2008/12/09


Exemplo de laço complicado

Eu sou um defensor da instrução GOTO, acho que as pessoas devem pelo menos aprender como funciona quando tão na escola. Já escrevi muito por aqui a respeito do GOTO, e do preconceito sem noção, etc.

Tudo bem que dá pra resolver qualquer problema com os for e whiles da vida, e os breaks e continues auxiliam, mas não deixa de ficar feio né gente... Não sei se fica menos feio do que usar um GOTO.

Olha esse exemplo aqui de código real que tem um laço complicado. Achei interessante porque vem direto de uma documentação de uma biblioteca, é um programa bem básico, é muito pequeno, e tem um laço bizarro.




lexer = lex.lex()
lexer.input(sometext)
while 1:
tok = lexer.token()
if not tok: break
print tok

Olha só, o sujeito teve que fazer um laço “infinito”, algo sempre chamativo. Aí tem uma atribuição, um teste com break, e um print. O problema é que não dá pra testar o tok de cara, porque é preciso a primeira atribuição. nao dá pra fazer do ... while também porque o print precisa ficar depois do teste. Não tem jeito. O teste teve que ficar no meio desses dois. Aí então faz um “laço infinito com break no meio”. Uma estrutura que não tem nome. Se fosse GOTO, seria simplesmente mais um “laço com um teste”... Pra entender esse programa eu uso mais meus conhecimentos de programação fudamental, sabedora do GOTO, do que as facilidades estruturantes oferecidas pelas estruturas whiles e fors da vida.

Claro que dá pra fazer um jeito do programa ficar mais bonito, e o verdadeiro teste que limita o laço ficar na declaração do while. Tipo:




lexer = lex.lex()
lexer.input(sometext)
tok = lexer.token()
while tok:
print tok
tok = lexer.token()

Deve até poder ficar melhor com for. Mas algo levou esse programador a optar por uma única linha de atribuição, e um break, achou que talvez isso fosse mais claro, mais simples, mais de acordo com as famosas “limitações de suas habilidades cognitivas” que preocupavam Dijkstra. Eu pergunto: Será que estamos satisfeitos com nossas linguagens?...


Listinha de presentes

É sempre bom manter atualizada uma listinha de presentes que eu gostaria de ganhar, pra se alguém resolver assim, de repente, comprar alguma coisa pra mim. É uma ferramenta importante de auto-conhecimento também, fazer uma lsitinha dessas, que não é muito diferente de escrever uma carta pro Papai Noel não é mesmo?...

Aí vai então:

  • Livros da Amazon ou Livraria Cultura, tenho wishlists enormes lá que atualizo de quando em vez.
  • Chaverinho de 10 reais do multi-coisas, com uma tirinha de couro e clipe pra prender no cinto e aro grande.
  • Camiseta do Sepultura (a velha, de verdade, preta, com o S vermelho)

Por enquanto só essa miséria, um dia ponho mais coisa...

2008/12/07


O spam do século XX

Poeminha bobo aí que eu pensei outro dia no ônibus. Alguns argumentam que não teria nada de poésico, mas fazer o que, sorte que não sou poeta profissional!



De um lado da rua vem o caminhão de lixo,
Recolhendo.
Do outro o dos correios,
Entregando.

2008/12/05


A mensagem de Pessoa

Finalmente achei na Internet um bom depósito de poemas de Fernando Pessoa. Lá tem na íntegra o único livro (em Português) publicado pelo poeta em vida, Mensagem, que fala sobre os gloriosos navegadores portugueses. Esse livro contem o famoso poema Mar Português, com os versos “quanto do teu sal/são lágrimas de Portugal”.

Lendo esse livro num livraria outro dia, vi um outro poema que achei muito bom. É sobre Fernão de Magalhães. Pra quem não conhece, a Wikipédia informa: navegador português, liderou uma expedição espanhola que buscava atingir a região da Indonésia através do oceano pacífico, e eventualmente circumnavegar o planeta. Magalhães morreu no meio do caminho, entretanto, na Batalha de Mactan. O navegador basco Juan Sebastián Elcano liderou o resto da viagem até a Espanha. Mas Magalhães ainda foi um dos primeiros homens a cruzar todos meridianos, entretanto, porque já estivera lá na Indonésia anteriormente, só que vindo pelo caminho desbravado por Vasco da Gama.

