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2008/10/14


Abaixo os binários!

Um testemunho da minha vida de micreiro, e de usuário dos programas que eu uso.

Gosto muito da minha máquina, uma Compaq v6210br. Podia ser melhor em uma porção de coisas, principalmente podia nunca ter quebrado.

Ela deu uns biziu, madei pra patética assistência técnica da HP, e ela voltou 2 meses depois. Como eles formataram o HD, tou aqui instalando tudo de novo.

Ela rodava bonitinho. A placa de rede sem-fio não lembro se rodava originalmente com o módulo nativo ou por ndiswrapper, mas eventualmente tive que passar a usar um dispositivo de wi-fi por USB, e o que funcionou pra mim foi instalar um Linux 2.6.25 "na marra" (não foi por pacote do Debian (que eu me lembre)) e usar o driver nativo, um tal rt27xx, acho.

A partir daí foi só tristeza, porque a mãquina começou a travar. Não teve mais jeito e precisei mandar pra assistência, que trocou a placa-mãe, e formatou o HD de brinde.

Fui instalar o Debian outra vez, por cima do Mandriva em que não fui inteligente o bastante pra descobrir como fazer pra instalar emacs, e aí mandei um Lenny beta 2 pra ver o que rolava. Usei a instalação "gráfica", que devo dizer que está um xuxuzinho.

Aí fui instalar os dispositivos de rede sem-fio, e ainda o módulo da câmera Logitech que me emprestaram. Peguei os pacotinhos Debian dos kernels 2.6.24 e 2.6.26. Mas foi só tristeza... Não consegui usar a rede nem por ndiswrapper, nem pelo módulos nativos (o da broadcom mudou, agora um tal b43). A câmera funcionou só através do mplayer, mas não no xawtv e nos progs de opencv que tou mexendo.

Resolvi então "apelar", e peguei direto o source do 2.6.27, lembrando da felicidade que eu havia tido antes com outro kernel "em desenvolvimento", o 2.6.25. Rolei lá o make-kpkg, e quando finalmente bootei, a rede funcionou de primeira. Estava na escola, já tarde, e satisfeito arrumei minhas coisas e fui pra casa.

Cheguei aqui, preparei uma cerveja no lado esperando passar por uma sessão de desinsetização pra fazer a câmera funcionar, e não é que a bicha funcionou de primeira??

Feliz da vida, vim aqui dar meu testemunho.

1_ Eu sofro mas eu gosto.

2_ Não tenho a menor vontade de usar nada diferente de Debian. (Talvez Debian com HURD, ou com BSD, mas Debian). Mas não significa que eu não marreto meu sistema com coisas "de fora" de vez em quando, e é assim que é pra ser.

3_ Compilar direto da fonte ao invés de baixar o binário funciona. (às vezes, claro.) É muito bom ver isso, porque essa possibilidade é justamente a diferença mais marcante entre os softwares proprietaristas e livres.

Alguém pode dizer "mas se vc estivesse usando ruíndols teria funcionado de cara, e não precisando recorrer a compilar o kernel mais novo na marra". A estes peço que leiam de novo o item 2.

EDIT: Pra deixar o posto mais útil, uma dica. Pra criar o módulo da nvidia utilizadno a fabulosa ferramenta module-assistant, que te permite (quando está tudo OK) compialr e instalar módulos com o comando (e.g.) "m-a a-i nvidia", tive que alterar o código do pacote original. São mudanças que parece que serão necessárias pra passar do 2.6.26 pro 2.6.27. Segui as dicas desse site aqui.

Foi mais difícil do que o que devia ser, porque não dá pra alterar o código e então rodar o m-a, tem que jogar o código alterado no pacote que ele descompacta... Eu poderia tentar descobrir como criar um patch, mas ia dar muito trabalho.

Aí foi correr pro abraço...

Aliás, outra dica. Por muitos anos passei muita raiva ao mexer com a configuração do X, porque precisava parar de ouvir música (com o xmms, por exemplo), ou então tocar música num console de texto, com mplayer, o que não é confortável. A solução é usar o mpd pra ouvir música, um daemon que fica tocando músicas e pode ser controlado por diferentes clientes, incluindo gráficos, de console (curses) e linha-de-comando. Aí pode reiniciar o X tranqüilo. O cliente que eu uso é o ncmpc, que rodo numa janelinha de xterm com uma fonte pequenininha, fundo branco, e com a opção "auto-center" na lista de músicas... É o melhor tocador que já tive, porque tem um esquema muito simples de navegar pelos artistas ou arquivos. Mas tenho certeza que poucos dividirão comigo este gosto...

