não sabia, até começar a procurar briga outro dia no meiobit.com, que existe um certo sentimento entre novos usuários de Ubuntu (e outras distros) de querer falar mal de outras pessoas acusadas de serem “usuários xiitas” de Linux (ou “zelotes” se vc for gringo), radicais da “velha-guarda”, cegos e insensíveis e sei lá mais o que. Fazem coisas como, por exemplo, pegar no pé do Stallman, acusando ele e outros micreiros barbudos hippies freaks engraçados de serem responsáveis pelo Linux e o FOSS em geral “não darem certo”. Ainda por cima ficam botando foto de Naruto nos fóruns da vida, e reclamando de qualquer coisinha que os outros fazem de que não gostam.

(Um pequeno parêntesis: estou me referindo a como tem moleque por aí reclamando de uma coisinha ou outra que acontece nesta ou naquela distro, e falando mal de um ou de outro jeito de fazer as coisas. Duvido que quando usavam wimdoms entrassem em fóruns falando mal de como outros usuários de windious trabalham, ou mesmo que enviassem os famosos “relatórios de erros” para a empresa chamada Microsoft, ou que contactassem seus revendedores como os programas daquele dito sistema operacional sempre recomendam fazer. Quando usam software proprietário são perfeitas ovelhinhas. Quando chegam no mundo livre ((o verdadeiro, não o S/A)), onde podem ser ouvidos, começam a tirar foto na frente do espelho achando que são fortes. São pessoas se perdendo no efeito color of the bikeshed sem se darem conta!...)

Essa “nova onda” de usuários de Linux e FOSS se caracteriza por unir pessoas descoladas, alternativas e irreverentes sem profundos conhecimentos em informática, e que também são usuários de computador que não possuem aquelas necessidades profundas e intensas de usuários especializados que infelizmente dependem para viver de software proprietários, como o chamado Adobe Photoshop ou o chamado Autocad. Não possuindo tais amarras, eles não tem muitos problemas em migrar pro mundo Linux.

Estes neófitos se preocupam pouco com detalhes técnicos de como as coisas funcionam por baixo, e muito mais com “usabilidade” dos sistemas. Não querem saber de terminal de texto ou de editar /etc/X11/xorg.conf, quanto mais utilizando o vim, ou o emacs. Este último, além de ser visto como algo inerentemente ruim por ser um editor de texto, seria ainda pior por ter sido criado pelo próprio Stallman, tido como o capeta maior do software livre (quer dizer, noutro sentido, sem ser o capetinha do BSD). E não se limitam a ficar na deles, procurando ícones secretos desenhados em estilo cristalino nos KDEs da vida. Não eles gostam de FALAR MAL de que gosta de trabalhar de qualquer outro jeito diferente. Eles querem mais do que permitir uma interface no Linux mais parecida com o Wirrows. Eles querem que SEJA SÓ assim... Pegam o bonde andando e querem não só sentar na janelinha e conversar com o motorista, mas ainda chutar pra fora as pessoas que estão sentadas no corredor por opção.

O gozado é que essa pessoal tá aí finalmente conseguindo realizar o antigo sonho de “levar o software livre para o desktop”, mas falam mal dos usuários “caretas” e “chatos” com a mesma antipatia que se vinha antes de usuários de SOs proprietários!!... Tipo, antigamente FOSS era coisa daqueles hackers sujos e renegados ali, que eram sujos e renegados por mais outros motivos, e a luta pelo FOSS era apenas mais uma coisa em comum. Agora tem um grupo de pessoas que está usando o FOSS, mas que discrimina os velhos hackers freaks do mesmo jeito!!! São os mesmos winners bullies patetas de sempre, invadindo a cultura que era um dos poucos refúgios dos velhos hackers geeks e nerds, e mandando eles saírem fora do pedaço.

Puxa, antes tudo bem, era cada um na sua, berrando pros outros do outro lado da rua. Mas como alguém tem coragem de ficar falando mal de desenvolvedores livres, e usar o produto deles?

...Alguns desses programadores nerds hackers freaks da vida achavam que um dia iam “dominar o mundo” fazendo programas que todo mundo ia achar legal. Que iam ser os chefes, e “mostrar pra eles”. Ledo engano. Os winnners da nova geração tão chegando com seus 16 aninhos de idade, pegando os programas e chutando a mão que os ofereceu, seguindo a eternamente retornante síndrome do jovem iconoclasta. Os velhos usuários de FOSS debatiam sobre seus produtos serem utilizados por "Joe User" ou por "Aunt Tillie". Jamais imaginavam que eles seriam antes popularizados entre os “Alex DeLarge” das novas gerações.