(O primeiro capitão a sair e voltar pra casa comandando sua expedição acho que foi o inglês James Cook.)

Aí vai o poema...


No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto -
Cingi-lo, dos homens, o primeiro -,
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

2008/12/03


O nome da moda

Vi num blog outro dia alguém definindo, enunciando o significado das duas mais novas e excitantes entradas na taxonomia da cultura jovem brasileira contemporânea: "nerd" e "geek". Geeks seriam carinhas descolados que gostam de "gadgets" (principalmente dos da empresa de Cupertino, Apple), usam roupas com um visual do futuro, ou com ícones de jogos "de 8 bits", e cortam cabelo igual personagem de mangá. Nerds são pessoas que sabem alguma coisa sobre como os tais gadgets funcionam e são construídos, e lêem mangás com uma década de antecedência, e são tolerados pelos tais geeks, o que é novidade, já que na tal década antecedente eles não eram tolerados era por ninguém. Nerds usam óculos feios, e geeks usam óculos escuros feios.

Acho maravilhoso ver a forma como as palavras foram ganhando esse significado aí, e como de repente chegou esse momento em que alguém se preocupou em definir, pra "todo mundo combinar" que é isso aí, e a gente poder falar em "moda geek" sem espantar muito o consumidor, porque "geek é OK", não quer dizer que você é uma pessoa que comete atrocidades como estudar trigonometria no fim-de-semana...

Acho que a principal força a estabelecer o "geek" como o transado, e o "nerd" como o que não transa, foi o filme "A Vingança dos Nerds"... Não conheço nada tão marcante com a palavra "geek". Existe ainda algo de fonético em "geek" que o torna mais "bakaneenha", enquanto "nerd" soa como uma tentativa frustrada de um afásico em comunicar qualquer coisa.

Acredito que o fenômeno da segregação social de afásicos, de vários tipos, tem muito a ver com esse assunto aqui.

Verdade seja dita, "geek" e "nerd" são ofensas. São indelicadezas pronunciadas cotidianamente por pessoas intolerantes e insensíveis, a que os alvos destas acabam "se acostumando", e integrando à sua própria personalidade: "sim, é, sou estranho, esquisito, sou um palhaço, riam de mim..." Acho o cúmulo que pessoas que viveram suas vidas submetidas a este tratamento de aberração, bobo-da-corte, motivo de chacota, etc, precisem viver ainda o drama de saber se são "geek" ou "nerd". Quer dizer, não tem fim a crítica? Depois de já ser definido que você é uma aberração risível, você ainda tem que escolher entre dois subgrupos?

Já tenho raiva de ver isso na gringa, mas aqui no Brasil a questão toda tem um twist, o fato de não falarmos inglês e então palavras como twist, que tem significado tradicional, "de dicionário", se tornam neologismo com mais facilidade, adquirindo aqui primariamente o significado que é secundário na língua de origem.

Eu queria contar uma história sobre nerds geeks, porque sempre que ouço essas palavras na mídia moderninha, (tipo a revista Geek) lembro-me de histórias dessas. Tinha um amigo meu na escola que um dia ganhou a alcunha de "Esquisito". "O Esquisito", nossos coleguinhas chamavam ele. Era em português mesmo, não tinha o eufemismo de um anglicismo. Ele lutou por algum tempo, mas acabou aceitando eventualmente. Ainda com algum rancor eventual, acho, mas acabou aceitando sim.

Ele era um cara que tinha algumas habilidades informáticas, certamente acima dos nossos coleguinhas discriminadores. Não sei se ganharia de mim no Code Jam, mas seria certamente capaz de entender do que se tratava. Comprei dele minha primeira placa de som, uma Sound Blaster pré-Pro. Não tenho como expressar o carinho que tenho por aquela pequena placa de som que instalei eu mesmo no meu 286, e me abriu as portas para os joguinhos "modernos", talvez até pra computação gráfica (apesar de tecnicamente não ter nada a ver). Era um dos caras com que eu conversava no recreio, e fazia trabalho em grupo, e fugia do futebol. Deviamos ser ali uns 10 caras estranhos que conviviam no limbo social, e dentre eles tinha o sub-grupo dos caras que mexiam com computador, que deviam ser uns 3 ou 4.