2008/03/24


O crime do software proprietário

Todo mundo já ouviu falar do famoso desabamento do prédio Palace II . Alguns dos motivos do desabamento foram uso de material ruim na construção, como areia da praia (não exatamente pura), e falhas de projeto mesmo.

Agora me diga, o que você acharia de uma construtora que dissesse: “Vem morar aqui! Me dá R$X, e pode entrar. Mas você nunca poderá nem pensar em me perguntar a proveniencia da areia utilizada na mistura do concreto, nem medir a área das vigas da garagem, do lado de onde você estaciona seu carro.”

Por um lado, do ponto de vista puramente Hamurabiano, está tudo bem desde que você possa matar o filho do Sérgio Naya caso prédio desabe com a sua prole dentro. Mas é isso memso que a gente quer? Toda essa obscuridade?

Você não acharia interessante dar uma olhada nos cálculos do seu prédio, se quisesse? Não acharia bom que esses dados fossem públicos, nem que fosse pra não ter trabalho se um dia tivesse alguma suspeita e decidisse levar os dados pra algum engenheiro de confiança da rum parecer?

Você não acha bom nem mesmo ter a liberdade de poder dar um chutinho na parede de vez em quando pra ver se ela agüenta, ou ver a cor dos tijolos quando acontece às vezes de cair um pedaço do reboco?

Poisé, no software proprietário o que acontece é que essas liberdade são removidas. Você não só não tem acesso ao processo de cosntrução do seu produto, como freqüentemente ainda é vetado de tentar descobrir qualquer coisa sobre ele. Tudo bem que raramente um software envolve risco grave a você ou à sua família, mas a questão é a moral disso tudo, a postura, o profissionalismo.

Porque tem que entrar a vida ou saúde física de alguém em jogo pra gente começar a ser mais sério, e achar ruim o tipo de aproveitamento que os engenheiros e programadores dessas empresonas multibilionárias fazem com a gente?

Temos que cobra ruma sociedade aberta por princípio. Não devemos nem esperar o prédio cair pra furar o olho do Sérgio Naya, nem cobrar informações detalhadas de seus produtos só se você puder eventualemtne morrer devido a mal-funcionamento. Existe muito mais na vida do que apenas estar vivo. O segredo do proprietarismo de software pode não te mantar, mas faz da vida um inferninho que poderia ser evitado se fosse tudo livre.

***

O recém-falecido Arthur Clarke tinha um frase assim:


Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic.

Ou,

Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de mágica.

A prática diária da engenharia não deixa de ser uma mágica. Fazer surgir prodígios de elementos aparentemente inocentes, surgir a dinâmica a partir da inércia, ou vice-versa... E envolve estudos em alfarrábios arcanos, e o conehcimento e aplicação destemida de movimentos e palavras mágicas aparentemente sem-sentido.

O que o mundo proprietário faz é explorar isso o máximo possível. O consumidor vê apenas uma mágica se desenrolando sob seus olhos, enfeitada ainda por cima com camadas e camadas de marketting e técnicas de relacionaento pessoal, retórica pura. É mais do que mágica: tudo se torna ainda um espetáculo, onde a própria mágica começa até a passar pro segundo plano.

Numa sociedade livre, aberta, os mágicos de plantão aqui trabalham do mesmo jeito, mas não são obrigados a cochicar seus segredinhos encantados. E não ficam por exemplo vestidos de preto feito atores de um teatro kabuki, tendo o dobro do trabalho necessário para que o mago bonitão que estã iluminado no palco pareça mais bonito fazendo o número.

Na sociedade aberta, a mágica rola solta. O encanto e fantasia permeiam as ruas, em contato direto com o povo em geral. Se alguém quiser tentar começar a decorar as palavras mágicas que escuta, pode de repente começar a se tornar um mago ela mesma. E aí a tal mágica pode de repente até parar de sê-la, e a tenologia deixa de ser suficientemente avançada pra essa pessoa, tornando-se “mera” tecnologia.