A coisa que eu só percebi agora, e que mais me motivou a fazer esse desabafo, é como é discriminadora, sem-consideração e injusta aquela campanha bonitinha do Ubuntu. Ubuntu, todos sabem, é uma distribuição cuja característica mais importante, a maior vantagem, é que “é baseado em Debian”, assim como a maior vantagem do OS X da empresa chamada Apple é que ele “tem partes aproveitadas do BSD”. E eu sempre me pergunto, porque ficar com o derivado se vc pode pegar o original?...

A campanha de marketing do Ubuntu gira em torno do slogan "Linux for human beings", ou “Linux para seres humanos” (não sei se é um slogan bacana e bem-bolado, uma frase de efeito que agradaria os l4mm3rtards, que parecem ser tão preocupados com esse tipo de coisa.)



Tipo. Não tem dúvida de interpretação, todo mundo sabe o que isso significa: seria que até chegar o Ubuntu, a distro super-mouse salvadora, as outras distos seriam difíceis, ruins, capengas e mal-acabadas, e ainda: seriam utilizáveis apenas por pessoas que não são seres humanos.

Tem ofensa maior do que isso? Falar que uma pessoa não é um ser humano? Que é alguma espécie grotesca de monstro abominável, criatura Frankensteiniana, um Shubb Nigurat ante-diluviano?

Acaba que essa campanha extremamente ofensiva e insensível representa tudo isso que está me revoltando. O pessoal está aí realmente popularizando o Linux e o FOSS, mas os esquisitos que criaram isso tudo continuam sendo discriminados. Eu sinto até que tava começando a ter uma onda de achar ser nerd legal, porque tem tantas coisas legais que eles fazem que estão começando a fazer parte da vida de todos. Mas agora agora o Ubuntu conseguiu separar as duas coisas!!... Ufa!!, pensam os n00btardeds, já posso voltar a falar mal desses loosers, e finalmente usar tranquilo esse tal desse Linux aí.

Empresas grandes e famosas de tecnologia, como a Micro$ofp, a Apple, a IBM, a HP e sei lá mais quem, tem todas em comum o fato de “encapsularem” seus engenheiros. Seus produtos parecem caídos do céu, só quem lida com os clientes são marqueteiros, comunicadores sociais, publicitários, políticos et cætera. O pessoal do Ubunto tava sentindo que faltava fazer isso. Jogar no porão os engenheiros, devolvê-los para aquele poço insano onde não entram seres humanos, e transformar finalmente o Linux em mais um produto que vem numa caixinha bonita e confiável, sem os horrores inomináveis e não-euclideanos sonhados por aquelas mentes obscuras e aterradoras que são os programadores não-humanos de computadores...

E nõs, pesquisadores de inteligência artificial (o RMS era um), achando que ainda faltava muito até vermos os primeiros programas feitos por entidades que não fossem seres humanos.

Primo Levi, um químico nerd italiano que teve a infelicidade de viver numa era onde nerds eram ainda mais duramente discriminados e repreendidos, já perguntava se a sociedade o estava tratando como um homem: escreveu o livro “É isto um homem?” sobre suas experiências com um certo tipo de gente que falaria mal do Stallman se tivessem nascido 50 anos depois. (Vejam bem, eu acredito que existe bem mais de um tipo de gente que falaria mal do Stallman, o livro de Levi é só sobre um desses vários tipos de pessoas, homens humanos, que o fariam e fazem.)


Levi ainda tinha dúvida. E há que se ter dúvida mesmo, existem muitas formas de discriminação, e uma das coisas que diferenciam elas é o quanto que a parte discriminadora considera a discriminada como humano. Alguns discriminadores só querem colocar certos colegas humanos à parte, por serem uns mais iguais do que os outros. Outros já falam em menosprezar pessoas “sub-humanas”... Alguns fazem pior, não dão nem a graça do relativo “sub-”, mas apenas desqualificam em sua totalidade, como no caso do Ubuntu, e remove do discriminado mesmo qualquer menção à possibilidade arrogante de se considerar um humano.

Isso tudo que eu escrevi não é piada não. É só rir pra não chorar.