Esse mesmo colega meu foi basicamente um líder num movimento de repúdio a um colega nosso que, como posso dizer, realmente escapava com folga do "normal". Não sei o que ele tinha/tem, mas talvez beirasse a afasia. Digamos apenas que se Alexander Luria entrasse na sala, talvez fosse tomado por um imediato interesse nele.

Esse meu colega Esquisito então inventava apelidos piores ainda pra ele, enchia o saco, fazia piada, e tals. E assim se afastava um pouco do fundo do poço da esquisitice. Havendo mais "losers" abaixo, você fica mais perto dos "winners" na dualidade tradicional dos filmes nas high-schools norte-americanas.

Não sei se todo mundo entende muito bem como funciona isso tudo, mas quando você é um "esquisito", muitas vezes essas humilhações são basicamente tudo o que você pode esperar de convívio social, e é assim que você acaba aceitando tudo. Porque é melhor viver achacado do que isolado. No final das contas, posso condenar todos ataques e achaques, mas não deixava de ser alguém dando atenção ao sujeito, o que às vezes é melhor do que a alternativa: não ligar.

Tem uma coisa interessante sobre esse nosso colega esquisitíssimo... Apesar de todos meus colegas morarem mais ou menos na mesma região ali, eu quase nunca encontrava com eles nas ruas. Quase nunca encontrei colegas meus passeando no(a) Savassi, por exemplo. Ele não, sempre vejo ele por aí, é o único colega de escola que reencontro anos depois do fim da tortura. Não é engraçado que o cara mais "esquisito" de todos seja o único "normal", que anda na cidade? Porque as pessoas não andam na cidade, meu deus??... Nunca entendi bem isso. É porque todo mundo tinha/tem carro menos ele e eu? Vão sempre em lugares caros e exclusivos? É porque todo mundo tá no trabalho ou estudando em casa naquele horário em que eu e ele saímos pra vagabundear por aí? Sei lá... Sempre entendi que éramos esquisitos em várias coisas, mas nunca entendi que freqüentar a Savassi às 15:00 fosse uma esquisitice.

De repente está aí o lance da "redenção do esquisito". Porque nós, palhaços, somos experimentadores inconscientemente, e acabamos dando uma dentro de vez em quando, e criamos moda... Esquisitos tem um certo destino-manifesto de desbravadores, como os degredados da Europa que colonizaram o Novo Mundo. Somos o contrário em vários parâmetros, e rechaçados por tal, mas às vezes contrariamos um certo parâmetro que agrada a galera, e caímos nas graças do povo, até que a moda se estabelece e viramos lixo de novo.

Então sei lá, entendo um pouco o lance de "revelar o charme" dos nerds sim, e a moda recorrente de cultuar o "bizarro" (palavra de significados notoriamente controversos). Mas quando a conversa começa a ficar prática demais, ali na famosa diferença entre o Charme e o Funk, começa a me dar asco. Começa a sair da coisa "true". O universo da repressão dos garotos que gostam de matemática, e os outros esquisitos, é muito maior do que essas marcas que tão sendo inventadas aí agora, com essas definições fáceis assim tipo, "geeks são caras que fazem as coisas, e nerds são fracassados"... Isso é conversa de empresário querendo ganhar dinheiro, gente, é marketing.

Talvez seja por ter convivido tanto com os esquisitos, as aberrações das escolinhas, por conhecer de perto essa sutil discriminação (que não é muito noticiada porque não envolve nem raça nem religião), é que não sei mais achar graça de "ser nerd". Nem sei achar aceitável que exista um tipo de esquisito "que se deu bem", e um que continua atirado à nerda. Eu até soube ver graça nisso por um tempo, mas hoje quero acreditar que as pessoas são mais complicadas do que isso. Que especialmente as pessoas estranhas possuam uma diversidade que é desrespeitada quando se tenta enquadrá-la em rótulos e nomes de "tribos".