Este é outro aspecto improtante da diferença entre o software proprietário e o livre. O software proprietário compete com todos, compete até com o próprio consumidor. Quando você compra o softweare proprietário, você está finalizando um processo onde o produtor está lhe causando um malefício. É basicamente um feitiço do mal, uma praga que lhe é rogada. Porque é do interesse da Sarumansoft que você dependa pra sempre dele. Já o Gandalfix pode não ter a mínia paciência de ouvir os leigos falarem sobre mágica, mas não vê problema em que as crianças brinquem. Não luta pelo monopólio.

***

Pra finalizar, pense no seguinte. Todo mundo que já trabalhou num projeto minimamente complexo sabe que praticaemnte tudo que é feito no mundo é feio como se fazem as leis e lingüiças. Tudo sempre sai meio mal-projetado, feito pela metade, não otimizado, incompleto e capenga, porque sempre existem prazos pra se cumprir, e as metas raramente são claras, coerentes ou mesmo satisfatórias. Às vezes nem satisfatíveis.

Num projeto aberto, geralmente temos entusiastas trabalhando apenas pra fazer o melhor programa possível. Não tem pressões de marketting, não tem requisitos estranhos... Só tem engenheiros felizes criando programas felizes.

Eu só me dei conta dessa questão claramente quando li a Proposta do projeto SWAN. Esses caras estão trabalhando pra fazer um substitudo pro firmware que vem nesses tocadores de MP3 “chineses”, “genéricos”... Na verdade a maioria é essa arquitetura chamada s1mp3, duma empresa chamda Actions, e a idéia é explorar essa arquitetura. Abaixo vem um texto tirado do site deles.


When a manufacturer releases a new product, they work with a limited number of staff and to a tight deadline. These limitations in resources are, sadly, reflected in the limitations of the firmware that the manufacturer is able to supply.

With more programmers and unlimited time, a product can always be improved. The s1mp3.org project is set up to achieve just that. Although we all work for free, we are an enthusiastic and organised team with no corporate deadlines to stifle our creativity.

ActionsTM have supplied the world with some incredible technology. The SWAN Firmware will unlock the true power of your ActionsTM based MP3 Player. Think of it as putting finely tuned Formula-1 Engine in your Rolls Royce.


Traduzindo,

Quando um fabricante lança um produto novo, eles trabalham com ua equipe limitada, e com um prazo apertado. Estas limitações de recursos se refletem, infelizmente, nas limitaçoes do firmware que o fabricante é capaz de fornecer.

Commais programadores e com um tempo ilimitado, um produto sempre pode ser melhorado. O projeto s1mp3.org foi formado justamente para isto. Apesar de todos trabalharmos de graça, somos uma equite entusiasmada e organizada sem prazos corporativos para restringir nossa criatividade.

A Actions (tm) forneceu para o mundo uam tecnologia incrível. O Firmware SWAN vai destravar o verdadeiro poder do seu player baseado em Actions. Pense nisso como colocar um motor de Fórmula-1 ajustado nos mínimos detalhes em seu Rolls Royce.


Esse que é o lance!... Esse é o barato. Tudo bem que pra construiur uma pirâmide vc precise ir lá montar toda uma estrutura de poder imperialista e opressora e ainda fazer tudo meio nas coxa. Mas isso não se compara com uma boa obra de arte, certo? O que você prefere pendurar na sua sala, algum pedaço de cortina fabricada em alguma filial gigante de uma mega empresa, um tapete persa feio com mão-de-obra infantil, ou um tapete feito com amor e carinho por uma pessoa que não só se importa com aquilo, com também não foi forçada a fazê-lo para não morrer de fome?

Claro que qualquer pessoa prefere a terceira opção, mesmo que visualmente essas coisas pudessem até parecer iguais (e raramente parecem). Quem não gosta do pequeno produtor local? Do artesão velho e experiente que domina sua arte e trabalha livremente por prazer, senão por capricho?... A diferença é que pra fazer bilhões de cópias de um pedaço de pano desenhado você realmente vai precisar de algum tipo de fábrica ou manufatura tosca. Software não, é só copiar!...

Já pensou se todo mundo pudesse ter um verdadeiro exemplar de algum quadro foda, como um Van Gogh ou Rembrandt em casa?...

Resumindo, qual sistema operacional você prefere ter: um Vermeer ou um Thomas Kinkade?

2008/02/29


Hacker também é gente

(Hoje eu vim aqui para escrever algo sério, que já não pode mais ser ignorado!)

Só outro dia que finalmente me chamou a atenção uma coisa meio forte, que a gente tá vendo por aí achando super engraçado, mas se você pensar sobre isso vai ver que não tem graça nenhuma.

Eu não sabia, até começar a procurar briga outro dia no meiobit.com, que existe um certo sentimento entre novos usuários de Ubuntu (e outras distros) de querer falar mal de outras pessoas acusadas de serem “usuários xiitas” de Linux (ou “zelotes” se vc for gringo), radicais da “velha-guarda”, cegos e insensíveis e sei lá mais o que. Fazem coisas como, por exemplo, pegar no pé do Stallman, acusando ele e outros micreiros barbudos hippies freaks engraçados de serem responsáveis pelo Linux e o FOSS em geral “não darem certo”. Ainda por cima ficam botando foto de Naruto nos fóruns da vida, e reclamando de qualquer coisinha que os outros fazem de que não gostam.

(Um pequeno parêntesis: estou me referindo a como tem moleque por aí reclamando de uma coisinha ou outra que acontece nesta ou naquela distro, e falando mal de um ou de outro jeito de fazer as coisas. Duvido que quando usavam wimdoms entrassem em fóruns falando mal de como outros usuários de windious trabalham, ou mesmo que enviassem os famosos “relatórios de erros” para a empresa chamada Microsoft, ou que contactassem seus revendedores como os programas daquele dito sistema operacional sempre recomendam fazer. Quando usam software proprietário são perfeitas ovelhinhas. Quando chegam no mundo livre ((o verdadeiro, não o S/A)), onde podem ser ouvidos, começam a tirar foto na frente do espelho achando que são fortes. São pessoas se perdendo no efeito color of the bikeshed sem se darem conta!...)

Essa “nova onda” de usuários de Linux e FOSS se caracteriza por unir pessoas descoladas, alternativas e irreverentes sem profundos conhecimentos em informática, e que também são usuários de computador que não possuem aquelas necessidades profundas e intensas de usuários especializados que infelizmente dependem para viver de software proprietários, como o chamado Adobe Photoshop ou o chamado Autocad. Não possuindo tais amarras, eles não tem muitos problemas em migrar pro mundo Linux.

Estes neófitos se preocupam pouco com detalhes técnicos de como as coisas funcionam por baixo, e muito mais com “usabilidade” dos sistemas. Não querem saber de terminal de texto ou de editar /etc/X11/xorg.conf, quanto mais utilizando o vim, ou o emacs. Este último, além de ser visto como algo inerentemente ruim por ser um editor de texto, seria ainda pior por ter sido criado pelo próprio Stallman, tido como o capeta maior do software livre (quer dizer, noutro sentido, sem ser o capetinha do BSD). E não se limitam a ficar na deles, procurando ícones secretos desenhados em estilo cristalino nos KDEs da vida. Não eles gostam de FALAR MAL de que gosta de trabalhar de qualquer outro jeito diferente. Eles querem mais do que permitir uma interface no Linux mais parecida com o Wirrows. Eles querem que SEJA SÓ assim... Pegam o bonde andando e querem não só sentar na janelinha e conversar com o motorista, mas ainda chutar pra fora as pessoas que estão sentadas no corredor por opção.

O gozado é que essa pessoal tá aí finalmente conseguindo realizar o antigo sonho de “levar o software livre para o desktop”, mas falam mal dos usuários “caretas” e “chatos” com a mesma antipatia que se vinha antes de usuários de SOs proprietários!!... Tipo, antigamente FOSS era coisa daqueles hackers sujos e renegados ali, que eram sujos e renegados por mais outros motivos, e a luta pelo FOSS era apenas mais uma coisa em comum. Agora tem um grupo de pessoas que está usando o FOSS, mas que discrimina os velhos hackers freaks do mesmo jeito!!! São os mesmos winners bullies patetas de sempre, invadindo a cultura que era um dos poucos refúgios dos velhos hackers geeks e nerds, e mandando eles saírem fora do pedaço.

Puxa, antes tudo bem, era cada um na sua, berrando pros outros do outro lado da rua. Mas como alguém tem coragem de ficar falando mal de desenvolvedores livres, e usar o produto deles?

...Alguns desses programadores nerds hackers freaks da vida achavam que um dia iam “dominar o mundo” fazendo programas que todo mundo ia achar legal. Que iam ser os chefes, e “mostrar pra eles”. Ledo engano. Os winnners da nova geração tão chegando com seus 16 aninhos de idade, pegando os programas e chutando a mão que os ofereceu, seguindo a eternamente retornante síndrome do jovem iconoclasta. Os velhos usuários de FOSS debatiam sobre seus produtos serem utilizados por "Joe User" ou por "Aunt Tillie". Jamais imaginavam que eles seriam antes popularizados entre os “Alex DeLarge” das novas gerações.