Temos que dar cabo desse negócio de dar nome pra quem faz alguma coisa da vida. Nós é que somos os normais. Nós é que nos atiramos sem ressalvas à vida nesse universo. Tiramos nossas máscaras e damos a cara a tapa na sociedade. Somos afásicos, falastrões, burros, inteligentes, feios, charmosos, misteriosos, simpáticos, amedrontadores... Somos gente de verdade, muito prazer.

***

Aaah, já ouço meus colegas de escola lendo isso, e reagindo com um popular "dããã que mongol". Ou talvez um "hahaha e agora, você vai chorar?" Talvez me perguntando se eu quero ser padre. Caralho, uma vez me perguntaram se eu queria ser PADRE, velho!... Vai ser esquisito assim lá... em casa. Pior que eu já quis.


Blogando de dentro do Emacs

Estou testando um programinha pra postar no Blogger de dentro do emacs. Tentei previamente usar um tal g-client que não funcionou direito não. Mas esse e-blogger aqui parece ser bacaninha. Se esse post não for deletado,q ue dizer que funcionou, e que eu gostei!...

2008/11/30


Pensando Pessoa

Só recentemente que descobri, e me descobri em, Fernando Pessoa. Sujeito fenomenal, grande poeta. Viveu em um período por qual tenho uma especial afeição, o comecinho do século XX. O sujeito foi influenciado por pessoas de que em gosto, ou por quem tenho curiosidade, como Edgar Allan Poe e Walt Whitman, mas é autor losófono. Não conhecia alguma personalidade antiga em que pudesse me apoiar na tarefa de ser um falante de português admirador destes autores anglófonos. Tenho gostado muito de vários poemas dele...

Esse li ao acaso numa livraria hoje. Não decorei exatamente, é algo assim:

O Mundo, ó alma cansada,
é uma porta aberta
que possui atrás [desta?]
uma outra porta, fechada.

2008/11/21


caso de teste, uso de estudo

Esse post entra um pouco nas minhas indagações a respeito de como fazer certas traduções. Tem uma verbo no inglês muito bacana, 'exploit', que tem um som bonito, que passa uma impressão forte, é até nome de banda punk. Tenho me deparado muito com ela porque em aprendizagem de máquina a gente fala muito na dualidade "exploration / exploitation", e a gente gostaria, naturalmente, de traduzir este termo.

Dizem que em português já se institui "explotação". Até o digníssimo Sérgio Pachá da ABL me disse --- numa gentil resposta a uma extensa inquirição minha --- que tudo bem usar essa palavra, que inclusive integra o hino nacional do Timor Leste. Mas sei lá, não faz parte do repertório de palavras que usava quando era mais jovem, e sinto uma certa rejeição por ela.

Acho que em português é mais natural falar "exploração" nos dois casos mesmo... "Explorar uma mina", por exemplo, valeria igualmente para geólogos e espeleólogos, e pros engenheiros e mineiros. Não podemos usar essa palavra, entretanto, porque queremos justamente fazer uma distinção entre ambas atividades ao caracterizar a referida dualidade.

Uma palavra alternativa de que gosto muito é "espoliar". Ela preserva a agradável aliteração (explorar/espoliar), e dá uma descrição bem dramática. O verbo nos remete logo à palavra "espólio", uma riqueza obtida por meios até meio imorais... Acho que era perfeito, mas poucos concordam comigo.

Outra alternativa, que não tem muita beleza fonética, é "aproveitar". Acho que em mineração até utiliza-se muito o termo "aproveitamento" pra falar da produção de uma mina... "Aproveitar-se" é uma expressão bem-conhecida, e faz bastante sentido... Nossos sistemas vão "aproveitar-se" se seus conhecimentos e do ambiente pra atingir um objetivo. Mas ninguém gosta muito dessa alternativa porque perde lá a riminha, e a palavra não soa nada como "exploit"...

Hoje decidi que vou é chutar o pau da barraca. Não vou mais me submeter à tortura de tentar achar uma traduçãozinha perfeita pra riminha britânica, e vou é usar um par de palavras que me pareçam adequadas, pensadas ab ovo.

E minha conclusão é que deveríamos falar "teste/uso".

É tão mais simples!! Primeiro é bom por ser mais curtinho de escrever e falar, e dá até pra falar como uma palavra só: "O problema do testiuso..." Acaba com o horror que é você falar e ouvir o extenso "exploraçãoexploitação", e cometer um errinho fonético que faça cair por terra a edificação deste mamute ortográfico.