A coisa que eu só percebi agora, e que mais me motivou a fazer esse desabafo, é como é discriminadora, sem-consideração e injusta aquela campanha bonitinha do Ubuntu. Ubuntu, todos sabem, é uma distribuição cuja característica mais importante, a maior vantagem, é que “é baseado em Debian”, assim como a maior vantagem do OS X da empresa chamada Apple é que ele “tem partes aproveitadas do BSD”. E eu sempre me pergunto, porque ficar com o derivado se vc pode pegar o original?...

A campanha de marketing do Ubuntu gira em torno do slogan "Linux for human beings", ou “Linux para seres humanos” (não sei se é um slogan bacana e bem-bolado, uma frase de efeito que agradaria os l4mm3rtards, que parecem ser tão preocupados com esse tipo de coisa.)



Tipo. Não tem dúvida de interpretação, todo mundo sabe o que isso significa: seria que até chegar o Ubuntu, a distro super-mouse salvadora, as outras distos seriam difíceis, ruins, capengas e mal-acabadas, e ainda: seriam utilizáveis apenas por pessoas que não são seres humanos.

Tem ofensa maior do que isso? Falar que uma pessoa não é um ser humano? Que é alguma espécie grotesca de monstro abominável, criatura Frankensteiniana, um Shubb Nigurat ante-diluviano?

Acaba que essa campanha extremamente ofensiva e insensível representa tudo isso que está me revoltando. O pessoal está aí realmente popularizando o Linux e o FOSS, mas os esquisitos que criaram isso tudo continuam sendo discriminados. Eu sinto até que tava começando a ter uma onda de achar ser nerd legal, porque tem tantas coisas legais que eles fazem que estão começando a fazer parte da vida de todos. Mas agora agora o Ubuntu conseguiu separar as duas coisas!!... Ufa!!, pensam os n00btardeds, já posso voltar a falar mal desses loosers, e finalmente usar tranquilo esse tal desse Linux aí.

Empresas grandes e famosas de tecnologia, como a Micro$ofp, a Apple, a IBM, a HP e sei lá mais quem, tem todas em comum o fato de “encapsularem” seus engenheiros. Seus produtos parecem caídos do céu, só quem lida com os clientes são marqueteiros, comunicadores sociais, publicitários, políticos et cætera. O pessoal do Ubunto tava sentindo que faltava fazer isso. Jogar no porão os engenheiros, devolvê-los para aquele poço insano onde não entram seres humanos, e transformar finalmente o Linux em mais um produto que vem numa caixinha bonita e confiável, sem os horrores inomináveis e não-euclideanos sonhados por aquelas mentes obscuras e aterradoras que são os programadores não-humanos de computadores...

E nõs, pesquisadores de inteligência artificial (o RMS era um), achando que ainda faltava muito até vermos os primeiros programas feitos por entidades que não fossem seres humanos.

Primo Levi, um químico nerd italiano que teve a infelicidade de viver numa era onde nerds eram ainda mais duramente discriminados e repreendidos, já perguntava se a sociedade o estava tratando como um homem: escreveu o livro “É isto um homem?” sobre suas experiências com um certo tipo de gente que falaria mal do Stallman se tivessem nascido 50 anos depois. (Vejam bem, eu acredito que existe bem mais de um tipo de gente que falaria mal do Stallman, o livro de Levi é só sobre um desses vários tipos de pessoas, homens humanos, que o fariam e fazem.)


Levi ainda tinha dúvida. E há que se ter dúvida mesmo, existem muitas formas de discriminação, e uma das coisas que diferenciam elas é o quanto que a parte discriminadora considera a discriminada como humano. Alguns discriminadores só querem colocar certos colegas humanos à parte, por serem uns mais iguais do que os outros. Outros já falam em menosprezar pessoas “sub-humanas”... Alguns fazem pior, não dão nem a graça do relativo “sub-”, mas apenas desqualificam em sua totalidade, como no caso do Ubuntu, e remove do discriminado mesmo qualquer menção à possibilidade arrogante de se considerar um humano.

Isso tudo que eu escrevi não é piada não. É só rir pra não chorar.