E é principalmente bom porque remove o romantismo. "Explorar" faz vc pensar num robô usando capacete de conquistador espanhol, pegando malária e desenhando mapas na Colômbia ou Peru. "Teste" transforma tudo num comportamento boçal e estúpido de um rato de laboratório drogado e com a massa cinzenta submetida à ablação. Ele não faz uma estimulante "exploração" de um espaço pra procurar obstáculos inconvenientes, e ver se o botão tem alguma "função" ou "papel" no ambiente. Ele só "testa" se ao andar pra frente ele não enfia a cabeça na parede, e se o botão faz a dor parar ou não.

"Uso" também tira essa coisa do colonizador, da moral, da "esperteza", do se-dar-bem. O cara tá só usando o negócio lá, e pronto. "Usando" a política obtida pelo processo de aprendizagem, ao invés da original. Usando um cotonete pra limpar o ouvido. Pronto.

Teste/uso. "O clássico dilema teste/uso da aprendizagem de máquinas". Pronto, falei, tá na Internet, tá na boca do povo já.

2008/11/20


Agradecimento ao Google

Querido Google. Muito obrigado pelo tema "terminal" do gmail. Estou emocionado. Combinou muito bem com meu Vimperator. Não quer dizer que eu vá parar de usar mutt, claro, mas não deixa de ser legal.

Só me deixa triste que precise ser o último teminha da lista, porque existem inúmeras pessoas do mundo que podem se chocar ou tremer de medo ao ver de repente este tema... Mas essa é a vida no rabo da gaussiana, e eu não troco por nada.

Mais uma vez obrigado,
++nicolau

2008/11/15


Coisinhas e problemões

Finalmente dando continuidade à série de artigos sobre peculiaridades da língua portuguesa, que a tornam satisfatoriamente "rica" ao contrário do que se ouve por aí, vamos falar sobre diminutivos e aumentativos.

Essas coisinhas existem também no espanhol, onde acredito serem usadas de forma similar. É não apenas uma útil forma de qualificação de coisas, mas também uma útil ferramenta para criação de neologismos. Várias palavras existem por aí que surgiram como diminutivo ou aumentativo de alguma outra, e se estabeleceram como palavra específica.

Diminutivos e aumentativos pode tanto tornar algo mais respeitoso quanto ridicularizar. Um "diminutivozinho" é sempre útil pra tornar a fala mas infantil ou ingênua, por exemplo. Pode impedir que alunos medrosos se espantem: "Olha gente, pega essa expressãozinha, e joga na integralzinha. Roda esse programinha com os dados da tabelinha que a gente mediu". Pode tornar algo mais amigável, um "amigão" seu.

Em inglês eu conheço alguns instrumentos similares. Tem o lance de botar um "y" no fim das palavras, por exemplo. "thing - thingy", "computer - computey", sei lá. Não é oficial, não funciona sempre... Pra aumentativo tem um negócio de botar "-o" nas palavras que às vezes acho parecido. Mas também não funciona muito bem. Em francês acho que existe o "ette" pra criar diminutivos, mas não sei se funciona ou é usado da mesma forma que nosso "inho".

Eu sempre esbarro em exemplos de palavras e frases em português com diminutivos ou aumentativos que não consigo traduzir pro inglês sem ao menos achar feio. Qualquer Xinho que vira "small X" fica ridículo. Olha aí o Felipão, "Big Phil", não é a mesma coisa... Que dizer por exemplo do recente Mensalão? como traduzir isso? "Big Phil" é fácil de entender, mas "Big monthly" ou talvez "big allowance" não traduzem tudo.

Como passar em inglês a mesma sensação de "um pedação de queijo?" Um pedação não é simplesmente um "pedaço grande". Quando a gente fala assim, com o "grande" separado, dá uma sensação de uma qualificação mais técnica assim, quase um projeto de engenharia... "Um pedaço com uma proporção 1:3.5 a um pedaço convencional."

Enfim, talvez seja muita viagem minha, mas desde que reparei na dificuldade de traduzir diminutivos e aumentativos, passei a apreciar melhor esta feraremnta de nossa língua.